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Entre negócios e torcedores: a estratégia da La Liga para o mercado brasileiro
Publicado 20/05/2026 • 22:03 | Atualizado há 13 horas
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Publicado 20/05/2026 • 22:03 | Atualizado há 13 horas
KEY POINTS
Foto: Getty Images
Esporte é paixão. Mas, para que as engrenagens girem, além da bola, é necessário pensar nas frentes fora de campo: crescimento econômico, organização, manutenção e expansão.
O futebol evoluiu junto às mídias que se atualizavam: das mensagens enviadas por navios, passando por rádios e jornais, até chegar ao atual momento. “Para nós, é muito importante trabalhar nas redes sociais para aproximar o futebol da Liga aos fãs do Brasil”, disse o diretor da La Liga para a América Latina, Marc Tarradas, em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

Junto desta evolução, não só a informação se desenvolveu como a ambientação em torno do espetáculo progrediu. De acordo com o balanço divulgado pelo competição, o campeonato registrou uma receita de € 5,4 bilhões durante a temporada 24/25, apresentando uma valorização de 8,1% se comparado à temporada anterior.
Isso porque os clubes passaram a investir não apenas no campo, mas em todo o ecossistema que o cerca. Desde o entorno dos estádios, onde houveram uma valorização de 12% no investimento, segundo o estudo, até as redes sociais onde os clubes espanhóis mostram seu apelo junto ao público brasileiro.
De acordo com um levantamento da agência de marketing e redes norte-americana We Are Social, o Brasil se destaca como uma das populações mais conectadas à web no mundo. De acordo com o estudo, em média, três horas dedicadas somente às redes sociais diariamente.
A liga busca angraria os mais diversos fãs ao reunir a nostalgia de nomes que marcaram a competição, que vão de jogadores como Sávio e Adriano até aqueles que trazem um grande impacto no campeonato atual, como Raphinha e Vini Jr., a liga busca angariar os mais diversos fãs. O objetivo é não só aumentar a base de admiradores da liga, mas também aproximar o ecossistema do campeonato que outrora era visto apenas à distância.
Tarradas afirmou que o futebol latino é um celeiro para jogadores de destaque em todo o mundo. A competição, entretanto, teve uma única e ilustre exceção entre os grandes nomes do país.
“O fato é que, para nós, a América Latina, o Brasil, é um território muito importante. Nós pudemos desfrutar na Liga dos melhores jogadores da história do Brasil, exceto Pelé.”
Além disso, o diretor exaltou o momento da própria organização, que não age apenas como sede, mas busca expandir seu raio de conectividade com os torcedores ao redor do mundo:
“Para nós, é muito importante, com essas novas tecnologias, aproximar mais e fazer com que o futebol espanhol esteja mais perto dos fãs do Brasil, dos fãs da América Latina”, afirmou. “Queremos constantemente aproximar o futebol e gerar conteúdo específico para o Brasil, não só nas redes, mas também em eventos físicos”, disse, durante uma ação do torneio.

De acordo com a consultoria Deloitte Football Money League, mesmo sem vencer a Liga dos Campeões na última temporada, o Real Madrid e o Barcelona figuraram como os clubes que mais rentabilizaram no período. Porém, ambos precisam de estratégia na hora de gastar já que, desde 2013, a liga analisa as finanças dos clubes e impõe um limite de gastos, justamente para que a competição permaneça equilibrada.
Modelos assim são comuns no esporte. Um dos exemplos, vindo de outra modalidade, é a NFL, dedicada ao futebol americano. Anualmente, a liga gerencia o teto salarial. Na temporada 2025, por exemplo, o limite foi de US$ 279,2 milhões. As equipes mais prestigiadas enfrentam as mesmas dificuldades que os clubes de médio porte.
