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Por que não apenas janeiro deve ser seco?
Publicado 09/01/2026 • 14:03 | Atualizado há 12 horas
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Publicado 09/01/2026 • 14:03 | Atualizado há 12 horas
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Quando a tradição britânica do “Dry January” começou há alguns anos, o objetivo era simples: dar às pessoas um mês sem álcool para recuperar o corpo e a mente após as festas de fim de ano. Hoje, porém, especialistas defendem que não deveria se tratar apenas de um desafio pontual, mas de um convite a repensar o papel do álcool na vida cotidiana.
Mudar hábitos não é simples, mas os benefícios já podem surgir em poucas semanas. Para a neurocientista Carol Garrafa, interromper o consumo de álcool por cerca de 30 dias “já é suficiente para que o cérebro comece a sair de um estado de adaptação crônica ao álcool”. Ela explica que o álcool funciona como um depressor do sistema nervoso central, interferindo em sistemas que regulam emoção, excitação e recompensa, como GABA, glutamato e dopamina.
Ao suspender o consumo, o cérebro inicia um processo de reorganização neuroquímica. “Há melhora da qualidade do sono, redução de processos inflamatórios e uma comunicação mais eficiente entre o córtex pré-frontal, responsável por foco, clareza e tomada de decisão, e os sistemas emocionais”, diz Carol. Na prática, muitos relatam “menos ansiedade, maior estabilidade emocional e mais clareza mental, especialmente a partir da segunda ou terceira semana”.
O psicólogo Filipe Colombini complementa essa visão ao afirmar que, com menos álcool, “o cérebro vai se readaptando para funcionar com mais ativação, atenção, foco e menos oscilação do humor e da ansiedade”. Porém ele destaca que esses efeitos não se limitam ao cérebro: “o álcool também pode funcionar como ‘solução momentânea’ para diversos problemas e dificuldades, entretanto, como é momentâneo, não possibilita a aprendizagem de novas habilidades e enfrentamento adequado de situações diárias”.
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Muitas pessoas recorrem ao álcool para aliviar o estresse ou “desligar a mente”. Mas tanto Carol quanto Filipe alertam que esse alívio é ilusório. Segundo Carol, o álcool “reduz a atividade do córtex pré-frontal e aumenta a liberação de dopamina no curto prazo, o que dá a sensação de prazer. Mas é tudo muito momentâneo”. Na visão dela, o consumo recorrente “tende a piorar a saúde emocional ao longo do tempo, tornando a pessoa mais reativa, menos resiliente e mais vulnerável a oscilações de humor”.
Filipe reforça que, a médio e longo prazo, o álcool “piora a regulação emocional, impossibilitando o desenvolvimento de habilidades e causando menos tolerância a quaisquer desconfortos”. Ou seja: aquilo que parece relaxante no final do dia muitas vezes se transforma em uma armadilha que enfraquece a capacidade natural de enfrentar desafios e emoções.
O desafio de ficar 30 dias sem álcool pode ser um ponto de partida, mas os especialistas alertam que os ganhos reais vêm de reflexões mais profundas. Para Filipe, o “Janeiro Seco pode funcionar como um ‘termômetro emocional’” ao ajudar a pessoa a reconhecer “qual a função que o álcool representa na vida, quando ele é usado, e o que ele faz com seu corpo”.
Para a neurocientista, alguns grupos podem perceber benefícios de forma mais evidente: pessoas com níveis elevados de ansiedade, profissionais sob alta pressão cognitiva, quem dorme mal ou quem usa o álcool como um ritual automático de relaxamento. “O Janeiro Seco frequentemente resulta em mais clareza mental, melhor regulação emocional e sensação de maior controle interno”, afirma.
A necessidade de repensar o consumo de álcool também está respaldada por dados globais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o álcool está entre as principais causas de morte evitáveis no mundo, associado a mais de 200 condições de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, cânceres e transtornos mentais. Estudos mostram que o consumo elevado eleva o risco de depressão, ansiedade e comportamentos de risco – e que esse impacto não está restrito apenas a casos extremos.
No Brasil, dados de pesquisas epidemiológicas indicam que grande parte da população adulta consome álcool regularmente e que um percentual significativo se enquadra em padrões considerados de risco para a saúde. A normalização cultural do álcool como elemento presente em celebrações e momentos de lazer amplia o desafio de conscientizar sobre seus efeitos.
Especialistas reconhecem que os primeiros dias sem álcool podem ser desafiadores. “Quando se retira algo que o cérebro usava como fonte de recompensa ou regulação emocional, é comum surgirem sintomas transitórios como irritabilidade, inquietação e aumento temporário da ansiedade”, explica Carol. Para o psicólogo, esse período é um retorno ao “aqui e agora e à sensibilidade antes anestesiada”.
Ambos concordam que enfrentar esse desconforto requer suporte - seja de profissionais, amigos ou familiares - e o desenvolvimento de estratégias alternativas de regulação emocional, como atividade física, mindfulness e técnicas de relaxamento.
Os ganhos relatados por quem participa do desafio vão além do clareamento mental momentâneo. Carol observa uma “sensação de clareza mental associada a maior estabilidade emocional”, e Filipe destaca “uma sensação de controle e de autoconhecimento, além da descoberta de novas estratégias para lidar com processos emocionais”.
E o mais importante: manter esses benefícios não exige abstinência total, mas uma postura consciente diante do consumo. Substituir hábitos automáticos por práticas que promovam bem-estar físico e emocional pode transformar um mês de experimento em uma mudança de vida.
Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health (www.brazilhealth.com)
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