CNBC

CNBCCEO da Berkshire, Abel diz que Alphabet é uma “empresa relevante” em I.A após aumento da participação no 2º trimestre

Sérgio Leverdi Sergio Leverdi

Megawatt é o novo silício e o Brasil descobriu que pode vendê-lo

Publicado 02/09/2026 • 09:24 | Atualizado há 2 horas

Foto de Sérgio Leverdi

Sérgio Leverdi

Advogado com mais de 30 anos de atuação, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em Direito Econômico e Empresarial, pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Também é especialista em Direito Tributário e em regulação do setor de energia, tendo cursado Pós-Graduação tanto no IDP como na PUCPR, área em que atua na representação de grandes projetos de relevância nacional. Idealizador do LAWINFRA, iniciativa voltada ao diálogo entre o setor produtivo, reguladores e o sistema de justiça, Sérgio Leverdi é sócio do Observatório Internacional da Justiça e Arbitragem. Sua trajetória é marcada pela atuação estratégica em infraestrutura, energia, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

Sérgio Leverdi, CEO do LAWINFRA,

Reprodução/Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

Sérgio Leverdi, CEO do LAWINFRA, fala sobre segurança jurídica, investimentos e infraestrutura durante o Climate Week 2026 – Brasil 2030.

Durante dois anos, o gargalo da inteligência artificial teve nome e sobrenome: chip da Nvidia. Hoje, esse gargalo mudou de endereço. Alphabet, Microsoft e Meta seguem anunciando compromissos financeiros bilionários, boa parte deles fora de balanço, para garantir capacidade de processamento nos próximos anos. Mas o que trava esses planos não é mais a fila de semicondutores. É a tomada. Nos polos tradicionais do Hemisfério Norte, a rede elétrica chegou perto do limite, e a resistência política ao consumo de água e energia desses complexos só cresce. O capital, que segue a lei do menor obstáculo, encontrou no Hemisfério Sul uma válvula de escape e o Brasil, especificamente o interior paulista, virou destino.

O Brasil já se mostra competitivo, principalmente no eixo Bandeirantes-Anhanguera, e o Redata é uma demonstração de que queremos melhorar o ambiente para que o capital internacional desembarque no nosso país.

Sumaré: a prova física de uma tese que eu já vinha sustentando

Não é retórica. É, de fato, concreto derramado. A Ascenty, joint venture entre Digital Realty e Brookfield, está erguendo em Sumaré o data center “Sumaré 3”. Um investimento de US$ 1,2 bilhão, uma produção de 90 megawatts iniciais - com capacidade de dobrar, sistema de resfriamento líquido direto no chip e circuito fechado de água, para atender a uma hyperscaler global ainda não revelada.

O detalhe que interessa a quem investe: antes mesmo de a obra terminar, a empresa já havia pré-vendido 150 megawatts do seu ciclo de expansão, gerando especulação imobiliária como demanda correndo na frente da própria construção.

Sumaré não está sozinha. O eixo que acompanha as rodovias Anhanguera e Bandeirantes - de Jundiaí a Paulínia, passando por Hortolândia e Vinhedo - já concentra a maior densidade de infraestrutura digital da América Latina, com empreendimentos da Odata, por exemplo, bem como Microsoft, CloudHQ e outros players somando dezenas de bilhões em investimentos anunciados. A vantagem que atrai esse capital tem nome: 86,8% da matriz elétrica brasileira é renovável. Para quem compra capacidade computacional hoje, comprar energia limpa deixou de ser exigência regulatória e virou parte do produto. A sustentabilidade é remunerada pela infraestrutura digital, o megawatt verde é nosso!

Mas aqui mora o paradoxo que move este artigo: a mesma pressa que traz o investimento é a que ameaça travá-lo. Um data center fica pronto em 18 a 24 meses. Uma linha de transmissão de grande porte leva de três a cinco anos. Esse descompasso, que já bate à porta dos corredores elétricos de Campinas, hoje operando perto da saturação, é onde a engenharia jurídica deixa de ser suporte e vira condição de viabilidade.

