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Trump critica guerras eternas e pode ter entrado em uma delas
Publicado 11/03/2026 • 11:57 | Atualizado há 5 horas
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Publicado 11/03/2026 • 11:57 | Atualizado há 5 horas
Donald Trump, presidente dos EUA
Quando ainda era empresário e aspirante a político, Donald Trump construiu parte de sua retórica criticando o que chamava de "guerras eternas" travadas pelos Estados Unidos no Oriente Médio. Agora, no segundo mandato na Casa Branca, o presidente americano pode ter mergulhado em exatamente aquilo que tanto condenou — com uma diferença crucial: desta vez, o verdadeiro adversário não está em Teerã, mas em Pequim.
A operação “Fúria Épica”, lançada em fevereiro contra alvos iranianos, já entrou na segunda semana e consumiu bilhões de dólares. Apesar da retórica de "ataque cirúrgico" e "objetivos limitados", não há clareza de estratégia de Washington para concluir o confronto. Mais importante: se Trump declarar vitória e encerrar a operação militar sem provocar mudança de regime dos aiatolás, o que terá sido conquistado?
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A morte de Ali Khamenei em um bombardeio, em fvereiro, alterou pouco o cenário. Seu filho, Mojtaba Khamenei, foi rapidamente alçado à posição de líder supremo em 8 de março, em um processo que muitos especialistas consideram apressado e controverso. Aos 55 anos, Mojtaba é visto como ainda mais linha-dura que o pai, especialmente em questões relacionadas ao Ocidente.
A sucessão dinástica foi recebida com ceticismo pela população iraniana, mas consolidada pela elite clerical e pelos Guardas Revolucionários - as Forças Armadas comandadas pelo líder supremo. Para Washington, isso representa um desafio fundamental: mesmo que a operação militar seja declarada finalizada, o Irã permanecerá sob liderança hostil, potencialmente mais inflexível que antes.
O risco imediato: a validação da narrativa iraniana de resistência contra a agressão ocidental. Partindo dessa premissa, o novo aiatolá não vai esquecer quem matou seu pai. Um provável discurso de que o Irã foi vítima dos antigos inimigos deve agariar ainda mais radicais.
Durante anos, o agora presidente dos Estados Unidos pela segunda vez criticou os antecessores George W. Bush e Barack Obama por guerras prolongadas no Iraque e no Afeganistão — operações que custaram trilhões de dólares e milhares de vidas americanas sem produzir vitórias decisivas. A semelhança entre as situações do passado e presente americano: a promessa de uma força militar rápida e saída limpa.
A realidade, porém, mostra o oposto. Uma ação militar sem mudança de regime deixa intacta a estrutura de poder iraniana. Assim como aconteceu no Afeganistão e, em certa medida, no Iraque. No caso do Irã o assassinato de Ali Khamenei, dezenas de militares de alta patente e civis que foram pegos no fogo cruzado fortalece a narrativa de que a República Islâmica resistiu ao poder de Washington. E, crucialmente, empurra Teerã ainda mais para os braços do único parceiro disposto a confrontar a hegemonia dos Estados Unidos: a China.
A sombra chinesa sobre o Golfo Pérsico
As relações entre Irã e China vinham se aprofundando desde antes do conflito atual. Em 2021, os dois países assinaram um acordo estratégico de cooperação de 25 anos, avaliado em 400 bilhões de dólares, cobrindo desde petróleo e gás até infraestrutura e telecomunicações. Pequim se tornou o principal comprador de petróleo iraniano, muitas vezes contornando sanções americanas por esquemas complexos de refinarias flutuantes e navios com transponders desligados.
Mas a operação militar americana acelerou essa aproximação de forma dramática. Fontes de inteligência indicam que a China estaria negociando a venda de sistemas de mísseis supersônicos CM-302 ao Irã — uma transferência de tecnologia que alteraria significativamente o equilíbrio de poder no Golfo Pérsico. Há também relatos não confirmados de que engenheiros chineses estariam ajudando o Irã a reconstruir instalações nucleares danificadas por bombardeios.
Em suma: cada dia que a operação militar continua, o Irã se torna mais dependente de Pequim. E a China está mais do que disposta a pagar o preço político de apoiar Teerã, porque isso desgasta os Estados Unidos nos campos militares, econômicos e diplomáticos.
