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Anfavea divulga carta aberta e cobra do governo fim dos privilégios à BYD
Publicado 19/06/2026 • 18:39 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 19/06/2026 • 18:39 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou nesta sexta-feira (19) uma carta aberta exigindo que o governo cumpra os compromissos assumidos com a indústria automotiva brasileira e rejeite a pressão da BYD por mais um benefício fiscal. O documento foi publicado no mesmo dia da reunião extraordinária do Comitê de Alterações Tarifárias (CAT) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) que pode dar à fabricante chinesa exatamente o que ela quer.
A BYD tenta reverter uma decisão já tomada pelo governo e reativar as cotas de importação de veículos elétricos livres de impostos, que expiraram em janeiro — depois da montadora já ter recebido um prazo de seis meses, menos da metade dos três anos que havia pedido. Não satisfeita, a empresa agora também tenta adiar a entrada em vigor da alíquota de 35% prevista para julho sobre veículos elétricos e híbridos importados.
A reunião do CAT estava marcada para esta sexta-feira, mas a pauta não foi divulgada com antecedência — sinal de que o governo pode estar disposto a ceder à pressão da BYD sem o devido debate público. Sem o aval do comitê, o pedido de isenção não pode avançar para o Comitê-Executivo de Gestão da Camex (Gecex), colegiado que reúne representantes de ministérios e é responsável pela decisão final sobre tarifas e cotas.
Leia também: BYD volta à lista suja do trabalho escravo em novo revés da gestão de Alexandre Baldy
A pressão da montadora chinesa começou em 20 de maio, quando Tyler Li, presidente da BYD no Brasil, acompanhou o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), em audiência com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin. No encontro, a BYD foi enfática ao pedir a retomada da isenção das cotas.
A fabricante chinesa instalou sua fábrica em Camaçari (BA), onde já desfruta de incentivos de ICMS concedidos pelo governo estadual. Mas, apesar disso, a BYD segue importando os carros praticamente prontos — exatamente o modelo de negócio que a indústria nacional considera predatório e que a Anfavea tenta barrar.
Nesta semana, o vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, ameaçou que os modelos Seal, Sealion e Atto 8 podem sofrer reajuste de preço caso os benefícios de importação não sejam reativados. O setor nacional vê o argumento como pressão política travestida de aviso ao consumidor.
“Manter as medidas tal como foram anunciadas é assegurar a previsibilidade e a estabilidade das regras sobre as quais o setor automotivo decidiu investir no país”, diz a carta. Para a entidade, a política de transição tarifária foi construída ao longo de anos, com amplo debate entre governo e setor produtivo. Ceder agora à pressão de uma única fabricante, na reta final do processo, “compromete a confiança de quem investiu com base nelas”.
A Anfavea defende quatro pontos, todos contrários ao que pede a BYD: manutenção integral do cronograma já estabelecido, sem postergações; não renovação das cotas de importação com alíquota zero, encerradas em janeiro; não criação de mecanismos equivalentes que adiem o cronograma; e diálogo prévio com a indústria antes de qualquer mudança nas condições que fundamentaram os investimentos já anunciados — algo que, segundo o setor, não vem acontecendo nas conversas recentes entre a BYD e o Planalto.
A entidade cita como evidência da distorção causada pelo modelo da BYD o crescimento dos estoques de veículos importados, que chegaram a 150 dias em maio. Segundo a Anfavea, esse é um sinal de que a fabricante chinesa está se aproveitando do período de redução tarifária para inflar estoques antes que o benefício acabe.
Os números do próprio estudo da entidade são contundentes: a massificação da fabricação com kits importados poderia gerar perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal e a eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia produtiva. Esse é o preço que o Brasil pagaria para sustentar o modelo de negócio que a BYD quer perpetuar.
Em contraste com a BYD, a Anfavea destaca que as fabricantes associadas anunciaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, voltados a eletrificação, descarbonização, engenharia, pesquisa e expansão da cadeia de suprimentos, “tudo sem pedir cotas ao governo ou qualquer mudança nas regras previamente acordadas”, diz o documento.
A entidade também rebate o argumento de que a tarifa trava a eletrificação do mercado: somente no primeiro trimestre deste ano, onze novas marcas chegaram ao Brasil, e os eletrificados produzidos no país já respondem por 40% das vendas do segmento em 2026, ante 26% em 2025. Prova, segundo a Anfavea, de que é possível crescer sem depender de importação isenta.
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A disputa também expõe o que separa a BYD das demais montadoras chinesas que decidiram investir no Brasil de fato. Enquanto a BYD insiste em mais tempo de importação isenta, concorrentes avançam em projetos concretos de fabricação local. A Stellantis anunciou produção de veículos da Leapmotor em Pernambuco a partir de 2027. A Renault, em parceria com a Geely, começará a fabricar os modelos EX2 e EX5 no Paraná ainda este ano. A Caoa já iniciou a produção do Uni-T, da Changan, em Goiás. A GM, que produz o Spark no Ceará, anunciou a fabricação do Captiva elétrico e optou por aumentar a nacionalização de componentes em vez de pressionar o governo por isenções.
A decisão sobre o pedido da BYD depende agora da reunião do CAT, e, em seguida, do Gecex, sem data certa de resultado.
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