EXCLUSIVO: Falta de higiene e estrutura sanitária. Um ano após escândalo de trabalho escravo, funcionários fazem manifestações em fábrica da BYD na Bahia
Publicado
16/12/2025 • 19:53
| Atualizado há 1 mês
A fábrica da BYD em Camaçari ganhou destaque global após a CNBC Internacional relatar que operários chineses no local foram considerados vítimas de tráfico de pessoas, com acusações de alojamentos superlotados e sem colchões, além de jornadas de trabalho excessivas
Enquanto a BYD afirma ter reforçado controles e supervisão após o caso que ganhou repercussão internacional, movimentos sociais e trabalhadores dizem que mudanças estruturais prometidas não se materializaram no dia a dia da obra
Mesmo depois de fiscalizações, multas e de uma ação civil pública que pede R$ 257 milhões, terceirizados afirmam que atrasos salariais, pagamento abaixo do piso e condições precárias continuam no complexo
Reprodução/CNBC
Matéria da CNBC Internacional
Falta de higiene e estrutura sanitária considerada precária marcam a rotina no atual canteiro de obras do complexo da BYD em Camaçari (BA). É o que afirma o coordenador nacional do Movimento Luta de Classes (MLC), Aroldo Félix. Um ano depois do resgate de operários chineses em condição análoga à escravidão, as denúncias relatadas por ele e por outros trabalhadores reacendem o debate sobre o que, de fato, mudou desde o escândalo que paralisou a construção no fim de 2024.
À época, o caso projetou a fábrica da BYD em Camaçari para o noticiário mundial depois que reportagem da CNBC Internacional revelou que as autoridades trabalhistas brasileiras passaram a tratar o grupo de operários chineses do canteiro como vítimas de tráfico de pessoas. Em vídeos divulgados pelos procuradores, os alojamentos apareciam com beliches sem colchões e sinais de superlotação. Relatos oficiais apontavam jornadas excessivamente longas, em alguns casos sete dias por semana, em um quadro que as autoridades classificam como “degradante”.
Em 23 de dezembro do ano passado, uma força-tarefa formada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT), Defensoria Pública da União, Ministério Público Federal e polícias Federal e Rodoviária resgatou 163 desses trabalhadores em condições análogas à escravidão em alojamentos e no canteiro da fábrica. Depois de novas inspeções, o número de vítimas reconhecidas subiu para 220, o que, segundo o MPT, configurou um dos maiores resgates do tipo registrados no Brasil em 2024.
Em 2025, o MTE autuou a BYD como responsável direta por submeter parte desse grupo a trabalho em condição análoga à escravidão e por trazer 471 chineses ao país de forma irregular, lavrando mais de 60 autos de infração. Ao mesmo tempo, o MPT ingressou com uma ação civil pública que pede R$ 257 milhões em indenizações por trabalho escravo e tráfico internacional de pessoas contra a BYD e as empreiteiras China JinJiang Construction Brazil e Tecmonta Equipamentos Inteligentes.
É nesse cenário que, em dezembro de 2025, novas denúncias sobre precarização nas obras do mesmo complexo voltam à porta da montadora.
Novas paralisações
Na manhã de 2 de dezembro de 2025, trabalhadores da construção civil que prestam serviço nas obras da BYD em Camaçari realizaram um protesto em frente à fábrica, às margens da BA-530, via de acesso ao Polo Industrial. Uma reportagem do jornal Correio relata que o fluxo de veículos foi parcialmente interditado e que dezenas de funcionários se concentraram em frente ao portão da montadora.
Segundo a carta de reivindicações aprovada no ato e divulgada pelos organizadores, participaram da paralisação trabalhadores das terceirizadas Terra Construções, Falcão, Valtec, Engenova, Dongil e Segprime. No documento, eles afirmam que o objetivo foi denunciar as condições precárias de trabalho dentro da fábrica e elencam 11 pontos que, segundo dizem, exigem solução imediata.
