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CNBCO modelo de IA tão aguardado da Meta finalmente chegou. Mas ele consegue gerar dinheiro?

Allan Ravagnani AI-451

Muse Spark chegou: a nova IA da Meta e a aposta de Zuckerberg para provar que valeu cada bilhão – de muitos – investido

Publicado 10/04/2026 • 10:00 | Atualizado há 2 horas

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Allan Ravagnani

Redator

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • Muse Spark é o primeiro modelo da Meta Superintelligence Labs após investimento de US$ 14,3 bilhões em dados e talentos
  • Meta aposta no Muse Spark para integrar IA ao WhatsApp, Instagram e Facebook com 3,5 bilhões de usuários potenciais
  • Novo modelo da Meta supera concorrentes em percepção multimodal mas ainda tem espaço para crescer em código e raciocínio abstrato
Ray-Ban Meta Wayfarer terá integração com a nova IA da Meta, Muse Spark

Divulgação: Ray-Ban Meta Wayfarer

Muse Spark é o primeiro modelo da Meta Superintelligence Labs após investimento de US$ 14,3 bilhões em dados e talentos

Quando Mark Zuckerberg decidiu, em meados de 2025, que a Meta havia errado feio na corrida pela inteligência artificial e que era hora de jogar fora o que estava no tabuleiro e começar de novo, ele fez o que qualquer magnata faria ao perceber que seu time não está mais na ponta, foi ao mercado contratar.

Só que o mercado ao qual Zuckerberg recorreu não era o de desenvolvedores medianos. Era o de quem tinha fundado empresas, construído infraestruturas, formado os melhores times de dados da geração, e a conta foi bem alta - até mesmo pro Zuck. Foram US$ 14,3 bilhões para ter 49% da Scale AI e, junto com o pacote, seu fundador, Alexandr Wang, 28 anos, para comandar o recém-criado Meta Superintelligence Labs.

Pesquisadores foram recrutados da OpenAI, da Anthropic e do Google. Nove meses depois de tudo isso, a Meta finalmente tem uma resposta para mostrar: o Muse Spark.

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O modelo chegou na quarta-feira (8) com um conjunto de capacidades que merece atenção além do habitual frisson de lançamento. Raciocínio multimodal nativo, uso de ferramentas, cadeia de pensamento visual e orquestração multiagentes, o que, na prática, significa que o sistema pode dividir uma tarefa complexa em subtarefas e colocar vários agentes de IA para trabalhar em paralelo ao mesmo tempo.

Você pede que ele planeje uma viagem de família para a Flórida e, enquanto um agente esboça o roteiro, outro compara destinos e um terceiro pesquisa atividades para crianças. Mais rápido, mais completo, menos trabalho para quem pergunta.

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Raciocínio multimodal

Quando um modelo de IA consegue processar ao mesmo tempo texto, imagem, áudio e vídeo para chegar a uma conclusão, isso se chama raciocínio multimodal. Um modelo que só lê texto precisa que você descreva o que está vendo. Um modelo multimodal olha junto com você. Você aponta a câmera para uma prateleira de supermercado e ele identifica os produtos, compara valores nutricionais e sugere o que comprar. Você fotografa um exame médico e ele lê os dados do gráfico sem que você precise transcrever nada. A diferença não é de velocidade. É de quem está no controle da interpretação.

Agentes paralelos

Um agente de IA é um programa capaz de executar tarefas por conta própria, sem precisar ser instruído a cada passo. Quando um modelo coloca vários agentes trabalhando ao mesmo tempo sobre o mesmo problema, são os chamados agentes paralelos. Em vez de resolver uma tarefa em sequência, o sistema a divide em partes e distribui. Num planejamento de viagem, um agente pesquisa voos, outro compara hotéis, um terceiro levanta atrações. Eles trabalham ao mesmo tempo e o modelo consolida os resultados. O que levaria minutos em troca de perguntas e respostas acontece numa fração do tempo.

