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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

Emirados Árabes Unidos anunciam saída da OPEP — e o mundo do petróleo nunca mais será o mesmo

Publicado 29/04/2026 • 10:29 | Atualizado há 2 horas

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Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Opep.

Foto: Maxim Shemetov/Reuters

Bandeira da Opep

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira (28) que se retirarão da OPEP a partir de 1º de maio. A notícia caiu como uma bomba nos mercados energéticos globais — e não à toa. O país é o segundo maior exportador dentro do cartel, atrás apenas da Arábia Saudita, e mantinha vínculos com a organização desde 1967. São quase seis décadas de história encerradas em um comunicado de imprensa.

O governo de Abu Dhabi não deu muitas explicações. O Ministério de Energia e Infraestrutura afirmou que a decisão foi baseada no interesse nacional do país, após uma revisão abrangente de sua política de produção e de sua capacidade de exportação. Mas quem acompanha o jogo de poder no Golfo Pérsico sabe que há muito mais por trás dessa declaração protocolar.

Por que sair? As vantagens que os Emirados Árabes Unidos não precisaram dizer em voz alta

A resposta curta é: cotas de produção. Por anos, os Emirados acumularam tensão com a Arábia Saudita por conta dos limites de extração impostos pelo cartel. Sob o acordo da OPEP+, o país está restrito a cerca de 3 milhões de barris por dia, enquanto mantém capacidade instalada superior a 4 milhões/dia. A estatal ADNOC vem projetando chegar a 5 milhões de barris diários até 2027 - um objetivo praticamente impossível de conciliar com as cotas decididas pelo cartel.

Fora da OPEP, os Emirados ganham algo que nenhuma cota pode dar: liberdade. O país afirmou que sua decisão melhora sua capacidade de responder às dinâmicas do mercado, enquanto continua contribuindo para a estabilidade de forma responsável. Na prática, isso significa poder aumentar ou reduzir a produção conforme seus próprios interesses - sem pedir permissão à Arábia Saudita ou à Rússia.

Há ainda um contexto imediato que pesou decisivamente. Desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã, o bloqueio do Estreito de Ormuz por Teerã restringiu severamente a capacidade dos Emirados de exportar petróleo, ameaçando a base de toda a sua economia. Por semanas, desde o início do confronto, o país foi alvo de mísseis e drones iranianos - e se sentiu desamparado pelos vizinhos do Golfo. Anwar Gargash, assessor diplomático do presidente dos Emirados, criticou publicamente a resposta árabe, afirmando que a posição dos países do Conselho de Cooperação do Golfo foi “a mais fraca historicamente”.

Num cenário assim, permanecer atado às regras de um cartel que inclui o próprio Irã - um dos fundadores da OPEP - deixou de fazer qualquer sentido estratégico.

O que muda no mercado global de petróleo

A saída dos Emirados chega em um momento particularmente delicado. O petróleo já vinha sendo negociado bem acima de US$ 110 o barril, com o Estreito de Ormuz efetivamente fechado e a guerra em sua nona semana. A notícia desta terça-feira fez o crude americano superar os US$ 100 pela primeira vez desde o início de abril.

No curto prazo, o impacto real sobre a oferta é limitado. A saída da OPEP libera a capacidade de produção dos Emirados no papel, mas boa parte dela está paralisada por causa da crise de Ormuz. A Agência de Informação de Energia dos EUA estimou que os produtores do Golfo coletivamente suspenderam cerca de 9,1 milhões de barris por dia em abril. Os Emirados podem querer bombear mais - mas não podem exportar o que não conseguem embarcar.

O impacto estrutural, porém, é outro assunto. O analista Jorge Leon, da Rystad Energy, foi direto: “A saída dos Emirados marca uma mudança significativa para a OPEP. Enquanto os efeitos de curto prazo podem ser contidos pelas perturbações no Estreito de Ormuz, a implicação de longo prazo é uma OPEP estruturalmente mais fraca.”

A OPEP responde coletivamente por 36% da produção mundial de petróleo e controla quase 80% das reservas comprovadas totais do mundo. Perder o terceiro maior produtor do grupo - no meio de uma guerra - não é um evento qualquer. O Qatar saiu em 2019. O Equador, pouco depois. Angola, em 2023. Agora vai embora um membro da era fundadora. O próximo passo de Riad, que pode ir de uma guerra de preços a uma renegociação discreta das cotas, vai definir se o cartel ainda tem fôlego.

A China está no centro do tabuleiro

Seria ingênuo analisar essa decisão sem olhar para Pequim. A relação entre os Emirados e a China vem se aprofundando em ritmo acelerado — especialmente desde que a guerra no Golfo complicou as rotas tradicionais de energia.

