CNBC
Marinheiros acompanham o pouso de um caça F/A-18F Super Hornet no convés do porta-aviões USS Abraham Lincoln, no Mar da Arábia.

CNBCAlto comandante dos EUA reconhece problemas de saúde mental no USS Lincoln

Notícias do Brasil

Recuperações judiciais em série escancaram a crise estrutural do varejo de eletrodomésticos

Publicado 17/08/2026 • 10:30 | Atualizado há 17 minutos

KEY POINTS

  • Marabraz e Casas Bahia recorreram a mecanismos de proteção contra credores para reorganizar finanças e preservar operações.
  • Movimento ocorre em um setor pressionado por juros elevados, dificuldade de acesso a crédito, redução do consumo e problemas de capital de giro.
  • De acordo com com as Casas Bahia, dívida ultrapassa os R$ 17 bilhões.

A piora das condições financeiras voltou a atingir grandes nomes do varejo brasileiro. Em um curto intervalo de tempo, Marabraz e Casas Bahia recorreram a mecanismos de proteção contra credores para tentar reorganizar suas finanças e preservar as operações.

O movimento ocorre em um setor pressionado por juros elevados, dificuldade de acesso a crédito, redução do consumo e problemas de capital de giro.

A Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, com dívidas de R$ 140,2 milhões. No dia seguinte, a Casas Bahia apresentou pedido semelhante, mas em uma escala muito maior: o passivo informado pela companhia chega a R$ 17,3 bilhões.

Os dois casos têm características diferentes. Na Marabraz, o grupo relaciona o agravamento da crise à ruptura de uma estrutura familiar e patrimonial que historicamente ajudava a sustentar suas operações de crédito. Na Casas Bahia, a empresa chega à recuperação judicial depois de sucessivos prejuízos, redução de estoques, dificuldades para obter financiamento e um forte impacto no balanço.

“O que une esses casos não é queda de venda, é custo de dinheiro, e os balanços mostram isso de forma quase didática. A Marabraz pediu recuperação num segmento que cresceu 7,5% em doze meses, porque perdeu o controle dos imóveis que davam garantia às linhas de crédito. A Casas Bahia teve receita subindo 1,6%, gerou 798 milhões de caixa livre e reduziu 3,8 bilhões de dívida líquida em um ano, e ainda assim fechou 298 lojas, quase 29% da rede, com patrimônio líquido negativo de 8,3 bilhões”, explicou Matheus Matos, sócio da MA7 Capital.

Leia também: Casas Bahia pede recuperação judicial com agravamento da crise financeira e dívida de R$ 17,3 bilhões

Boom de consumo não sustentou crescimento

Após um momento de euforia no começo do terceiro governo do presidente Luiz Inácio lula da Silva, as redes de varejo estão recebendo a conta das políticas expansionistas, que serviram para incentivar o consumo doméstico nas compras de eletrodomésticos como geladeiras, máquinas de lavar a televisões.

“Toda essa expansão do crédito trouxe sim uma melhora, trouxe um ânimo no primeiro na primeira parte [do governo]. Só que a realidade na economia sempre impera. O reflexo está hoje. O que que a gente vê? As maiores varejistas do Brasil quebradas com hiperalavancagem, endividadas, demitindo, fechando e entrando em recuperação judicial. A gente tem que culpar lá atrás, quando incentivaram o crédito irresponsável subsidiado pelo governo. Hoje a conta chegou”, ponderou Felipe Sant’Anna. especialista em investimentos do grupo Axia Investing.

Leia também: EXCLUSIVO: Marabraz pede recuperação judicial para reestruturar dívidas de R$ 140 milhões

Marabraz aponta perda de acesso a crédito

O pedido apresentado pela Marabraz reúne cinco empresas ligadas à operação e tramita na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Segundo a petição, o passivo sujeito à recuperação soma R$ 140,188 milhões.

O grupo sustenta que a dificuldade é principalmente financeira e de liquidez. A avaliação apresentada à Justiça é de que o negócio continua operacional, mas passou a ter problemas para obter recursos destinados ao financiamento do dia a dia, especialmente para capital de giro.