Muse Spark chega aos ombros de gigantes

A primeira versão da série Muse foi projetada pequena e rápida por escolha deliberada. A Meta quis validar a arquitetura antes de escalar, o que é uma mudança de postura em relação ao ciclo anterior, que terminou no Llama 4, lançamento que frustrou expectativas e forçou a reconstrução completa do time. Nos benchmarks, o Muse Spark chegou competindo de frente com o Opus 4.6 da Anthropic e o GPT 5.4 da OpenAI em percepção multimodal, consultas de saúde e raciocínio visual. Para um modelo descrito pela própria empresa como "pequeno e rápido", é um resultado que merece ser levado a sério.

Há, porém, áreas em que o modelo ainda tem espaço para melhorar. Em tarefas de escritório, codificação e programação e raciocínio abstrato, o Muse Spark ficou abaixo das expectativas. Isso não é uma acusação de fracasso, é uma indicação de onde a energia de desenvolvimento vai se concentrar nas próximas gerações. A Meta já anunciou que há modelos maiores em desenvolvimento.

Dados valem mais que algoritmos

O que explica a performance do Muse Spark onde ele se saiu bem não é mistério para quem entende de como esses modelos são treinados. Qualidade de dados é o insumo que separa os bons dos ótimos. E a Meta, com mais de 3 bilhões de usuários ativos, tem uma das maiores e mais ricas bases de comportamento humano documentado que existem no planeta.

Foto de prato de comida acompanhada de hashtag, legenda descrevendo sabor, comentários comparando com outros restaurantes, tudo isso é dado. Conversa sobre sintoma de gripe no Messenger também é dado. Alexandr Wang construiu a Scale AI exatamente para organizar esse tipo de material e alimentar modelos de IA com ele. Agora ele faz isso para dentro, com o arquivo mais completo do mundo.

Onde esse insumo é menos relevante, o modelo ainda tem lacunas. Codificação exige outro tipo de treinamento, com datasets de repositórios de código, feedback técnico, raciocínio formal. Ali, OpenAI e Anthropic têm vantagens construídas ao longo de anos. Não é uma desvantagem permanente, mas é real agora.

Quem perde com Muse Spark

A OpenAI é quem tem mais a se preocupar. O ChatGPT tem hoje cerca de 900 milhões de usuários, dos quais 95% estão no plano gratuito. Esses usuários fazem justamente o tipo de tarefa que o Muse Spark vai começar a oferecer, embutido e gratuito, dentro de aplicativos que essas pessoas já usam todos os dias. O mercado endereçável da Meta não é o universo dos entusiastas que testam modelos novos. É o dos 3,5 bilhões de pessoas que abrem o WhatsApp pela manhã sem pensar duas vezes.

O modelo vai estar no Meta AI, lendo o que você escreve no Messenger, vendo o que você filma com os óculos inteligentes, anotando o que você curte no Instagram e no Threads. Cada interação é também um sinal de dado. Cada resposta gerada é um anúncio com potencial de performance melhorada. O mercado enxergou isso e as ações da Meta subiram 8% no dia do lançamento.

Problema de privacidade que ninguém quer nomear

O que ninguém está discutindo com a seriedade que merece é o preço implícito de um modelo de IA desse porte integrado a um ecossistema com o histórico de privacidade da Meta. Para usar o Muse Spark, é necessário ter uma conta no Facebook ou no Instagram.

A empresa não esclarece de forma direta se dados dessas contas alimentam o modelo ou personalizam as respostas. Dadas as práticas históricas da Meta com dados de usuários e o fato de que o modelo foi explicitamente posicionado como uma IA que "entende seu mundo porque é construída nele", seria ingênuo presumir que não há conexão.

Há dois anos, a Meta pagou US$ 1,4 bilhão ao estado do Texas por ter coletado dados biométricos sem consentimento. O Muse Spark chega para fazer a empresa crescer e quer mostrar que sua inteligência artificial é pessoal o suficiente para competir com o ChatGPT, mas ainda não respondeu, com clareza, o que "pessoal" significa em termos de coleta e uso de informação.

O modelo é bom, a distribuição é incomparável e as perguntas que o acompanham são as mesmas de sempre, só que maiores.

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