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O café virou muleta da produtividade e isso pode cobrar um preço alto
Publicado 04/04/2026 • 07:00 | Atualizado há 7 horas
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Publicado 04/04/2026 • 07:00 | Atualizado há 7 horas
Unsplash.
Seja para começar o dia com mais disposição, fazer uma pausa entre as demandas, socializar com os colegas ou manter o ritmo diante de uma agenda cheia, o café se tornou presença constante na rotina corporativa. Mais do que um hábito, ele passou a ocupar um papel funcional no sustento do ritmo de trabalho.
Esse comportamento está tão incorporado ao cotidiano que um levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café mostra que o Brasil ocupa hoje a posição de segundo maior consumidor da bebida no mundo, com uma média de cerca de 5 a 6 quilos por pessoa ao ano, o equivalente a aproximadamente 800 xícaras por habitante.
No ambiente profissional, esse padrão também se reflete em números expressivos. Dados da Statista indicam que cerca de 65% dos trabalhadores consomem, em média, três xícaras de café por dia. Levantamentos da National Coffee Association seguem na mesma direção e mostram que uma parcela significativa dos profissionais considera a bebida um elemento importante para atravessar a jornada de trabalho.
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Mais do que um simples hábito, o consumo frequente passou a ser associado à ideia de desempenho. Em ambientes de alta exigência, o volume de café ingerido funciona como um marcador informal da intensidade da jornada, sobretudo entre profissionais submetidos a prazos apertados e múltiplas entregas simultâneas.
Esse padrão levanta um ponto central: até que ponto o consumo constante de café reflete produtividade e em que momento ele passa a sinalizar um modelo de trabalho que exige mais do que o corpo consegue sustentar? A questão envolve o efeito da cafeína no organismo, a intensidade das jornadas e o espaço real disponível para recuperação ao longo do tempo.
A cafeína atua no organismo como um estimulante do sistema nervoso central e interfere diretamente nos mecanismos que regulam o estado de alerta e a sensação de cansaço. No cérebro, a adenosina se acumula ao longo do dia e sinaliza a necessidade de descanso. Ao bloquear seus receptores, a cafeína reduz a percepção da fadiga e mantém níveis mais elevados de atenção e prontidão.
Esse mecanismo favorece a concentração, o tempo de reação e a continuidade das tarefas, o que ajuda a explicar por que 43% dos trabalhadores consideram o café a principal bebida associada ao desempenho no trabalho, segundo dados da National Coffee Association. Ainda assim, o organismo continua acumulando sinais de desgaste ao longo da jornada.
Essa diferença entre percepção e condição fisiológica aparece com frequência. O endocrinologista Filippo Pedrinola, Head Nacional da Brazil Health, observa que o consumo elevado de café entre profissionais de alta performance costuma estar associado à privação de sono, ao estresse persistente, à alimentação irregular e ao desalinhamento do ritmo biológico. “A cafeína mascara o cansaço, mas não resolve o problema de base. O organismo continua precisando de descanso, mesmo quando a pessoa sente que está funcionando bem”, afirma.
Ao longo da rotina, esse uso frequente pode funcionar como uma forma de compensar um organismo que não conseguiu se recuperar adequadamente. “Na maioria das vezes, o excesso de café não é a causa do problema, é o sintoma de um organismo cronicamente sobrecarregado e mal recuperado”, afirma Pedrinola.
A cafeína também estimula a liberação de catecolaminas, como adrenalina e noradrenalina, mantendo o organismo em estado de ativação por mais tempo. Esse estado sustenta a sensação de foco e continuidade, ao mesmo tempo em que reduz a percepção de limites físicos e mentais. Em rotinas mais exigentes, esse efeito pode retardar a percepção de desgaste, já que o desempenho aparente se mantém mesmo diante de sinais acumulados de fadiga.