Em um exemplo recente, os culés enfrentaram problemas para a inscrição de jogadores, como o brasileiro Vitor Roque, já que havia um orçamento limite de € 270 milhões para a janela de movimentações. E, neste cenário de inflação no mercado de transferências europeu, o controle econômico rigoroso da La Liga acaba sendo um dos maiores trunfos para que a equidade permaneça, de modo a impedir que o campeonato se restrinja a apenas três ou seis equipes – como no caso britânico dos BigSix, composto pelos clubes mais populares e ricos, que se alternam no pódio.
“Eu penso que o controle econômico-financeiro é o sucesso diferencial da Liga versus outras competições”, disse Tarradas. “Nós pensamos que o controle econômico é importantíssimo para garantir o sucesso e o funcionamento dos clubes a longo prazo, não somente a curto.”
“Os títulos dos últimos anos mostram como o melhor controle econômico-financeiro não prejudica a competitividade internacional dos clubes. Contrário a isso, o que faz é com que os clubes sejam mais importantes, focando mais no investimento de infraestrutura, de forças de base, em manter os jogadores e criar estruturas de clubes mais robustas. Para nós, isso é o que garante o sucesso a longo prazo”, declarou.
A busca por organização e controle financeiro transformou a La Liga em uma referência global de negócios. Quem esteve no gramado no passado, entretanto, tem uma outra perspectiva de como o espetáculo mudou de ritmo. O ex-meia atacante Sávio, que viveu uma era de ouro defendendo o Real Madrid e o Real Zaragoza entre 1998 e 2007, destaca como a estrutura oferecida aos atletas hoje é incomparável.
“Taxativamente falando, é uma questão natural de profissionalização em relação aos clubes, aos estádios, aos campos, aos gramados. Hoje a gente tem um padrão muito mais profissional do que tinha na minha época. Eu vejo hoje a La Liga como realmente uma estrutura e um modelo de gestão muito mais evoluído. O profissionalismo é muito grande e eu fico muito feliz com isso”, disse.

A evolução estrutural foi acompanhada por uma mudança na dinâmica do jogo. Entre os anos 2000 e 2010, o campeonato foi marcado globalmente por centralizar os maiores duelos individuais do planeta, como os confrontos históricos entre o Real Madrid dos Galácticos ou de Cristiano Ronaldo, e o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho e Lionel Messi. Eram tempos de placares elásticos e recordes sucessivos, como na temporada de 2011/2012, quando o Real Madrid alcançou a marca histórica de 121 gols e o Barcelona 114.
Hoje, graças ao próprio controle financeiro que estruturou os clubes médios e pequenos, o campeonato se tornou mais equilibrado, competitivo e, acima de tudo, físico. A liga espanhola atual não é mais um torneio de duas equipes isoladas; ela exige um nível de preparação tática e intensidade que não existia no passado. O Real Madrid, campeão da temporada 23/24, por exemplo, garantiu o título com 87 gols, mostrando um futebol muito mais focado na força coletiva e na velocidade.
O ex-lateral Adriano, que conquistou títulos marcantes pelo Sevilla e fez parte do lendário Barcelona de Pep Guardiola, reflete sobre o choque de estilos e como o futebol de sua geração ainda vive na memória dos torcedores e familiares.
“Meu filho fala: ‘pô pai, você acha que pegou a melhor época do futebol?’ Falei, felizmente sim, né? Imagina, na minha chegada em 2005, ainda tinha os Galácticos, mas não é que tinha aquele super Barcelona e tudo”, relembra Adriano. “Assim, na minha época do Barça, pegamos uma situação em que as coisas eram muito diferentes ainda em termos de qualidade. Hoje, pode ser que a intensidade é um pouco maior, intensidade, mas sim qualidade. Acho que eu peguei uma das melhores épocas do Barça.”
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Essa mudança no perfil do jogo também se demonstra no mercado de transferências. Se, na época de Adriano, os clubes buscavam atletas experientes e consolidados por valores que hoje parecem modestos, como os € 46 milhões por Ronaldo Fenômeno em 2002, hoje a La Liga se especializou em lapidar jovens promessas e transformá-las em estrelas globais de alto rendimento físico e técnico. O jogo ficou mais rápido, mais disputado e exige atletas que aguentem o ritmo de uma temporada exaustiva, o que mostra que a evolução da liga aconteceu tanto nos escritórios quanto na exigência dentro de campo.
