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Vítimas da Naskar temem fuga de sócios para Miami e preparam mandado de segurança
Publicado 20/05/2026 • 20:58 | Atualizado há 17 minutos
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Publicado 20/05/2026 • 20:58 | Atualizado há 17 minutos
KEY POINTS
Foto: Montagem
Enquanto dezenas de vítimas correm para os tribunais para recuperar o dinheiro investido na Naskar Gestão de Ativos, empresa suspeita de operar uma pirâmide financeira que pode ter desviado quase R$ 1 bilhão, cresce entre os advogados que representam os lesados a preocupação com uma fuga para o exterior. O principal alvo é Rogério Vieira, apontado como o cabeça do esquema.
Advogados das vítimas ouvidos pela reportagem, em caráter reservado, afirmam que vão ingressar com mandado de segurança para apreender o passaporte de Vieira e impedir que ele deixe o país. A medida se tornou urgente após informações de que o investigado esteve em Miami no início deste ano, onde permaneceu por cerca de um mês e teria se reunido com um advogado especializado em imigração para os EUA.
Uma decisão da 25ª Vara Cível de Brasília, publicada no Diário de Justiça do Distrito Federal em 15 de maio, detalha com precisão os sinais que convenceram o juiz a conceder bloqueio emergencial de ativos. O magistrado listou: o bloqueio simultâneo do aplicativo e da plataforma web da Naskar, com mensagem padronizada de “ajustes técnicos”, impedindo o acesso dos investidores aos saldos; a cessação abrupta dos rendimentos contratados; o silêncio dos três sócios-administradores a todas as tentativas de contato; a eliminação da função de comentários no perfil oficial da Naskar no Instagram; e uma avalanche de reclamações no Reclame Aqui nos dias 6 e 7 de maio, todas com status “NÃO RESPONDIDA”.
O juiz também apontou um dado revelador: as três filiais da Naskar, nos estados do Paraná, Rio de Janeiro e no Distrito Federal, foram baixadas simultaneamente em 25 de abril de 2025, antes do colapso público. “Estes elementos, analisados em conjunto, configuram risco concreto, atual e grave de dissipação patrimonial”, concluiu o magistrado ao deferir o bloqueio.
A decisão determinou o arresto via Sisbajud das contas da Naskar Gestão de Ativos, da 7Trust Finance, da Next Holding Financeira e dos três sócios pessoalmente: Rogério Vieira, José Maurício Volpato e Marcelo Liranço Arantes.
A mesma decisão aponta indícios de confusão patrimonial entre a Naskar e o Family Office Daytona Administração e Participações, empresa que concentra o maior volume de processos ligados ao caso. O juiz destacou dois elementos: o telefone (11) XXX-7772 é idêntico nos cadastros das duas empresas, e o e-mail registrado no CNPJ da Daytona, rogerioconselsete@gmail.com, pertence ao próprio Rogério Vieira.
O dossiê de compliance da Daytona, gerado por uma plataforma jurídica, reforça a suspeita. A empresa foi aberta em maio de 2023, tem apenas um funcionário declarado, capital social de R$ 4,26 milhões e faturamento anual presumido de R$ 180 milhões. Desde meados de maio, acumula 92 processos judiciais, todos na condição de réu. O valor total das causas chega a R$ 60,1 milhões, distribuídos entre 77 ações de direito civil e 15 de direito do consumidor. O risco jurídico atribuído ao CNPJ pela plataforma é de 92% sobre 100%.
Ações individuais têm valores expressivos. Uma tutela cautelar concentra dezenas de requerentes com valor total de R$ 29,5 milhões. Outras pedem rescisões que chegam a R$ 2,3 milhões e R$ 2,8 milhões individualmente. Os processos estão concentrados no TJ-SP, com 48 ações, e no TJ-DFT, com 43.
O dossiê individual de Rogério Vieira, 44 anos, registra 153 processos na busca combinada por nome e documento. A mesma constelação de corréus se repete em praticamente todas as ações: Naskar Gestão de Ativos, 7Trust Finance, Next Holding Financeira, José Maurício Volpato e Marcelo Liranço Arantes.
Processos individuais superam R$ 1 milhão. Uma ação movida por Vera Lucia Cardoso de Moura tem valor de causa de R$ 1,04 milhão. Outra, de Carlos Eduardo Fonseca Pimenta, aponta R$ 732 mil. Há ainda uma ação classificada como “produto impróprio” no âmbito do direito do consumidor com valor de R$ 1,05 milhão.
A decisão da 25ª Vara também identificou que Vieira e José Maurício Volpato figuram como sócios nas três empresas do núcleo do esquema, enquanto Marcelo Liranço Arantes aparece em duas delas. A Next Holding, uma das empresas do grupo, usa o e-mail next@7trust.com.br, evidenciando a integração operacional com a 7Trust. Esta, por sua vez, figura com situação “Pendente de Validação” perante o Banco Central, sem autorização para funcionar como instituição de pagamento.
Ana Elisa e as divergências processuais
A sócia-administradora ativa do Family Office Daytona é Ana Elisa Laporta de Abreu, 41 anos. Seu dossiê individual apresenta perfil distinto: apenas três processos cíveis, dois já encerrados, e um único protesto em cartório no valor de R$ 1.306,74. Não há registros de investigações ou mídia negativa associados ao seu nome.
Ainda assim, advogados das vítimas já tentaram incluí-la nas medidas de bloqueio patrimonial. A decisão da 14ª Vara Cível de Brasília, de 13 de maio, apontou que pedidos de constrição sobre bens de Ana Elisa foram apresentados em ao menos uma ação, mas o juiz determinou que a parte autora esclarecesse se pretendia incluí-la formalmente no polo passivo, pois ela não constava na autuação original. O juiz da 25ª Vara igualmente indeferiu, por ora, o bloqueio de ativos em seu nome, aguardando ampliação da cognição.
Fontes próximas ao caso informam que os advogados avaliam sua inclusão formal nas próximas petições, à medida que a instrução avança.
A estrutura identificada nos dossiês aponta para um grupo econômico de fato, com as mesmas pessoas transitando entre Naskar Gestão de Ativos, 7Trust Finance, Next Holding Financeira, Nextgen Serviços de Apoio Administrativo, Volpato Administração e Participações e o Family Office Daytona. Rogério Vieira aparece como sócio ou administrador em ao menos quatro dessas empresas.
O padrão das ações judiciais, tutelas cautelares antecedentes pedindo bloqueio emergencial de bens, rescisões contratuais e pedidos de devolução de valores, indica investidores que perderam acesso ao dinheiro aplicado e buscam medidas antes que os ativos remanescentes desapareçam.
A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o caso. Rogério Vieira, José Maurício Volpato e Marcelo Liranço Arantes não foram localizados para comentar até o fechamento desta reportagem.
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