Entre as demandas, estão:
pagamento de 30% de adicional de insalubridade;
mais banheiros químicos e manutenção da limpeza;
fim do assédio moral e das ameaças de demissão;
aumento do auxílio-alimentação e do auxílio-transporte, além de transporte para quem mora longe (a carta afirma que “muitos trabalhadores têm gastado 600 reais ou mais do próprio salário”);
instalação de bebedouros;
construção de vestiários e banheiros de alvenaria;
construção de fumódromos;
cumprimento rigoroso dos pagamentos de salários, cesta básica e quinzena, com atualização do piso salarial e da cesta (o texto diz que o piso atualizado é de R$ 2.658, mas que “as terceirizadas estão pagando 2.558 reais, ou seja, 100 reais a menos”);
implantação de um plano de cargos e salários;
disponibilização de mais ônibus para deslocamento dentro da fábrica;
plano de saúde que inclua dependentes.
Funcionários fazem paralisação em frente à fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia | Foto: Isabella Tanajura
Em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Aroldo Félix, do MLC, relata que a principal queixa envolve a infraestrutura sanitária do canteiro. Ele afirma que o número de banheiros químicos é insuficiente para o contingente de trabalhadores terceirizados na obra. Segundo Félix, “um caso que eles reclamam bastante são os banheiros químicos, que não têm manutenção, não têm limpeza nesses banheiros. São poucos: são seis banheiros apenas para um universo de 2.000 trabalhadores, só seis banheiros, seis banheiros.”
O dirigente diz ainda que há relatos de adoecimento por falta de higiene. “Hoje um trabalhador fez a denúncia que um colega dele lá do trabalho faltou hoje porque ficou em casa com febre, porque a água do banheiro, ou seja, a sujeira do banheiro, tocou nele na hora que ele foi fazer a necessidade e ele pegou uma infecção”, disse.
De acordo com o MLC, os problemas não se restringem aos sanitários. Aroldo afirma que faltam vestiários adequados para banho ao fim da jornada, que o canteiro tem excesso de poeira e que o refeitório não comporta a totalidade dos empregados, deixando parte dos trabalhadores almoçando em áreas improvisadas. No quesito de remuneração, o movimento sustenta que há atrasos em salários e cestas básicas e que algumas funções estariam sendo pagas abaixo do piso da categoria, como menciona a carta.
Um dos trabalhadores ouvidos, Marcus Vinicius Ferreira Santana dos Santos, é empregado em uma das terceirizadas que atuam no complexo. Ele conta que passou um período na área da fábrica e, há cerca de um mês e meio, foi transferido para a região dos dormitórios, onde trabalha como ajudante de pedreiro.
Segundo Marcus, o cenário que encontrou na fábrica foi de precariedade. “A situação da fábrica é muito precária”, afirma. Ele relata que o trajeto entre o canteiro de obras e o local de alimentação consumia boa parte do intervalo de almoço. “Era mais ou menos quase uma hora de relógio”, diz. Ele lembra ainda que muitos trabalhadores acabavam comendo às pressas, em locais improvisados, sem cadeiras suficientes nem área adequada de vivência.
Ele conta que sente falta de mão de obra suficiente para atender à demanda diária. “Eu mesmo estou lá e vou fazer quatro meses de empresa. […] São dez ajudantes para atender 400 peão [sic], né? É tipo um trabalho escravo, né?”, afirma.
Marcus diz ainda que foi contratado para uma função e acabou assumindo outra, mais pesada do que esperava. “Entrei como ajudante comum, estava com os carpinteiros, agora saí dos carpinteiros e estou nos pedreiros ajudando, carregando peso. Tem dia que chego em casa com a coluna super dolorida”, relata.
Funcionários fazem fila para bater ponto em horário de almoço | Foto: Divulgação/MLC
As críticas também se estendem às condições de acesso à água potável. “Eu nunca bebi uma água gelada. Sempre a água era morna ou quente. Sempre. Pela quantidade de peão [sic], eles traziam aqueles garrafões de 5 litros e enchiam o bebedouro. O bebedouro ficava na tomada o dia todo, mas a água sempre quente. Imagina, a gente embaixo de um sol quente, pesado, e bebendo água quente”, diz.
Ele relata que, com a entrada de uma nova empreiteira, foi deslocado para o dormitório, onde, segundo conta, os problemas continuam. “No dormitório a gente estava passando pela mesma situação, ou pior. Lá eu ainda tinha a sorte de poder trabalhar com um carpinteiro. Agora, eu estou num dormitório, trabalhando como ajudante de pedreiro. […] Não foi isso que eles falaram comigo no início, quando eu entrei”, afirma.
