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OpenClaw: tudo o que você precisa saber mas tinha vergonha de perguntar (parte 1)
Publicado 31/03/2026 • 13:53 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 31/03/2026 • 13:53 | Atualizado há 2 horas
KEY POINTS
Imagem gerada pela inteligência artificial Google ImaGen3
A lagosta vermelha como mascote faz todo sentido, afinal, nenhum animal usa a garra com mais autoridade.
Há uma certa graça na forma como a tecnologia costuma se apresentar ao mundo. Primeiro vem a promessa grandiosa, aí chega um produto decepcionante e, depois, anos de silêncio. Somente então, quando ninguém espera mais nada, a coisa começa a funcionar de verdade. Com a inteligência artificial também foi assim.
Por décadas, o assistente digital foi aquele personagem levemente constrangedor das histórias de ficção científica - um robôzinho sempre à disposição, sempre inadequado. A Siri chegou em 2011 prometendo tudo, e virou, na prática, um jeito um pouco mais lento de fazer uma busca no Google. A Alexa aprendeu a acender a luz da sala e ficou por isso mesmo. O Google Assistant entendeu que você queria "música" mas não entendeu qual música, e tocou alguma coisa aleatória com uma confiança que beirava o descaso.
Vale lembrar a ficcional "Teletela", idealizada por Orwell em 1948 para estar em pleno funcionamento, interagindo e controlando os hábitos dos cidadãos da 'Oceânia', em 1984. Em 1953, Ray Bradbury escreveu sobre televisores que interagiam com a população em Fahrenheit 451 - inspiração do nome desta coluna.
Somente lá, em 2022, o ChatGPT apareceu e convenceu o mundo de que a inteligência artificial havia, enfim, crescido. Havia. Mas havia crescido para se tornar um oráculo muito sofisticado - e oráculos, por definição, só falam quando consultados.
Você pergunta, ele responde. Você fecha a janela, ele some. Nada acontece sem que alguém bata na porta primeiro. E é exatamente esse o limite que o OpenClaw está atravessando.
Criado pelo programador austríaco Peter Steinberger no fim de 2025 (ontem), o OpenClaw é um agente de inteligência artificial autônomo, gratuito e de código aberto, que roda no próprio computador do usuário e usa aplicativos de mensagens como interface principal. A diferença em relação a tudo que veio antes está numa palavra que os entusiastas repetem com uma empolgação que seria irritante se não fosse justificada: execução.
Para entender o que isso significa, vale uma analogia honesta. Os chatbots atuais funcionam como um consultor muito bem informado: você descreve o problema, ele sugere a solução, e você vai lá implementar. O OpenClaw funciona como um assistente que tem as chaves do escritório. Você diz o que quer, ele acessa o e-mail, abre o calendário, navega no navegador, organiza os arquivos, e entrega o resultado. É proativo por design, não espera ser consultado. Pode verificar sua caixa de entrada às seis da manhã, rascunhar respostas antes de você acordar, e enviá-las.
Um engenheiro chamado AJ Stuyvenberg pediu ao seu agente que negociasse a compra de um carro. O OpenClaw varreu os estoques de revendedoras, preencheu formulários, passou dias colocando concessionárias umas contra as outras, encaminhando propostas e pedindo que cada uma superasse a anterior. Stuyvenberg apareceu apenas para assinar o contrato, com US$ 4.200 de desconto. Outro usuário teve uma reclamação negada por uma seguradora. O agente encontrou o e-mail de recusa, redigiu uma contestação citando cláusulas da apólice e a enviou - sem que o dono tivesse pedido. A seguradora reabriu o caso.
Histórias como essas explicam por que o mercado reagiu com uma velocidade que surpreendeu até o próprio criador. Em menos de quatro meses, o OpenClaw ultrapassou 250 mil estrelas no GitHub - a plataforma onde desenvolvedores sinalizam admiração por um projeto - passando o React, que levou mais de uma década para chegar lá.
Jensen Huang, o CEO da Nvidia, foi ao palco de sua conferência anual nesta semana e declarou, com a sobriedade que lhe é característica, que o OpenClaw é "o sistema operacional para a IA pessoal" - o mesmo salto que Windows e Mac representaram para o computador pessoal. Huang vende os chips que rodam tudo isso, o que torna seu entusiasmo suspeito na medida certa - mas a metáfora não é absurda.