E aqui chegamos ao núcleo da questão: a disputa pela hegemonia global no século XXI não será decidida em Teerã, mas na competição entre Washington e Pequim. Todos os grandes analistas de relações internacionais concordam que o confronto estratégico desta era é entre os Estados Unidos e a China — por influência tecnológica, rotas comerciais, alianças militares e poder de agenda global.
Nesse contexto, a operação no Irã pode estar produzindo exatamente o efeito oposto ao desejado. Em vez de enfraquecer um adversário regional, Washington pode estar inadvertidamente fortalecendo seu rival sistêmico global.
Considere os custos: bilhões de dólares gastos em operações militares que poderiam ser investidos em competição tecnológica com a China. Capital político internacional desperdiçado que poderia ser usado para consolidar alianças no Indo-Pacífico. E, crucialmente, o Irã sendo empurrado ainda mais para a órbita chinesa, dando a Pequim acesso estratégico ao Golfo Pérsico e às rotas de energia do Oriente Médio.
Há uma ironia cruel nesta situação. Trump sempre se viu como um negociador astuto, alguém que entende custos e benefícios melhor que os "generais idiotas" que criticava. Mas sua operação contra o Irã pode estar repetindo exatamente os erros que ele denunciava: objetivos difusos, custos crescentes, ausência de estratégia de saída clara.
Pior: ao contrário das guerras do Iraque e Afeganistão, que ao menos tinham a narrativa de "democracia no Oriente Médio" como objetivo declarado, a operação atual tem uma contradição embutida. Se for bem-sucedida militarmente mas não mudar o regime, terá apenas radicalizado o Irã e aproximado Pequim e Teerã. Se arrastar indefinidamente, será literalmente a "guerra eterna" que Trump tanto criticou.
A administração Trump enfrenta agora um dilema clássico de política externa: como sair de uma operação militar sem parecer derrotado, mas também sem se comprometer com uma ocupação prolongada ou mudança de regime custosa?
Declarar vitória prematuramente significaria deixar intacto um regime iraniano furioso e armado, agora sob liderança de um aiatolá que viu o pai ser morto por bombardeios americanos. Prolongar a operação significa sangrar recursos, atenção política e capital diplomático que deveriam estar focados na competição com a China.
Trump está descobrindo que criticar guerras é mais fácil do que terminá-las. ironicamente, ele pode estar criando exatamente o tipo de conflito prolongado que sempre desprezou — só que desta vez, o maior beneficiário não está em Teerã, mas em Pequim.
Enquanto Washington se desgasta militarmente no Golfo Pérsico, Pequim consolida ganhos estratégicos. A Iniciativa Cinturão e Rota avança pela Ásia Central sem contestação americana séria. Acordos comerciais regionais são assinados sem a presença dos EUA. E, crucialmente, a narrativa chinesa de "ascensão pacífica" contrasta cada vez mais com a imagem americana de potência belicosa.
Para Xi Jinping, cada semana de operação militar americana no Irã é uma semana em que Washington não está focado no Indo-Pacífico. Cada bilhão de dólares gasto em bombardeios é um bilhão que não vai para pesquisa em inteligência artificial ou infraestrutura de semicondutores. Cada condenação internacional aos EUA é uma oportunidade para a China se posicionar como voz da moderação.
Talvez a definição mais precisa para o conflito atual seja esta: uma guerra eterna no Oriente Médio que, na prática, funciona como frente secundária de uma guerra fria do século XXI contra a China — mas que, ironicamente, fortalece o adversário principal em vez de enfraquecê-lo.
Trump prometeu acabar com as guerras eternas. Mas ao lançar uma operação militar sem estratégia clara de saída, sem objetivos políticos definidos e sem considerar as implicações de longo prazo para a competição com a China, ele pode ter criado exatamente aquilo que mais criticava: um conflito prolongado, custoso e contraproducente que distrai os Estados Unidos de sua verdadeira prioridade estratégica.
A pergunta que fica é: quanto tempo levará para Washington reconhecer que o verdadeiro rival não está em Teerã, mas muito mais a leste? E quando isso finalmente acontecer, será tarde demais para reverter os ganhos estratégicos que a China terá consolidado enquanto os Estados Unidos gastavam sangue e tesouro em mais uma "guerra eterna" no Oriente Médio?
Por enquanto, o Irã resiste, Mojtaba Khamenei consolida poder, a China expande influência — e Trump descobre que terminar guerras é bem mais difícil do que criticá-las
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