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Como a expansão de US$ 50 bilhões da Micron está transformando sua cidade natal
Publicado 20/08/2026 • 10:30 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 20/08/2026 • 10:30 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
Boom da inteligência artificial impulsiona a Micron e transforma Boise, mas também eleva custos de moradia, trânsito e desigualdade.
Dave Petso trabalha como gestor de patrimônio em Boise, Idaho, desde os anos 1980. Seu negócio sobreviveu a diversas recessões, ao estouro da bolha das empresas ponto.com e à crise financeira de 2008.
Durante a maior parte dos 45 anos de carreira de Petso, a Micron Technology, fabricante de memórias para computadores com sede na cidade, foi uma empresa de tecnologia pouco movimentada e, nas palavras dele, um “péssimo investimento”.
Mas, quase quatro anos após o início da febre da inteligência artificial, a discreta empresa de semicondutores se tornou uma das companhias mais valorizadas do mundo, transformando muitos dos clientes de Petso em milionários de uma hora para outra.
Uma parte importante do trabalho de Petso passou a ser ajudar funcionários da Micron a diversificar seus investimentos depois que uma alta de mais de dez vezes nas ações desde o fim de 2024 levou o valor de mercado da empresa a ultrapassar US$ 1 trilhão.
“Agora você tem uma enorme quantidade de dinheiro, e está tudo concentrado em uma única empresa”, disse Petso em entrevista. Antes, os clientes tentavam decidir o que fazer com cerca de US$ 20 mil em ações. “Agora estamos falando de centenas de milhares ou milhões de dólares”, afirmou.
Em Boise, cidade do oeste dos Estados Unidos com cerca de 250 mil habitantes, conhecida principalmente pelas atividades ao ar livre e pelo campo de futebol americano de gramado azul da Boise State University, o boom da Micron aparece na forma de crescimento do emprego, novos projetos de construção, uma cena gastronômica movimentada e a chegada de novos moradores.
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A Micron iniciou a construção de duas novas fábricas de chips, que devem criar mais de 17 mil novos empregos na região. Desse total, 3.500 serão na própria Micron, que atualmente emprega cerca de 7 mil pessoas em Boise e nos arredores.
A rápida expansão da cidade, porém, também traz uma série de incômodos. Moradores reclamam de congestionamentos frequentes nas ruas e na Interstate 84, do aumento dos custos de moradia e da chegada de pessoas da Califórnia e de outras regiões, que estão alterando a cultura e a paisagem locais.
Os preços médios dos aluguéis em Boise subiram 4,3% no último ano, enquanto os valores médios em todo o país recuaram, segundo a Zillow.
“Uma das vantagens competitivas de Boise era nosso baixo custo de vida”, disse Jason Crawforth, morador de longa data da cidade que constrói empresas de tecnologia na região há quase 35 anos. Crawforth afirmou que, embora seu patrimônio esteja crescendo graças a um investimento na Micron, “há uma grande parcela da nossa comunidade que não está se beneficiando diretamente disso”.
A CNBC conversou com moradores, empresários, agentes imobiliários e outras pessoas da região de Boise sobre o recente boom, seu impacto na cidade e o que ainda pode acontecer à medida que a Micron avança com um plano de expansão de US$ 50 bilhões.
O retrato coletivo é de uma cidade que se tornou uma vencedora inesperada da expansão global da inteligência artificial e que tenta preservar sua identidade sem se tornar excessivamente dependente de uma tecnologia marcada historicamente por ciclos de forte crescimento e quedas.
Embora a trajetória das ações ainda aponte para cima, os papéis da Micron despencaram 29% em julho, no pior mês desde 2002. Os acionistas esperam que tenha sido apenas uma correção pontual, e não um sinal do que está por vir. Em agosto, até agora, as ações acumulam alta de 14%.
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A Micron faz parte da estrutura econômica de Boise, ao lado de outras empresas e nomes tradicionais da região, como a rede de supermercados Albertsons e o império de batatas de J.R. Simplot, que foi um dos primeiros investidores da Micron.
Hoje, a fabricante de memórias está entre os maiores empregadores do condado de Ada, atrás apenas da Boise State University e do sistema de saúde da região.
“É algo com que sempre convivemos, mas, é claro, recentemente, considerando que Boise, Idaho, é um mercado muito pequeno, provavelmente se tornou uma das maiores histórias de sucesso que já tivemos”, disse JT Belnap, fundador da Treasure Valley Financial Planning, empresa que hoje se dedica quase exclusivamente à gestão do patrimônio de funcionários da Micron.
Belnap afirmou à CNBC que os telefones de sua empresa “continuam tocando”, com pedidos de funcionários da Micron próximos da aposentadoria.
Com a valorização das ações, alguns estão antecipando a saída do mercado de trabalho de três ou quatro anos para um ou dois, disse Belnap. Para aproveitar benefícios fiscais, outros estão doando ações para instituições de caridade. E muitos estão realizando parte dos lucros para comprar algo que sempre desejaram, como um dos clientes de Belnap, que recentemente comprou um caminhão de US$ 80 mil que queria havia anos.