A batalha de Brasília: votar, afastando as emendas, pela celeridade

Como anunciamos no telejornal Radar, do Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC, o  Redata, regime que desonera a cadeia de importação e implantação de data centers, foi impulsionado pelo presidente do Senado Davi Alcolumbre, tendo sido aprovado, e a Lei que agora segue para sanção presidencial faz renascer uma série de incentivos fiscais diante de contrapartidas claras. Isto porque as emendas ao projeto de Lei que pretendiam agregar interesses diversos dos setores econômicos envolvidos, por ocasião da votação no Senado, não foram aprovadas. Se fosse o caso de acatamento de emendas, o projeto de lei deveria retornar à Câmara do Deputados, retomando o rito legislativo, atrasando a pujança que os investimentos necessitam. A corrida não pode parar.

Vale registrar que essa corrida pelos Data Centers que abrigam a IA e outros serviços digitais, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin citou, deve atrair investimentos, somados ao mercado de terras raras, na altura de “perto de R$ 1 trilhão", associando o programa ao interesse explícito dos Estados Unidos e à mesa de negociação tarifária entre os dois países.

Ora, como já foi dito, aqueles que investem pesado em infraestrutura e dependem de energia elétrica sofrem quando regras de precificação de energia ou incentivos fiscais mudam no meio de contratos de longo prazo (PPAs). Isso é, por si só, um sintoma da instabilidade regulatória que fundos como Blackrock, Brookfield e Digital Realty citam como principal risco de longo prazo.

É aqui que a segurança jurídica e a governança contratual entram como peça central, não coadjuvante. Contratos de fornecimento de energia (PPAs) que se estendem por décadas não sobrevivem a um regime fiscal que aparece, caduca e reaparece seis meses depois sob acordo de última hora. O amadurecimento dos mecanismos de previsibilidade legislativa e de regulação no Brasil é o que permite a esses fundos precificar o risco de execução, mesmo convivendo com o atraso na expansão da rede de transmissão, o chamado grid backlog.

O contraponto que a cobertura local está deixando de fora

Nenhuma análise séria pode ignorar o que ficou de fora do texto do Redata. Em agosto, a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara ouviu especialistas do Inesc alertando para dois riscos pouco discutidos: o volume de lixo eletrônico gerado pela troca acelerada de hardware de IA, e a concentração desses empreendimentos justamente perto dos polos eólico-solares do Nordeste, onde a água já é recurso escasso. Um data center de porte médio pode consumir mais de 100 milhões de galões de água por ano, segundo estimativas internacionais citadas no debate. O Idec foi além: propôs que a expansão de rede motivada por grandes consumidores de energia — os "ultraeletrointensivos" — seja paga por quem gera a demanda, não socializada na tarifa de todo mundo.

O gancho com Sumaré, aqui, reforça exatamente o argumento contrário ao alarmismo: complexos como o Sumaré 3 usam resfriamento em circuito fechado para zerar o consumo operacional de água, e o desenho técnico do Redata já condiciona o incentivo a metas de eficiência hídrica e energética. O problema não é a ausência de solução técnica, e sim a ausência de previsibilidade jurídica sobre quem responde se essas metas não forem cumpridas, e sobre quem paga a conta se a regra mudar no meio do contrato.

A tese que sustento: segurança jurídica é infraestrutura

A pergunta que decide se o Brasil vira válvula de escape permanente do capex global de IA, ou apenas um destino oportunista de um ciclo, não é quantos megawatts temos disponíveis. É se conseguimos transformar decisões de bilhões, tomadas para durar décadas, em compromissos que sobrevivem a uma eleição, a uma crise fiscal ou a um recesso legislativo.

O Congresso votou isso nesta semana. O mercado já decidiu: os canteiros de obra de Sumaré precisam de celeridade, previsibilidade e segurança jurídica, para que o capital que está na mochila da IA possa ali se instalar.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Sergio Leverdi