No dormitório, Marcus também aponta falhas de infraestrutura. “Tem uma geladeira para você botar 300, 400 marmitas… [O aparelho] Não suporta. A geladeira é pequena. Micro-ondas também é muito pouca quantidade. São oito micro-ondas. É muito pião [sic]. É muito desorganizado”, relata.
Ele diz ainda ter presenciado situações em que funcionários trabalhavam em locais altos sem equipamentos de proteção suficientes. Segundo ele, “o funcionário fica na laje sem cinto” e o uso de proteção seria fiscalizado apenas de forma pontual, pouco antes do início das atividades.
Outro trabalhador ouvido pela reportagem, Ramon Marques, que atua na empreiteira Falcão, reforça as queixas sobre estrutura básica. Ele afirma que os empregados convivem com “banheiros químicos sujos e deteriorados” e relata problemas recorrentes no acesso à água. Segundo Ramon, sol quente e falta de água marcavam a rotina no canteiro. “O bebedouro tinha água quente, sem poder dar tempo de gelar, porque a demanda era muito grande. [Era] um bebedouro para cada 100 pessoas”.
O custo do transporte até a fábrica também aparece como uma dificuldade. Ele afirma que o valor pago pela empresa não cobre o deslocamento diário. “A gente está colocando [dinheiro] do nosso bolso pra pagar a condução. A empresa dá R$ 400 e a gente que se vire”. De acordo com o relato, “a gente está gastando 600 para chegar até a empresa”.
Na avaliação de Ramon, o salário baixo agrava a sensação de injustiça. “O salário dos ajudantes é por volta de R$ 1.500, e descontando às vezes a passagem. Então, o cara está tirando praticamente da boca da família para estar gastando com a empresa, sendo que a empresa tem condição de pagar uma passagem digna”.
Polícia Militar foi acionada para dispersar manifestantes | Foto: Isabella Tanajura
Trabalho análogo à escravidão
As queixas atuais se somam a um histórico recente pesado. Em dezembro de 2024, uma operação de fiscalização móvel comandada pelo MTE e pelo MPT encontrou trabalhadores chineses em alojamentos superlotados, com camas sem colchões, sem armários e com pertences pessoais misturados a alimentos e ferramentas. Relatórios oficiais apontam banheiros insuficientes e precários: em um dos alojamentos, havia apenas um banheiro para 31 pessoas, o que obrigava os operários a acordar antes das 4h da manhã para enfrentar filas.
Além disso, reportagens nacionais e internacionais relatam que os trabalhadores tinham passaportes retidos, parte do salário confiscado, jornadas extensas sem descanso semanal garantido e restrição de saída dos alojamentos, quadro que levou as autoridades a enquadrar o caso como trabalho em condição análoga à escravidão e possível tráfico internacional de pessoas.
Após o flagrante, a obra foi parcialmente interditada e os 163 trabalhadores resgatados foram levados para hotéis na região, com a promessa de que teriam garantidos o retorno à China e os direitos trabalhistas básicos. Poucos dias depois, o governo federal, por meio do Ministério das Relações Exteriores e a pedido do Ministério da Justiça, anunciou a suspensão da emissão de novos vistos de trabalho temporário vinculados ao empreendimento da BYD, como medida adotada em meio às investigações sobre tráfico de pessoas.
Alojamento de funcionários da Jinjiang, resgatados em 2024 | Foto: Reprodução/MPT
As consequências administrativas e judiciais do caso se desdobraram ao longo de 2025. Em junho, o Ministério do Trabalho divulgou que autuou a BYD pelo caso em mais de 60 autos de infração, que podem resultar em multas milionárias. O órgão concluiu que, apesar de formalmente contratados pela empreiteira JinJiang, os operários mantinham relação de emprego direta com a montadora, com subordinação estrutural aos gestores da BYD.
No campo judicial, o MPT ajuizou em maio de 2025 uma ação civil pública pedindo R$ 257 milhões em indenizações por danos morais coletivos e individuais, além de medidas para impedir a repetição das violações. A ação é dirigida contra a BYD Auto do Brasil e as empresas JinJiang Construction e Tecmonta Equipamentos Inteligentes. Segundo a petição inicial, autoridades identificaram um esquema de tráfico internacional de pessoas com recrutamento na China, promessas salariais não cumpridas, contratos pouco transparentes, retenção de passaportes e alojamentos degradantes. O processo segue em tramitação na Justiça do Trabalho.