As pausas ao longo da jornada ajudam a explicar por que o café se mantém tão presente na rotina de trabalho. Em dias marcados por demandas contínuas, esses intervalos organizam o ritmo, permitem breves momentos de recuperação e favorecem a interação entre equipes. Estudos sobre ambiente corporativo indicam que pausas associadas ao café estão relacionadas a ganhos de produtividade e a uma percepção mais positiva de bem-estar.
No entanto, quando o café deixa de acompanhar a pausa e passa a sustentar o ritmo, o significado desse hábito muda. A frequência com que a bebida aparece ao longo do dia passa a refletir não apenas um intervalo, mas uma tentativa contínua de manter o funcionamento diante da queda de energia.
Do ponto de vista cardiovascular, o contexto em que esse consumo ocorre também faz diferença. A cardiologista Ana Paula Andrade Garcia, membro da Brazil Health, observa que a cafeína pode elevar temporariamente a pressão arterial e provocar palpitações em pessoas mais sensíveis, especialmente quando associada a níveis elevados de estresse.
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“O problema não costuma ser o café isoladamente, mas o contexto em que ele está inserido, especialmente quando há estresse elevado e noites mal dormidas”, afirma. Com isso, o organismo permanece em estado de ativação por mais tempo, o que dificulta o relaxamento e compromete a qualidade do sono.
Esse funcionamento tende a se repetir ao longo dos dias. “Quando o sono não é reparador, a pessoa acorda cansada e recorre novamente à cafeína para dar conta da rotina”, explica. A repetição desse ciclo reduz a capacidade de recuperação e mantém o corpo em um padrão contínuo de esforço.
Pedrinola chama atenção para o fato de que, em perfis de alta performance, esse padrão pode se manter por longos períodos sem interrupção, já que o desempenho aparente continua sendo entregue. “O café pode manter a performance aparente, mas nem sempre preserva a performance biológica”, afirma.
A forma como o café se distribui ao longo da rotina ajuda a definir o papel que ele ocupa no dia a dia. Em jornadas mais intensas, o consumo tende a se espalhar por diferentes momentos, acompanhando quedas de energia e funcionando como resposta imediata à fadiga. Para Pedrinola, esse padrão merece atenção quando a bebida passa a sustentar o funcionamento ao longo de toda a jornada, sem intervalos reais de recuperação. “Quando o consumo se distribui ao longo do dia inteiro, muitas vezes ele está compensando um déficit de recuperação que não foi resolvido”, afirma.
Essa dinâmica torna necessário observar não apenas a quantidade ingerida, mas também o contexto em que o café é consumido. A concentração da ingestão em períodos específicos, sobretudo nos momentos de maior exigência cognitiva, tende a favorecer um uso mais eficiente e menos associado a um padrão contínuo. “A cafeína pode ser uma ferramenta útil quando usada de forma estratégica, mas não substitui o descanso que o organismo precisa”, diz Pedrinola.
O horário de consumo também interfere diretamente na forma como o corpo responde, especialmente quando a ingestão se estende para as horas finais do dia em rotinas já marcadas por níveis elevados de estresse. Segundo Ana Paula Andrade Garcia, isso pode dificultar o relaxamento e comprometer a qualidade do sono. “O uso frequente de cafeína no período da tarde e da noite pode dificultar o relaxamento e comprometer a qualidade do sono”, afirma.
Quando o descanso noturno é prejudicado, o consumo tende a aumentar no dia seguinte como forma de compensar a queda de energia, reforçando um ciclo contínuo que, ao longo do tempo, reduz a capacidade de recuperação e mantém o organismo em um estado prolongado de ativação.
Ajustar esse equilíbrio não implica necessariamente reduzir o consumo de forma abrupta, mas reposicionar o papel do café dentro da rotina. Quando ele deixa de ser um recurso pontual e passa a sustentar o funcionamento ao longo de todo o dia, o problema deixa de estar na xícara e passa a estar no modelo de funcionamento que ela tenta compensar.
Cinthya Dávila é editora de saúde da Brazil Health.
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