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Allan Ravagnani AI-451

OpenClaw: tudo o que você precisa saber mas tinha vergonha de perguntar (parte 1)

Publicado 31/03/2026 • 13:53 | Atualizado há 2 horas

Foto de Allan Ravagnani

Allan Ravagnani

Redator

Allan Ravagnani é jornalista econômico há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas mais admirados de Economia do Brasil. Assina a coluna AI-451 e escreve para Times Brasil | CNBC e CartaCapital. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • OpenClaw é agente de inteligência artificial autônomo que age sem esperar o usuário pedir
  • Criado em 2025, OpenClaw ultrapassou React no GitHub em menos de quatro meses com 250 mil estrelas
  • Agente autônomo levanta riscos reais de segurança digital com acesso a e-mail e arquivos
  • Apresentação da coluna 'AI-451' e do autor, Allan Ravagnani
Lagosta mascote do OpenClaw

Imagem gerada pela inteligência artificial Google ImaGen3

A lagosta vermelha como mascote faz todo sentido, afinal, nenhum animal usa a garra com mais autoridade.

Há uma certa graça na forma como a tecnologia costuma se apresentar ao mundo. Primeiro vem a promessa grandiosa, aí chega um produto decepcionante e, depois, anos de silêncio. Somente então, quando ninguém espera mais nada, a coisa começa a funcionar de verdade. Com a inteligência artificial também foi assim. 

Por décadas, o assistente digital foi aquele personagem levemente constrangedor das histórias de ficção científica - um robôzinho sempre à disposição, sempre inadequado. A Siri chegou em 2011 prometendo tudo, e virou, na prática, um jeito um pouco mais lento de fazer uma busca no Google. A Alexa aprendeu a acender a luz da sala e ficou por isso mesmo. O Google Assistant entendeu que você queria "música" mas não entendeu qual música, e tocou alguma coisa aleatória com uma confiança que beirava o descaso.

Vale lembrar a ficcional "Teletela", idealizada por Orwell em 1948 para estar em pleno funcionamento, interagindo e controlando os hábitos dos cidadãos da 'Oceânia', em 1984. Em 1953, Ray Bradbury escreveu sobre televisores que interagiam com a população em Fahrenheit 451 - inspiração do nome desta coluna.

Somente lá, em 2022, o ChatGPT apareceu e convenceu o mundo de que a inteligência artificial havia, enfim, crescido. Havia. Mas havia crescido para se tornar um oráculo muito sofisticado - e oráculos, por definição, só falam quando consultados. 

Você pergunta, ele responde. Você fecha a janela, ele some. Nada acontece sem que alguém bata na porta primeiro. E é exatamente esse o limite que o OpenClaw está atravessando.

OpenClaw executa sem esperar

Criado pelo programador austríaco Peter Steinberger no fim de 2025 (ontem), o OpenClaw é um agente de inteligência artificial autônomo, gratuito e de código aberto, que roda no próprio computador do usuário e usa aplicativos de mensagens como interface principal. A diferença em relação a tudo que veio antes está numa palavra que os entusiastas repetem com uma empolgação que seria irritante se não fosse justificada: execução. 

O OpenClaw não explica como fazer, ele faz.

Para entender o que isso significa, vale uma analogia honesta. Os chatbots atuais funcionam como um consultor muito bem informado: você descreve o problema, ele sugere a solução, e você vai lá implementar. O OpenClaw funciona como um assistente que tem as chaves do escritório. Você diz o que quer, ele acessa o e-mail, abre o calendário, navega no navegador, organiza os arquivos, e entrega o resultado. É proativo por design, não espera ser consultado. Pode verificar sua caixa de entrada às seis da manhã, rascunhar respostas antes de você acordar, e enviá-las.

Carro negociado, seguradora contestada

Um engenheiro chamado AJ Stuyvenberg pediu ao seu agente que negociasse a compra de um carro. O OpenClaw varreu os estoques de revendedoras, preencheu formulários, passou dias colocando concessionárias umas contra as outras, encaminhando propostas e pedindo que cada uma superasse a anterior. Stuyvenberg apareceu apenas para assinar o contrato, com US$ 4.200 de desconto. Outro usuário teve uma reclamação negada por uma seguradora. O agente encontrou o e-mail de recusa, redigiu uma contestação citando cláusulas da apólice e a enviou - sem que o dono tivesse pedido. A seguradora reabriu o caso.

Histórias como essas explicam por que o mercado reagiu com uma velocidade que surpreendeu até o próprio criador. Em menos de quatro meses, o OpenClaw ultrapassou 250 mil estrelas no GitHub - a plataforma onde desenvolvedores sinalizam admiração por um projeto - passando o React, que levou mais de uma década para chegar lá. 