Desde o início da crise, a BYD tem buscado, em notas públicas, se distanciar das denúncias. Em comunicado divulgado em dezembro de 2024, a empresa anunciou a rescisão imediata do contrato com a JinJiang, afirmou ter determinado a transferência dos 163 trabalhadores para hotéis da região e declarou que não tolera violações às leis trabalhistas brasileiras ou aos direitos humanos. Em junho de 2025, ao ser autuada pelo Ministério do Trabalho, a montadora afirmou que discorda da decisão do governo, que vai contestar os autos de infração e que reafirma “compromisso inegociável com os direitos humanos e trabalhistas, com respeito incessante à legislação brasileira”. Em declarações internacionais, executivos da BYD chegaram a classificar parte das acusações como fruto de traduções confusas e esforços de forças externas para prejudicar a imagem da empresa e de marcas chinesas. A montadora afirma colaborar com as autoridades e sustenta ter reforçado a supervisão sobre terceirizadas e condições de alojamento, embora conteste a caracterização de suas práticas como trabalho escravo.
Se em 2024 o foco estava nos trabalhadores chineses da empreiteira JinJiang, agora as denúncias se concentram em brasileiros contratados por seis empresas de construção e montagem que atuam no mesmo complexo industrial. De um lado, movimentos como o MLC e a Unidade Popular pelo Socialismo dizem que, mesmo após o escândalo do ano passado e as autuações de 2025, problemas básicos persistem: banheiros insuficientes, falta de limpeza, ausência de vestiários, refeitórios lotados, atrasos salariais e gasto elevado com deslocamento até o trabalho.
De outro, o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Montagem e Manutenção Industrial de Camaçari e Região (SINDTICCC), Antônio Ubirajara Santos Souza, o Bira, afirma que a paralisação de 2 de dezembro não foi convocada pelo sindicato e a classifica como uma ação política de movimentos externos. “É uma greve ilegal, abusiva e viciada, na verdade, porque eles estão pedindo é Pix, é dinheiro para arrecadação, que compre o jornal dele para bancar o candidato dele futuramente na eleição que vem, eu acho”, afirmou, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Um ano após o resgate dos primeiros trabalhadores chineses e às vésperas de a fábrica entrar em operação plena, o caso da BYD em Camaçari continua a expor um paradoxo: um dos principais símbolos da nova indústria verde no Brasil ainda está cercado por denúncias de velhas formas de exploração.
Os processos administrativos e judiciais em curso podem resultar em multas pesadas e obrigações adicionais para a empresa. Ao mesmo tempo, o complexo segue recebendo investimentos bilionários e é tratado por governos federal e estadual como vitrine de reindustrialização e da transição energética.
Procurada pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, a montadora BYD rechaçou a reclamação. Afirmou ser falsa e a declaração de que há apenas “seis banheiros para dois mil trabalhadores” nas obras de expansão da fábrica de Camaçari-BA.
A montadora alega que, no canteiro de obras, “mesmo antes de qualquer manifestação, estavam instalados 230 banheiros (masculinos e femininos) espalhados por diferentes regiões para atender os trabalhadores e prestadores de serviços”.
A empresa afirma ainda que “os responsáveis pelas manifestações fazem parte de um movimento político e não uma entidade sindical”. A BYD garante que as manifestações não causaram paralisação das atividades. A montadora chinesa ainda informou que as manifestações, ocorridas do lado externo da planta industrial, duraram poucos dias e contaram com a adesão de parte dos trabalhadores de apenas duas entre as nove empresas terceirizadas que prestam serviços no local. E que pontos de melhoria levantados pelos trabalhadores já foram atendidos.
A BYD também considera que o Movimento Luta de Classes, que liderou as manifestações, é uma organização política e não uma entidade sindical, portanto sem legitimidade. Por fim, a empresa informa que está em contato permanente com as empresas prestadoras de serviços, sempre com o objetivo de fiscalizar e contribuir para melhorias que possibilitem o bem-estar dos colaboradores que atuam nas obras.
As empresas Terra Construções, Falcão, Valtec, Engenova, Dongil e Segprime também foram contatadas, mas não se manifestaram até o momento. O espaço segue aberto.
Jornalista formada pela Universidade Mackenzie e pós-graduada em economia no Insper. Tem passagem pela Climatempo, CNN Brasil, PicPay e Revista Oeste. É redatora de finanças no Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Eleita uma das 50 jornalistas +Admiradas da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças de 2024.
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