Durante décadas, segundo a empresa, imóveis comerciais, centros de distribuição e outros ativos pertencentes à holding patrimonial da família eram utilizados como garantias ou reforços em operações financeiras. Embora esses bens não estivessem diretamente no patrimônio das empresas operacionais, ajudavam a viabilizar crédito.

A companhia afirma que conflitos familiares e societários alteraram essa estrutura. A partir daí, bancos teriam passado a exigir novas garantias, reduzir limites, aumentar custos ou deixar de renovar determinadas linhas de financiamento.

Para a Marabraz, a redução do crédito agravou a falta de liquidez e criou dificuldades adicionais para manter o funcionamento da operação.

“Com a Selic em 14% por tempo prolongado, o juro come o ganho operacional antes de ele virar lucro, e no varejo de duráveis o aperto vem pelas duas pontas, porque encarece a dívida da empresa e ao mesmo tempo tira do cliente a capacidade de parcelar. O relatório da própria Casas Bahia cita o Banco Central mostrando que o serviço da dívida já compromete perto de 30% da renda das famílias. Por isso o que separa quem sobrevive de quem não sobrevive hoje não é vender mais, é o perfil de vencimento da dívida e o acesso a garantia”, afirmou Matos.

Pedido envolve cinco empresas

A recuperação judicial engloba Comercial de Móveis Jordanésia, S.V.C. Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis Prestadora de Serviços.

A defesa argumenta que as empresas possuem controle comum e, em grande parte, os mesmos sócios. A petição também cita mais de mil reclamações trabalhistas envolvendo mais de uma das sociedades como um dos motivos para que o processo seja conduzido de forma conjunta.

Uma das empresas incluídas no pedido, a Jordanésia, já havia tido a falência decretada em outro processo. A decisão, contudo, está suspensa por determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo.

A Marabraz também pediu medidas urgentes para evitar bloqueios de recursos e cobranças durante o período de proteção previsto na recuperação judicial. Entre os pedidos estão a continuidade de serviços essenciais, como energia, água, telefonia e sistemas de pagamento, além da preservação dos contratos relacionados aos imóveis utilizados pelas empresas.

O grupo informou ainda que não conseguiu apresentar inicialmente toda a documentação contábil exigida para o processo porque houve interrupção dos serviços da empresa responsável pelo sistema de registros financeiros. Relatórios gerenciais foram anexados ao pedido, enquanto a documentação oficial deverá ser apresentada posteriormente.

Casas Bahia chega à recuperação com dívida de R$ 17,3 bilhões

A situação da Casas Bahia é mais abrangente. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial na noite de domingo, na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, declarando passivos de R$ 17,3 bilhões e 19,4 mil credores quirografários, aqueles que não contam com garantias específicas.

A medida já era considerada provável depois que a empresa alertou, no mesmo dia, para uma incerteza relevante sobre sua continuidade operacional. O relatório financeiro também mencionava a possibilidade de adoção de uma recuperação judicial ou de uma nova negociação extrajudicial com credores.

Times Brasil - CNBC

Siga o Times | CNBC no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo.

Siga o Times | CNBC

A companhia vinha acumulando resultados negativos. Desde 2024, os balanços trimestrais permaneceram no vermelho, em um histórico que inclui 20 trimestres de prejuízo entre os 30 períodos posteriores à saída do controle do GPA, em 2019.

A dificuldade para obter crédito ganhou peso nos últimos meses. Segundo informações apresentadas pela companhia e avaliações de agentes do mercado, a menor disponibilidade de financiamento para compra de mercadorias afetou os estoques e, consequentemente, a oferta de produtos nas lojas.

Leia também: Marabraz diz que manterá operação, empregos e que recuperação judicial servirá para reestruturar empresa

Prejuízo bilionário agrava situação

No segundo trimestre, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, contra uma perda de R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior.

Grande parte desse resultado, porém, não veio diretamente das vendas. O balanço incorporou uma série de ajustes, incluindo baixas de ativos e créditos tributários, custos de reestruturação, contingências e efeitos relacionados ao fechamento de 298 lojas.

Eventos considerados não recorrentes responderam por aproximadamente R$ 9,1 bilhões do impacto no resultado do período.