Jensen Huang, o CEO da Nvidia, foi ao palco de sua conferência anual nesta semana e declarou, com a sobriedade que lhe é característica, que o OpenClaw é "o sistema operacional para a IA pessoal" - o mesmo salto que Windows e Mac representaram para o computador pessoal. Huang vende os chips que rodam tudo isso, o que torna seu entusiasmo suspeito na medida certa - mas a metáfora não é absurda.

Nome OpenClaw nasceu às cinco da manhã no Discord

O nome, aliás, chegou por eliminação. O projeto nasceu como Clawd Bot, uma brincadeira com o nome do assistente Claude, da Anthropic. A empresa “pediu, educadamente”, para mudar. Numa sessão de brainstorming às cinco da manhã no Discord, a comunidade escolheu Moltbot. Não colou. Foi então que Steinberger decidiu fazer uma “homenagem” dupla: juntou o "Open" da OpenAI com o "Claw" - garra, em inglês, noutro trocadilho com o Claude, da Anthropic. Nasceu o OpenClaw

A lagosta vermelha como mascote faz todo sentido, afinal, nenhum animal usa a garra com mais autoridade. Meses depois, a OpenAI contratou o próprio Steinberger, o que, convenhamos, é uma forma bastante elegante de fechar um ciclo. 

Na China, a expressão popular para adotar o software virou "criar uma lagosta",  e filas se formaram do lado de fora de escritórios da Tencent e do Baidu para que técnicos instalassem o programa nos laptops de curiosos.

Seria uma história redonda se não houvesse um porém considerável.

Riscos reais de segurança digital

Se você já tem medo do fato do Google saber tanto sobre a sua vida, com todo acesso ao seu Gmail e suas buscas, da Meta saber tudo o que passa no seu Instagram e Whatsapp, ao mesmo tempo que Apple monitora seus batimentos cardíacos e rastreia todos os seus passos, imagina um agente que tem acesso a tudo isso por conta própria?

O OpenClaw requer acesso de nível administrador, como credenciais de e-mail, tokens de calendário, cookies do navegador, acesso ao sistema de arquivos, permissões de terminal. É uma quantidade generosa de confiança para depositar em algo com poucos meses de existência. 

Em janeiro, pesquisadores descobriram uma vulnerabilidade que permitia que qualquer site roubasse o token de autenticação do agente e obtivesse controle total da máquina com um único clique. Naquele momento, mais de 21 mil instâncias do OpenClaw estavam expostas à internet sem proteção. A Cisco analisou uma skill - as extensões que ampliam as capacidades do agente - que estava em primeiro lugar no repositório oficial e descobriu que era malware puro. Um dos próprios mantenedores do projeto escreveu no Discord, sem cerimônia: "Se você não consegue rodar um comando no terminal, este projeto é perigoso demais para você usar com segurança."

Criador vai para OpenAI, mas projeto fica na comunidade

Em fevereiro, Steinberger anunciou que vai se juntar à OpenAI. O projeto migra para uma fundação open source. O criador sai, a comunidade fica. Pode ser o Linux - que ninguém mais lembra que foi feito por uma pessoa só e hoje sustenta boa parte da internet mundial. Pode ser o AutoGPT, o agente viral de 2023 que prometeu exatamente o mesmo, travou em loops infinitos e desapareceu da conversa antes do ano acabar.

A diferença, desta vez, é que os modelos de linguagem melhoraram o suficiente para que a execução seja real, e não só mais uma promessa de demonstração em laboratório. O OpenClaw não é uma ideia nova, mas uma ideia antiga que finalmente encontrou a infraestrutura que merecia.

Por décadas, a promessa da tecnologia foi responder melhor. Agora a promessa é agir. E isso muda o tipo de pergunta que faz sentido fazer. Não mais "o que a IA sabe?", para  "o que ela pode fazer - e o que ela vai fazer sem eu pedir?"

A lagosta está na sala, e não veio para conversar.


Boas vindas ao leitor

"O jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã." No mundo da IA, a velha frase do jornalismo acontece antes mesmo de o peixe chegar à banca.

Um dia aqui equivale a um ano. O que você lê agora pode estar superado quando terminar este parágrafo. Escrevi o texto desta coluna há sete dias, uma década nessa escala de tempo, e há boas chances de que parte do que está ali já tenha mudado.

Não tem problema. O cérebro absorve o que realmente interessa, arquiva o que faz sentido e descarta o resto, seja informação velha ou nova demais para digerir.

Pretendo tocar a coluna AI-451 com esta intenção e sem tentar ser um manual do futuro. Vamos tentar, quando der, entender o presente, mesmo que o presente dure três dias.

Boa leitura. Espero te ver mais vezes por aqui.

Obrigado pela leitura.

aravagnani@timesbrasil.com.br

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