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Raphael Coraccini

Raphael Coraccini: Por que falamos tanto de política fiscal?

Publicado 20/10/2026 • 23:08 | Atualizado há 2 horas

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

Instituição Fiscal Independente (IFI) faz projeção sobre déficit primário.

Pixabay.

O Brasil caminha para se tornar a oitava maior economia do mundo, mas ainda convive com uma das maiores desigualdades do planeta. Apesar dos avanços no combate à pobreza, milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso ao básico. A classe média também sofre. O acesso à moradia, à saúde e à educação compromete uma parcela significativa da renda. Nas grandes cidades, a escalada dos preços dos imóveis, impulsionada também pela especulação imobiliária, tornou o problema habitacional particularmente preocupante.

Esses são alguns dos desafios econômicos do país. Ainda assim, o debate sobre a economia está viciado em assunto diverso: o Brasil está gastando demais? A política fiscal monopolizou as atenções.

Por que falamos tanto de política fiscal?

A valorização do salário mínimo, o combate à pobreza e os investimentos em saúde, educação, ciência e tecnologia ficam em segundo plano. Quando não são, na verdade, um problema. A discussão sobre desenvolvimento cedeu espaço à defesa incessante sobre limite de gastos.

O Brasil conhece os riscos do endividamento público. Nas décadas de 1980 e 1990, a exposição à dívida externa e a vulnerabilidade cambial agravavam as dificuldades do país. O cenário atual é diferente: a maior parte da dívida pública federal é denominada em moeda nacional, o que confere ao Estado instrumentos de administração que tornam o cenário muito diferente. Não existe nenhum risco de calote. Isso já deveria aliviar as tensões. Mas não.

Esse hiperfoco na política fiscal nos impede de enxergar como as demais variáveis da economia se relacionam. Já não discutimos, por exemplo, quanto cada real investido no Bolsa Família ou em qualquer programa social movimenta na economia. Quanto desse dinheiro retorna em consumo, renda e atividade econômica? Essas são perguntas econômicas legítimas, além de todas as razões sociais que justificam o programa.

O Brasil avançou no combate à pobreza e à fome e reduziu indicadores como a mortalidade infantil ao longo das últimas décadas. Esses avanços não eliminaram nossas desigualdades, mas demonstram como as políticas públicas das últimas décadas contribuíram para transformar as condições de vida da população.

Ainda há muito a fazer. O Brasil pode e precisa avançar mais. Mas como construir um país desenvolvido se a principal discussão econômica se limita a quanto o Estado gasta? Como enfrentar problemas estruturais sem discutir onde investir  e como ampliar a capacidade de produzir riqueza?

A crise de representatividade está também na discussão econômica

Não se pode exigir uma sociedade mais produtiva sem discutir os investimentos necessários para fazer com que ela se torne mais produtiva. Simples assim. Também não faz sentido atribuir aos indivíduos a responsabilidade por limitações que são estruturais.

Os sistemas político e econômico enfrentam uma crise de representação. As pessoas trabalham muito, enfrentam dificuldades e percebem uma distância crescente entre o esforço que fazem e as oportunidades que conseguem alcançar. E mesmo assim são responsabilizadas pelo fato de o Brasil ser supostamente o “País do atraso”.

Não há como transformar uma sociedade sustentando a ideia de que se gasta demais com o povo e de que o povo produz menos. Essa narrativa não apenas desconsidera os obstáculos estruturais ao desenvolvimento, mas também afeta a maneira como as pessoas enxergam a si mesmas e o lugar que ocupam na sociedade. É nessa desesperança e nesse vazio existencial que os radicalismos emergem. A ascensão da extrema-direita de um lado e os movimentos populares nas ruas da Europa de outro ajudam a ilustrar.

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