O nome, aliás, chegou por eliminação. O projeto nasceu como Clawd Bot, uma brincadeira com o nome do assistente Claude, da Anthropic. A empresa “pediu, educadamente”, para mudar. Numa sessão de brainstorming às cinco da manhã no Discord, a comunidade escolheu Moltbot. Não colou. Foi então que Steinberger decidiu fazer uma “homenagem” dupla: juntou o "Open" da OpenAI com o "Claw" - garra, em inglês, noutro trocadilho com o Claude, da Anthropic. Nasceu o OpenClaw.
A lagosta vermelha como mascote faz todo sentido, afinal, nenhum animal usa a garra com mais autoridade. Meses depois, a OpenAI contratou o próprio Steinberger, o que, convenhamos, é uma forma bastante elegante de fechar um ciclo.
Na China, a expressão popular para adotar o software virou "criar uma lagosta", e filas se formaram do lado de fora de escritórios da Tencent e do Baidu para que técnicos instalassem o programa nos laptops de curiosos.
Seria uma história redonda se não houvesse um porém considerável.
Se você já tem medo do fato do Google saber tanto sobre a sua vida, com todo acesso ao seu Gmail e suas buscas, da Meta saber tudo o que passa no seu Instagram e Whatsapp, ao mesmo tempo que Apple monitora seus batimentos cardíacos e rastreia todos os seus passos, imagina um agente que tem acesso a tudo isso por conta própria?
O OpenClaw requer acesso de nível administrador, como credenciais de e-mail, tokens de calendário, cookies do navegador, acesso ao sistema de arquivos, permissões de terminal. É uma quantidade generosa de confiança para depositar em algo com poucos meses de existência.
Em janeiro, pesquisadores descobriram uma vulnerabilidade que permitia que qualquer site roubasse o token de autenticação do agente e obtivesse controle total da máquina com um único clique. Naquele momento, mais de 21 mil instâncias do OpenClaw estavam expostas à internet sem proteção. A Cisco analisou uma skill - as extensões que ampliam as capacidades do agente - que estava em primeiro lugar no repositório oficial e descobriu que era malware puro. Um dos próprios mantenedores do projeto escreveu no Discord, sem cerimônia: "Se você não consegue rodar um comando no terminal, este projeto é perigoso demais para você usar com segurança."
Em fevereiro, Steinberger anunciou que vai se juntar à OpenAI. O projeto migra para uma fundação open source. O criador sai, a comunidade fica. Pode ser o Linux - que ninguém mais lembra que foi feito por uma pessoa só e hoje sustenta boa parte da internet mundial. Pode ser o AutoGPT, o agente viral de 2023 que prometeu exatamente o mesmo, travou em loops infinitos e desapareceu da conversa antes do ano acabar.
A diferença, desta vez, é que os modelos de linguagem melhoraram o suficiente para que a execução seja real, e não só mais uma promessa de demonstração em laboratório. O OpenClaw não é uma ideia nova, mas uma ideia antiga que finalmente encontrou a infraestrutura que merecia.
Por décadas, a promessa da tecnologia foi responder melhor. Agora a promessa é agir. E isso muda o tipo de pergunta que faz sentido fazer. Não mais "o que a IA sabe?", para "o que ela pode fazer - e o que ela vai fazer sem eu pedir?"
A lagosta está na sala, e não veio para conversar.
"O jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã." No mundo da IA, a velha frase do jornalismo acontece antes mesmo de o peixe chegar à banca.
Um dia aqui equivale a um ano. O que você lê agora pode estar superado quando terminar este parágrafo. Escrevi o texto desta coluna há sete dias, uma década nessa escala de tempo, e há boas chances de que parte do que está ali já tenha mudado.
Não tem problema. O cérebro absorve o que realmente interessa, arquiva o que faz sentido e descarta o resto, seja informação velha ou nova demais para digerir.
Pretendo tocar a coluna AI-451 com esta intenção e sem tentar ser um manual do futuro. Vamos tentar, quando der, entender o presente, mesmo que o presente dure três dias.
Boa leitura. Espero te ver mais vezes por aqui.
Obrigado pela leitura.
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