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O colapso silencioso da formação médica no Brasil
Publicado 12/02/2026 • 15:40 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 12/02/2026 • 15:40 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
Canva
Eu ingressei na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em 1976, integrando a 14ª turma. A própria criação da faculdade está ligada à história do ensino médico em São Paulo porque, antes de existir o Hospital das Clínicas, a Faculdade de Medicina da USP tinha na Santa Casa o seu principal hospital-escola. As aulas e a formação prática aconteciam tanto dentro da instituição quanto na Avenida Doutor Arnaldo. Quando o Hospital das Clínicas foi criado, parte do grupo acadêmico ligado à USP – que não foi para lá – permaneceu na Santa Casa e estruturou a faculdade de medicina. Ou seja, a instituição nasceu apoiada em um hospital-escola já consolidado, com forte tradição assistencial e de ensino, onde grandes médicos atendiam a população e formavam alunos na prática clínica e cirúrgica.
Inicio este artigo resgatando essa memória porque ela ajuda a dimensionar a preocupação que vivemos hoje com a formação médica no Brasil.
Os resultados recentes do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) apenas confirmaram algo que, dentro da medicina, já era amplamente percebido: o excesso de faculdades abertas, sem estrutura adequada, sem corpo docente qualificado e sem campos de estágio consistentes, inevitavelmente resultaria em mau desempenho.
Quando uma instituição recebe notas 1 ou 2, estamos falando de alunos que, às vésperas da formatura, não demonstram domínio mínimo do conhecimento teórico básico. E é importante lembrar: trata-se de uma prova sem avaliação prática, com questões consideradas fundamentais. Ainda assim, muitos não conseguem atingir o desempenho esperado. Isso significa que esses profissionais receberão registro médico e terão poder de decisão sobre a vida de outras pessoas, sem preparo adequado – um cenário extremamente preocupante para a segurança assistencial.
Costuma-se dizer que o Brasil vive um excesso de médicos. Na minha visão, o problema não é apenas de quantidade, mas de qualidade e de distribuição. Temos múltiplas faculdades em grandes centros, enquanto regiões do interior, Norte e Nordeste continuam desassistidas. Muitas instituições privadas foram abertas com o argumento de suprir essa carência, mas são caras e frequentadas por alunos de alto poder aquisitivo, que dificilmente atuarão em áreas remotas ou vulneráveis.
Outro ponto crítico é a residência médica. Hoje, menos de 20% dos formados conseguem acesso a programas de especialização. No passado, era difícil entrar na faculdade, mas havia maior possibilidade de continuidade formativa. Atualmente, ocorre o inverso: a graduação se expandiu de forma acelerada, enquanto as vagas de residência não acompanharam esse crescimento.
Com isso, vemos médicos iniciando a prática sem especialização. Parte deles até poderia atuar como generalista, desde que oriunda de boas escolas, com formação sólida, responsabilidade e bom senso
clínico. Mas essa não é a realidade predominante. Profissionais formados em instituições mal avaliadas muitas vezes não têm preparo nem para a prática básica.
Sem residência, não existe formação adequada para a especialidade. Ainda assim, o que se observa é a busca por atalhos: abertura precoce de consultórios, atuação em áreas sem respaldo científico, terapias hormonais indiscriminadas, procedimentos estéticos sem base médica, promessas de rejuvenescimento e intervenções voltadas muito mais ao lucro do que à saúde.
Isso se soma a outro fenômeno preocupante: médicos submetidos a plantões exaustivos, mal remunerados, oferecendo atendimento de baixa qualidade por sobrecarga e falta de preparo. O impacto não é apenas individual – compromete todo o sistema de saúde.
Na minha avaliação, houve falha regulatória ao permitir a abertura indiscriminada de escolas médicas. Não ficou claro se critérios como hospital-escola estruturado, qualidade docente e capacidade assistencial foram devidamente priorizados. Em muitos casos, a expansão pareceu muito mais alinhada a interesses políticos e econômicos do que a um projeto consistente de saúde pública.
Em relação às faculdades com baixo desempenho, não defendo o fechamento imediato – há alunos que podem ser dedicados, mas mal assistidos. Porém, medidas como suspensão de vestibulares até comprovação de melhorias estruturais e pedagógicas são fundamentais, inclusive como instrumento de responsabilização institucional.
Costumo dizer que o Brasil possui centros de excelência comparáveis aos melhores do mundo. Nossa medicina de ponta é extraordinária. O problema é que ela é pouco acessível.
Quando observo a formação massiva de profissionais sem preparo adequado, voltados muitas vezes a uma prática superficial e comercial da medicina, não consigo ser otimista. Vejo com preocupação o futuro da assistência médica oferecida à população brasileira, especialmente na atenção primária, que é a base de qualquer sistema de saúde sólido.
Formar médicos não é apenas emitir diplomas. É preparar profissionais para cuidar de vidas – e isso exige estrutura, responsabilidade e compromisso com a qualidade do ensino.
Prof. Dr. Alfredo Salim – CRM/SP 43163 | RQE 132808
Clínico geral - Head Nacional da Brazil Health
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