A mudança no perfil do mercado também transformou o papel do jogador de futebol. Se, no passado, os atletas brasileiros chegavam à Espanha conhecidos apenas pelo que faziam com a bola nos pés, hoje jovens talentos desembarcam na Europa como verdadeiros ativos multimídia, cercados por patrocinadores e milhões de seguidores antes mesmo de se consolidarem nos elencos principais.
Sávio, que acompanhou de perto a transição geracional, avalia que essa evolução digital trouxe um retorno financeiro e de imagem para os jogadores, mas exige um equilíbrio que nem sempre é fácil de se alcançar.
“Quando a gente pega a minha época ou a anterior, a gente via atletas brasileiros chegando na Espanha e o foco era totalmente no potencial deles dentro de campo. Isso fez com que os brasileiros tivessem sucesso e fossem nomes muito específicos dentro do produto da La Liga”, relembra Sávio.
“Com a evolução, veio essa questão forte fora de campo também, em relação às redes sociais e a toda essa exposição. Hoje o jogador não é só o futebol dentro das quatro linhas. Os atletas, principalmente os brasileiros, têm que tomar um pouco mais de cuidado. Por um lado, essa evolução traz um benefício muito grande através da exposição, mas é preciso cuidado para que ela não se torne prejudicial ao rendimento em campo. Se houver uma mescla equilibrada, a tendência é só ter cada vez mais sucesso.”
O peso dessa superexposição ganha contornos ainda mais complexos quando analisado pelo lado financeiro e psicológico. Adriano aponta que o mercado inflacionou de forma avassaladora com cifras de transferências e salários que chegam a ser cinco vezes maiores do que em seu período em atividade, o que joga uma carga de responsabilidade precoce nos ombros dos atletas mais jovens.
“O jogador estrela hoje é muito mais visado do que na minha época. E eu acho que essa parte midiática e de redes sociais acaba atrapalhando um pouco. É por isso que temos muitos jogadores enfrentando problemas de saúde mental, como a depressão”, alerta Adriano.
“Antigamente existia a imprensa, mas a informação não corria tão rápido. Hoje você acaba sabendo na hora o quanto você vale no mercado, e sentir o peso de ser uma superestrela, não só no futebol, mas para os patrocinadores e para a mídia, é algo que mexe com o rendimento do jogador.”
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 5,8% da população do Brasil sofre de depressão, colocando o país como o líder com mais casos da doença na América Latina.
Diante de tanta pressão e exposição, o futuro do negócio também depende de como as ligas vão estruturar seus modelos de transmissão nas próximas décadas. O futebol atravessa uma transição clara de “produto esportivo” para “propriedade de mídia”, com o streaming e as plataformas digitais brigando de igual para igual com a televisão. Para Marc Tarradas, o Brasil é o grande laboratório global dessa nova era, justamente por conseguir misturar a força da internet com uma TV aberta que segue perdendo espaço.
“Eu penso que o mercado audiovisual do Brasil é algo que não acontece em outros países. Vemos a importância de plataformas como o YouTube e também da televisão aberta, que no Brasil está crescendo muito, enquanto em outros lugares ela praticamente desaparece”, analisa o diretor da La Liga.
“Esse modelo virou uma tendência para todas as ligas, não só para a espanhola, mas para a Premier League e competições continentais. Então, nós, como liga, temos que equilibrar um modelo onde possamos seguir valorizando nosso produto, tendo uma plataforma que nos permita ter distribuição em todo o Brasil, que é um país muito extenso e complexo, mas, ao mesmo tempo, conseguir rentabilidade e incremento de valor, não somente a curto prazo, mas também no futuro” conclui.
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