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Apple construiu a melhor máquina de IA do mundo e ainda não sabe o que fazer com ela
Publicado 06/04/2026 • 12:00 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 06/04/2026 • 12:00 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
Imagem gerada por inteligência artificial | Nano Banana 2
MacBook Pro sobre mesa escura, tela vazia e uma maçã mordida ao lado: a metáfora perfeita para o momento da Apple em inteligência artificial
Em junho de 2024, na conferência anual para desenvolvedores, a Apple mostrou ao mundo uma Siri diferente. Não a Siri que esquece o que você disse há três segundos, mas uma assistente que lembra de e-mails, entende o contexto de compromissos, age dentro de aplicativos e executa tarefas encadeadas com alguma coisa parecida com inteligência. O auditório dócil explodiu em aplausos, a imprensa anunciou uma virada e os usuários esperaram.
Março de 2025 chegou com a promessa de lançamento, mas a Apple avisou que precisava de mais tempo. O motivo, segundo reportagem da CNBC de março daquele ano, era que a nova Siri funcionava corretamente em apenas dois terços dos testes internos. Não é o tipo de margem de erro que uma empresa do porte da Apple aceita colocar no mercado e o prazo foi empurrado para 2026.
Em 12 fevereiro deste ano, a Bloomberg reportou que a Apple estava tendo dificuldades até para incluir a Siri renovada no iOS 26.4, atualização de março. A ação da empresa caiu cinco por cento em um único dia. A companhia respondeu à CNBC com uma frase curta: "ainda no caminho certo para lançar em 2026."
Tecnicamente, não é atraso, já que a promessa pública nunca teve data mais específica do que "2026", mas a distinção entre atraso técnico e atraso real é o tipo de argumento que convence analistas financeiros, não usuários.
Leia também: Inteligência artificial virou obsessão do Brasil corporativo; mas o país real não aparece em dado nenhum
Enquanto o software tropeça, o hardware avançou. Em 3 de março deste ano, a Apple anunciou o MacBook Pro com chips M5 Pro e M5 Max. No Brasil, os modelos com M5 Max partem de R$ 44.999. A configuração máxima, com 128 GB de memória e SSD de 8 TB, passa dos R$ 90 mil. Os aparelhos já estão disponíveis nas lojas brasileiras após homologação pela Anatel.
A novidade arquitetural é genuína. O M5 Max tem 40 núcleos de GPU, cada um com um Neural Accelerator embutido, algo inexistente nas gerações anteriores. O resultado prático, segundo dados publicados pela equipe de machine learning da Apple, é que o tempo para gerar o primeiro token de resposta caiu drasticamente. Um prompt que levava 81 segundos no M4 Max é processado em 18 segundos no M5 Max. Para quem precisa de contextos longos, a diferença muda a experiência de uso.
Mas há uma distinção que o marketing da Apple não deixa clara: uma coisa é o chip rodar inteligência artificial mais rápido. Outra é rodar inteligência artificial local do jeito que a maioria das pessoas imagina quando ouve a promessa.
Existe o Apple Intelligence, conjunto de funcionalidades integradas ao sistema operacional: resumir e-mails, reescrever textos, traduzir chamadas em tempo real, identificar objetos na tela. Essas funções já existem e funcionam em qualquer Mac com chip M1 ou mais recente, além da linha iPhone 15 Pro em diante.
E existe a outra camada, menos frequente nos keynotes (apresentações oficiais da Apple), onde o M5 Max realmente brilha para um grupo bem específico: rodar modelos de linguagem abertos, como Llama, Mistral ou Qwen, inteiramente no computador, sem mandar nada para servidor nenhum.
Com 128 GB de memória unificada, o M5 Max comporta um modelo de 70 bilhões de parâmetros, na versão comprimida, sem recorrer à internet. A velocidade de resposta fica em torno de 18 a 25 tokens por segundo, ritmo suficiente para leitura confortável.
Hoje, quem quiser fazer isso usa ferramentas como Ollama ou LM Studio. Não é para iniciantes: envolve baixar modelos de vários gigabytes, configurar parâmetros, entender que "quantização" não é uma palavra italiana. Mas funciona. E funciona em qualquer Mac com chip M, não só no M5 Max.
A resposta honesta sobre quando a IA local da Apple chega para o usuário comum é que depende do que se chama de "chegar." Para quem tem dinheiro e curiosidade técnica, já chegou. Para o restante, a porta de entrada vai se chamar Siri, e a Siri ainda está na fila.
A Apple confirmou parceria com o Google para alimentar a nova versão da assistente com modelos Gemini. O processamento aconteceria em parte no dispositivo, em parte em servidores da Apple com o que a empresa chama de Private Cloud Compute. É uma arquitetura híbrida, com garantias de privacidade que a companhia apresenta como auditáveis por especialistas independentes.
O que a WWDC de junho deste ano mostrar vai definir se 2026 é o ano em que a Apple honra a promessa ou empurra mais uma vez para o iOS 27, previsto para setembro. Há um histórico recente que pesa contra o otimismo. Mas há também o fato de que o hardware, dessa vez, está pronto.
O chip existe, os Neural Accelerators existem, a memória existe. O que falta é o software que transforme tudo isso em algo que uma pessoa que não sabe o que é "quantização" consiga usar no dia a dia.
Até lá, a inteligência artificial local da Apple é um produto de R$ 44.999 para quem já sabe o que está fazendo.
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