“O que aprendi fazendo planejamento financeiro por tanto tempo é que, quando alguém conquista uma riqueza significativa de forma repentina, é preciso permitir que essa pessoa se divirta um pouco”, disse Belnap.
A cerca de 14,5 quilômetros a leste do escritório de Belnap, um tipo muito diferente de negócio está percebendo uma tendência semelhante.
Lisa Zimowsky, proprietária da joalheria The Diamond Girls, afirmou que suas vendas cresceram 60% no ano.
“Sei de várias pessoas que venderam parte das ações e compraram conosco”, disse Zimowsky. “Normalmente são pessoas que receberam um bônus trimestral quando a ação estava em US$ 150”, ou menos de um sexto do preço atual.
“A economia de Boise está muito forte”, acrescentou Zimowsky. “Acho que a Micron tem sido uma grande parte disso.”
Há também o mercado imobiliário.
Sheila Smith, corretora de imóveis da região, afirmou que tem visto mais potenciais compradores e menos imóveis disponíveis na parte sudeste da cidade, próxima à sede da Micron. Segundo ela, há tanta construção que alguns prestadores de serviços da Micron envolvidos nas novas fábricas estão comprando imóveis.
“Normalmente, quando alguém sabe que ficará aqui temporariamente, em um trabalho intermediário, como os engenheiros, não procura comprar”, disse Smith em entrevista. “Eles estão vindo para cá e estão comprando.”
O corretor de hipotecas Gerald Robinson afirmou que, ao longo de aproximadamente um mês, conversou com quatro clientes da Micron interessados em comprar imóveis.
“Estamos vendo muitas opções de ações sendo exercidas agora, e as pessoas [estão] comprando”, disse Robinson, CEO da 1st Choice Mortgage.
Um dos dois clientes que acabaram comprando uma casa fez isso como investimento para administrar um imóvel no estilo Airbnb, disse Robinson. A outra era uma compradora de primeira viagem, com pouco mais de 20 anos.
Dois dos potenciais compradores acabaram não precisando da ajuda de Robinson, pois optaram por vender ações e comprar imóveis à vista, afirmou.
A Micron disse à CNBC que a oferta de ações é uma parte importante da estratégia da empresa para recrutar e reter talentos. Nos três primeiros trimestres deste ano fiscal, a companhia registrou US$ 954 milhões em remuneração baseada em ações, mais que o dobro do valor de três anos atrás.
“Nós realmente apostamos muito nas concessões de ações”, disse April Arnzen, diretora de recursos humanos da Micron e natural de Idaho, que trabalha na empresa há 27 anos. “Queremos que nossos funcionários sejam donos da empresa e compartilhem seu sucesso.”
Não foram apenas os funcionários que aproveitaram o movimento.
Como integrante de longa data da comunidade de tecnologia de Boise, Crawforth comprou ações da Micron quando elas eram negociadas por cerca de US$ 16 cada e afirmou que ainda possui mais de 1.500 ações. A participação vale hoje mais de US$ 1,4 milhão.
Mas a valorização provocou um desequilíbrio inesperado na família.
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Siga o Times | CNBC“Cometi um erro: comprei algumas ações para minha sobrinha, mas não para meu sobrinho”, disse Crawforth. “De repente, o investimento da minha sobrinha, que deveria ajudá-la a dar entrada em uma casa quando tivesse idade suficiente, ficou significativamente maior do que o do meu sobrinho.”
Crawforth disse que enfrenta um “dilema moral” ao tentar descobrir “como resolver essa situação”.
Sua companheira também comprou ações, mas por um preço mais alto, e conseguiu quitar parte de uma dívida do carro depois de vender recentemente sua posição por cerca de US$ 1.200 por ação.
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Com tanta riqueza nova e a demanda por imóveis crescendo, aumenta a preocupação de que Boise esteja se tornando inacessível para quem não se beneficiou do efeito Micron.
Os preços medianos de venda de imóveis em Boise subiram 2,9% nos 12 meses até junho, em comparação com um aumento médio de 1,2% em todo o país, segundo a Redfin.
“Agora estamos vendo as pessoas de renda mais baixa sendo cada vez mais excluídas, porque os salários podem não estar acompanhando os preços das casas”, disse Robinson.
O condado de Ada cresceu cerca de 19% desde 2020, acrescentando quase 95 mil habitantes, segundo estimativas da Compass Idaho. Em todo o estado, Idaho apresenta o crescimento populacional mais rápido dos Estados Unidos em um período semelhante.
Moradores da Califórnia, Washington e Oregon migraram em massa para a região, atraídos pelo custo de vida mais baixo de Boise, pelos invernos relativamente amenos e pela forte oferta de atividades ao ar livre.
As mudanças demográficas são perceptíveis, disse Zimowsky.
“Cinco anos atrás, ninguém tinha bolsa de grife aqui, ninguém se importava, ninguém sequer sabia o que era Louis Vuitton”, afirmou. “Agora todo mundo está carregando uma.”