Os números já diziam muito antes do anúncio desta terça-feira. A China é o maior comprador de petróleo bruto dos Emirados por volume: em 2025, aproximadamente 35% das exportações de crude do país foram para o mercado chinês. E, em abril, o príncipe-herdeiro Khaled Mohamed bin Zayed Al Nahyan concluiu uma visita de três dias a Pequim, durante a qual Abu Dhabi e Pequim assinaram 24 acordos para fortalecer a cooperação econômica bilateral, incluindo expansão na área de energia. O comércio não petrolífero também bateu recorde: em 2025, o volume entre os dois países ultrapassou US$ 100 bilhões pela primeira vez.

Fora da OPEP, os Emirados podem direcionar mais petróleo para a China sem qualquer constrangimento institucional. Mais do que isso: podem fazê-lo com mais flexibilidade nos preços - e potencialmente em outra moeda. A ADNOC já aprofundou laços com contrapartes chinesas, incluindo um acordo com a CNOOC para o fornecimento anual de 500 mil toneladas métricas de GNL a partir de 2026.

Há ainda uma questão financeira que os mercados começam a levar a sério. Os Emirados alertaram Washington, em reuniões de alto nível, que a escassez prolongada de dólares em tempos de guerra poderia forçar o país a vender petróleo em yuan chinês. O governador do Banco Central dos Emirados teria dito a autoridades americanas que, se o país ficar sem dólares suficientes, Abu Dhabi pode não ter outra escolha. A infraestrutura para isso já existe: a plataforma mBridge, baseada em moedas digitais de bancos centrais, processou mais de US$ 55,5 bilhões em transações até novembro de 2025, com o yuan digital respondendo por 95% do volume.

E os EUA? Vitória ou vulnerabilidade?

A resposta do governo Trump foi de satisfação. A saída dos Emirados é vista como uma vitória para Donald Trump, que acusou a OPEP de “roubar o resto do mundo” ao inflar os preços do petróleo e que vinculou o apoio militar americano aos países do Golfo ao comportamento do cartel. Na lógica de Trump, menos OPEP significa mais petróleo no mercado - e gasolina mais barata para o eleitor americano.

Essa leitura não está errada. Mas é incompleta.

A ameaça real para Washington não está nos barris - está nos dólares. O sistema do petrodólar, arquitetado no acordo de Henry Kissinger com a Arábia Saudita nos anos 1970, garantiu que o petróleo mundial fosse cotado e transacionado em dólares americanos. Isso criou uma demanda estrutural e permanente pela moeda americana, permitindo ao governo dos EUA emitir dívida a juros mais baixos do que qualquer outro país. Analistas do Deutsche Bank alertaram que a guerra no Golfo pode ser lembrada como “um catalisador central para a erosão da dominância do petrodólar e o começo do petroyuan”.

O mecanismo é simples e devastador: petróleo cotado em yuan gera yuan, não dólares. Esse yuan não flui para os Treasuries americanos. Flui para ativos chineses. Mesmo 1 milhão de barris por dia liquidados em yuan representa cerca de US$ 80 milhões por dia em demanda por dólares que desaparece dos fluxos globais.

A era da dominância incontestada do dólar no comércio global de petróleo está chegando ao fim - não esta semana, não este ano, mas o processo está em andamento. O mais provável é um mundo em que petrodólar e petroyuan coexistam como dois sistemas paralelos, com os países escolhendo um ou outro conforme a conveniência geopolítica do momento.

O dólar ainda tem vantagens estruturais que o yuan não tem: profundidade e liquidez dos mercados financeiros americanos, liberdade de movimentação de capital e efeitos de rede que fazem com que todos tenham incentivo em usá-lo porque todos os outros o usam, nas palavras de Paul Blustein, do Center for Strategic and International Studies. Mas, cada vez que um produtor importante faz uma transação fora do sistema do dólar, esse argumento do “efeito de rede” enfraquece um pouco.

O que vem a seguir

Os próximos meses vão revelar se a saída dos Emirados foi um gesto isolado de frustração geopolítica ou o primeiro movimento de uma reorganização mais profunda do mercado energético global. Três variáveis vão determinar isso: a velocidade com que Ormuz se abre para o tráfego regular de petroleiros, a resposta da Arábia Saudita à perda de seu parceiro mais importante dentro da OPEP e - talvez o mais decisivo de tudo - se Washington aceita ou não estender uma linha de swap de moeda ao banco central dos Emirados para evitar que Abu Dhabi precise da válvula de escape do yuan.

Uma coisa é certa: a OPEP que existia até ontem não existe mais a partir de amanhã.

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