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Análise Exclusiva Marcelo Favalli

O silêncio de Trump sobre a China diz mais que as menções ano passado

Publicado 25/02/2026 • 13:00 | Atualizado há 2 horas

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Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Mark Garten via Fotos Públicas

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

No discurso do Estado da União mais longo da história, o presidente americano ignorou Pequim — mas as investigações abertas contra China e Brasil como instrumento de pressão após derrota na Suprema Corte continuam, silenciosamente

Na noite de terça-feira, 24 de fevereiro, Donald Trump bateu seu próprio recorde: discursou por 1 hora e 47 minutos no Congresso dos Estados Unidos, entregando o mais longo Estado da União da história americana. Falou de economia, deportações, Irã, cartel mexicano. Falou de quase tudo. Menos de China. O gigante asiático, que havia aparecido seis vezes no mesmo evento no ano anterior, desta vez não recebeu uma única menção direta - a primeira vez em duas décadas que um presidente americano ignorou Pequim na fala ao Congresso.

O silêncio, porém, não é ingenuidade diplomática - é cálculo. Trump tem visita de Estado à Pequim prevista para as próximas semanas. E chegou a essa agenda enfraquecido: na sexta-feira anterior ao discurso, a Suprema Corte derrubou, por 6 votos a 3, o coração do seu "tarifaço" global, entendendo que o presidente não tinha autoridade para impor alíquotas amplas sobre praticamente todos os parceiros comerciais americanos, com base na Lei de Poderes Econômicos Internacionais de Emergência (IEEPA). Com as asas tarifárias cortadas, nomear a China no Congresso seria admitir uma posição enfraquecida.

Mas o que Trump não disse no Congresso, seu governo tratou de comunicar ao mercado por outros meios. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) anunciou que manterá as investigações já abertas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 - um dos instrumentos mais poderosos do arsenal comercial americano, que permite investigar práticas consideradas desleais e, ao final do processo, impor tarifas punitivas com respaldo legal muito mais sólido do que a IEEPA. China e Brasil seguem na lista. E uma tarifa global temporária foi elevada de 10% para 15%, desta vez ancorada na Seção 122 da mesma lei.

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O Brasil no radar — do Pix ao desmatamento

No caso brasileiro, a investigação cobre um espectro intencionalmente amplo: o sistema de pagamentos instantâneos Pix, tarifas de importação consideradas injustas, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e até o desmatamento ilegal. São frentes distintas, costuradas numa mesma investigação - uma estratégia de barganha que dá a Washington múltiplos pontos de pressão simultâneos. Uma espada de Dâmocles com várias lâminas. A metáfora escrita por Cícero em sessenta antes de Cristo ainda serve na História Contemporânea. O filósofo cria uma ficção na qual o tal Dâmocles é colocado em uma situação de constante tensão: sentar-se na cadeira do monarca, porém com um punhal pendurado contra a cabeça. Ou seja, por mais que o convidado esteja em lugar de prestígio, o clima de tensão e risco constante se mantém. Na comparação, Trump é o rei que corteja os convidados, mas os mantêm em ameaça iminente. Ou seja, por trás da benevolência da suspensão das tarifas, o presidente americano encontra maneiras para deixar evidente quem manda.

Quem leu "A Arte da Negociação" - o bestseller de Trump publicado em 1987 - reconhece o roteiro. O livro ensina que “leverage”, ou alavancagem, é a maior força em qualquer negociação: "A pior coisa que você pode fazer é parecer desesperado. A melhor é negociar a partir da força." A citação consta na obra que o magnata considera seu próprio manual de persuasão. Perder na Suprema Corte poderia ser lido como fraqueza. A resposta de Trump foi clássica: não tirou as cartas da mesa. O tarifaço pode ter sido a abertura exorbitante, a âncora que empurrou toda a negociação comercial global para seu território. A Suprema Corte derrubou a âncora - mas o terreno já estava marcado.

As investigações da Seção 301 são, agora, o "Plano B" - mais lentas, mais processuais, porém juridicamente inatacáveis. Para Brasil e China, a mensagem é que a guerra comercial não acabou: apenas migrou de canal. E a lição central do livro de Trump se aplica com precisão: a ameaça não precisa ser executada para produzir efeito. A espada de Dâmocles continua suspensa. E é exatamente isso que Washington quer.

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