Ainda assim, os números operacionais também mostraram pressão. A receita das lojas caiu 3,2% entre abril e junho, enquanto os estoques recuaram mais de R$ 1,1 bilhão em três meses.

A redução da disponibilidade de produtos afetou a capacidade de venda da rede em um momento em que a empresa já enfrentava restrições de financiamento. O problema se estendeu ao mercado de dívida e de ações, dificultando a obtenção de novos recursos.

A situação financeira também aparece no balanço. No primeiro semestre, a companhia acumulou prejuízo de R$ 11,18 bilhões. O passivo circulante superava os ativos de curto prazo em R$ 11,97 bilhões no resultado individual e em R$ 7,83 bilhões no consolidado. O patrimônio líquido, que era positivo em R$ 1,5 bilhão um ano antes, passou a negativo em R$ 8,27 bilhões.

A auditoria da EY não emitiu opinião sobre as demonstrações financeiras do trimestre. No relatório, os auditores apontaram que não foi possível concluir sobre a utilização da premissa de continuidade operacional nem avaliar integralmente eventuais ajustes necessários nos números apresentados.

Crédito e estoque no centro da crise

A trajetória recente da Casas Bahia mostra como a restrição de crédito pode afetar uma varejista mesmo depois de uma redução relevante do endividamento.

A empresa havia passado por uma recuperação extrajudicial dois anos atrás e chegou a 2026 com uma estrutura de dívida mais alongada. O problema voltou a se concentrar no capital de giro.

A indústria e seguradoras que participam do financiamento das vendas a grandes varejistas teriam reduzido a exposição à companhia diante da percepção de risco. Com menos crédito para adquirir produtos, a rede reduziu estoques, perdeu disponibilidade de mercadorias e registrou queda nas vendas.

O cenário foi agravado por um histórico de resultados negativos e por mudanças realizadas na estrutura da companhia desde a saída do controle do GPA. Michael Klein, que participou da mudança de controle, atualmente é acionista minoritário.

A empresa, por sua vez, também atribuiu parte da deterioração a fatores externos e às condições macroeconômicas. O ambiente de juros altos, consumo mais fraco e maior seletividade do mercado de crédito contribuiu para aumentar a pressão sobre o caixa.

Leia também: Casas Bahia planeja cortar 30% do quadro e fechar mais lojas

GPA segue por uma rota diferente

O Grupo Pão de Açúcar (GPA) também enfrenta uma situação financeira delicada, mas adotou uma estratégia diferente das duas varejistas.

Em vez de recuperação judicial, o grupo recorreu a uma recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,57 bilhões em dívidas. O mecanismo permite que a companhia mantenha as operações enquanto estrutura um acordo com os credores, sem submeter toda a negociação ao processo judicial tradicional de recuperação.

A Justiça de São Paulo aceitou o plano em março. Posteriormente, o GPA informou ter concluído a renegociação com os credores, com adesão equivalente a 57,49% dos créditos abrangidos.

O acordo prevê redução superior a 50% das obrigações incluídas no plano ao longo do período de pagamento e aumento do prazo médio da dívida para 6,4 anos. Também está previsto um novo financiamento de até R$ 200 milhões e a reestruturação de até R$ 1,1 bilhão em debêntures conversíveis.

O grupo acumulava cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas e registrou prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões no quarto trimestre de 2025. No fim daquele ano, a companhia também enfrentava déficit e pressão sobre obrigações com vencimento próximo.

A crise do GPA vem sendo associada a uma combinação de fatores, como inflação de alimentos, juros elevados, redução do consumo, custos de reestruturação e fechamento de unidades com baixo desempenho.

📌 ONDE ASSISTIR AO MAIOR CANAL DE NEGÓCIOS DO MUNDO NO BRASIL:


🔷 Canal 562 ClaroTV+ | Canal 562 Sky | Canal 592 Vivo | Canal 187 Oi | Operadoras regionais

🔷 TV SINAL ABERTO: parabólicas canal 562

🔷 ONLINE: www.timesbrasil.com.br | YouTube

🔷 FAST Channels: Samsung TV Plus, LG Channels, TCL Channels, Pluto TV, Roku, Soul TV, Zapping | Novos Streamings

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Notícias do Brasil