Para os amantes da gastronomia e de shows, o crescimento de Boise elevou o nível da cidade. O Albertsons Stadium, da Boise State, conhecido pelo icônico gramado azul, recebeu apresentações de Post Malone e Jelly Roll no ano passado, enquanto Jason Aldean e Alabama Shakes passaram recentemente pela cidade.
“As opções disponíveis aqui mudaram muito”, disse Clark Krause, diretor-executivo da Boise Valley Economic Partnership. Agora, os moradores têm “acesso a coisas que alguém que vive em uma cidade grande gostaria de aproveitar”.
Muito antes de se tornar o primeiro chef de Idaho a ganhar um prêmio James Beard, Kris Komori decidiu que Boise era o lugar onde queria criar sua família, que estava crescendo.
Quando se mudou de Portland, Oregon, para Boise, em 2013, havia poucos hotéis e edifícios altos espalhados pela paisagem, e a cena gastronômica era muito mais tranquila.
“Todo mundo dizia: ‘O que você vai fazer em Idaho?’”, contou Komori, coproprietário e chef-executivo do KIN Boise, localizado no centro da cidade.
Agora, “não dá para andar um quarteirão sem encontrar algum tipo de obra acontecendo”.
O KIN Boise, onde um menu sazonal prix fixe custa US$ 130 por pessoa, é um dos principais destinos gastronômicos da cidade e um ponto frequentado por funcionários da Micron, especialmente quando recebem clientes, segundo Komori.
“Eles nos frequentam muito mais agora”, disse. “Isso é um elogio para nós, porque eles querem meio que mostrar Boise, e estamos na lista para isso.”
Komori afirmou que, todos os meses, mais restaurantes — pequenos negócios e grandes redes — estão abrindo no centro da cidade, e que ele também tem visto cada vez mais estabelecimentos surgirem fora da região central.
Petso, que se mudou para Boise em 1980, quando a cidade tinha cerca de um terço da população atual, disse que aprecia a vitalidade, apesar de algumas consequências negativas.
“É muito caro sair para jantar, mas os restaurantes estão todos lotados”, disse Petso. “Você simplesmente caminha pelo centro de Boise e pensa: ‘Isso é incrível’.”
A Micron está ciente da pressão provocada por uma expansão tão rápida, que deve aumentar ainda mais com os milhares de novos funcionários que a empresa planeja contratar.
“Quando você está aumentando o número de pessoas dessa forma em um curto período, certamente surgem desafios, como transporte e moradia”, disse Arnzen. Ela acrescentou que a empresa tem trabalhado em parceria com o estado, o condado e em nível local para encontrar soluções e “garantir que estejamos um passo à frente”.
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Arnzen afirmou que a empresa assumiu compromissos relacionados à moradia e está avaliando “diversas oportunidades de investimento em infraestrutura viária”.
A companhia também construiu um centro de cuidados infantis para funcionários em parceria com a YMCA e planeja investir US$ 75 milhões em força de trabalho, educação e desenvolvimento comunitário em todo o estado na próxima década.
Além disso, a Micron mantém um programa de tecnologia para estudantes do ensino fundamental II, uma fábrica de treinamento patrocinada pela empresa na Boise State e um programa de aprendizagem no College of Western Idaho, na vizinha Nampa.
“Há pelo menos cinco edifícios com o nome Micron nesses dois campi”, disse Arnzen. “A Micron investe nessas instituições de ensino há anos e, é claro, não vamos parar. Precisamos de mais talentos.”
Para além da expansão das obras, dos congestionamentos na I-84 e das iniciativas comunitárias da Micron, cresce a preocupação com a sustentabilidade do boom do mercado de memórias.
Crawforth teve uma amostra do risco quando as ações caíram em julho.
“Provavelmente são US$ 600 mil do meu patrimônio pessoal que vi desaparecer”, disse Crawforth, referindo-se à queda das ações no mês passado. Ele rapidamente observou que, em um período de três meses, os papéis haviam subido 50%, portanto “ainda é uma vitória”.
Para Petso, o momento tem paralelos claros com a última vez em que milionários da Micron começaram a aparecer em seu escritório.
Era a bolha das empresas ponto.com, em 1999, quando a euforia com as empresas de tecnologia estava em toda parte. As ações da Micron subiram mais de 50% naquele ano, depois de quase dobrarem no ano anterior.
Alguns dos clientes de Petso se recusaram a vender sequer uma parte de suas participações. As ações perderam três quartos de seu valor nos três anos seguintes, em uma queda que, segundo Petso, deixou “cicatrizes profundas” em todos os envolvidos.
Foi uma lição dolorosa — e uma que ele prefere que sua atual base de clientes não precise aprender da mesma maneira.
“Tentar convencer as pessoas a reduzir suas posições e sair é realmente o que estamos discutindo agora”, disse Petso. “Vocês estão indo muito bem, mas eu estou nisso há muito tempo. Vocês também estavam indo muito bem em 1999.”
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Este conteúdo foi fornecido pela CNBC Internacional e a responsabilidade exclusiva pela tradução para o português é do Times Brasil.
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