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Operação coordenada conecta Vorcaro e Tanure para inflar artificialmente ações da Ambipar

Publicado 08/06/2026 • 11:59 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Ambipar teve ações compradas por fundos do ecossistema Master em operação coordenada entre junho e agosto de 2024
  • Papéis da Ambipar subiram 883% no período e chegaram a R$ 268,5 milhões ao fim do ano
  • Operação envolvendo Vorcaro e Tanure é investigada pela CVM por suspeita de conduta irregular
Tanure Master

Fundos ligados ao ecossistema do Banco Master compraram ações da Ambipar em uma sequência coordenada entre junho e agosto de 2024, gerando uma valorização de 883% nos papéis da empresa controlada por Nelson Tanure.

A operação é investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e foi reconstituída pelo jornal Valor Econômico com base em entrevistas, documentos judiciais e registros na Junta Comercial de São Paulo.

Ao longo de três meses, os fundos Esna, Texas e Kyra, administrados pela Trust e geridos pela DTVM de Maurício Quadrado, gastaram aproximadamente R$ 754 milhões para comprar 25,1 milhões de ações da Ambipar. Os valores representaram 15,04% do capital da empresa.

Fundos e compradores por trás da operação

A compra se concentrou entre julho e agosto. O Esna e o Texas, ligados ao Master como cotistas, foram os que mais movimentaram recursos. O Kyra, por sua vez, adquiriu 10,82 milhões de ações só no dia 10 de julho, quando Tércio Borlenghi Júnior desembolsou R$ 147,5 milhões, ampliando sua fatia para 73,1% do fundo.

Tércio é sócio de Quadrado e figura como um dos personagens centrais da trama. Discreto, ele serve de ponte entre Vorcaro e Tanure. Os três se conhecem há décadas, segundo fontes ouvidas na apuração.

Valorização artificial sob investigação

A alta dos papéis da Ambipar chamou atenção do mercado e, depois, da CVM. Em meados de 2025, o colegiado da autarquia dispensou a companhia da necessidade de fazer uma oferta pública de aquisição dos papéis, decisão que teria sido deflagrada pelo aumento de participação secundária decorrente das aquisições.

O regulador, porém, abriu investigação separada sobre a conduta dos envolvidos. A suspeita é de gestão discricionária, conduzida com independência mas alinhada a interesses privados dos controladores dos fundos.

Ambipar como instrumento de relacionamento

Para a Ambipar, os efeitos foram visíveis. As ações, que acumulavam pressão de queda desde 2022 com mais de 40 aquisições mal digeridas pelo mercado, começaram a subir quando os primeiros lotes foram comprados. Ao fim de 2024, os papéis chegaram a R$ 268,5 milhões na Bolsa de Valores de São Paulo.

Tanure, como controlador, foi o principal beneficiado. A valorização abriu caminho para que ele utilizasse as ações como instrumento em outros negócios, incluindo combinações de ações e chamadas para pagamento. Além disso, a operação tornou os dois fundadores de empresas adquiridas pela Ambipar em acionistas da companhia.

Emae, Master e o fio condutor

A relação entre Tanure e Vorcaro não se limita às ações da Ambipar. O Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC apurou que os dois também estiveram conectados pela privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), arrematada por Tanure por cerca de R$ 1 bilhão em abril de 2024, e pela compra de CDBs do Master pela Emae logo após a aquisição.

Tanure havia financiado a compra da Emae com recursos do Brightlight Fund, veículo do grupo Phoenix, que tem estrutura de cotas seniores e subordinadas. A Esna, por sua vez, financiou-se no Master com CDBs. O dinheiro circulou entre as estruturas, segundo fontes ouvidas pelo Valor.

CVM e os próximos passos

A CVM não confirmou publicamente os detalhes da investigação. A autarquia tem prazo para concluir a análise e definir se houve conduta irregular. O controlador da Ambipar, segundo o Valor, emprestou recursos a Tércio e Quadrado, em total de quase R$ 900 milhões, passando a potencial credor das estruturas fiduciárias dos fundos.

Quadrado foi barrado pelo Banco Central em sua tentativa de assumir o controle do BluBank. O registro na CVM como gestor de fundos segue ativo.

Pítrix, Everest e a triangulação de recursos

Por trás das compras de ações da Ambipar, funcionava uma engrenagem de fundos que canalizava dinheiro do Master para os compradores. O FIDC Pítrix recebeu aproximadamente R$ 520 milhões em aportes, segundo documentação disponível na CVM. A história do Pítrix chegou ao fim em 30 de março deste ano, quando uma assembleia geral extraordinária decidiu liquidar o fundo.

A Everest entrou na estrutura como outra camada de financiamento. Em setembro de 2024, a holding familiar de Vorcaro tinha R$ 150 milhões aplicados em CDBs do Master. O Máximo Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado 2, ligado ao conglomerado de Vorcaro, aplicou R$ 708,4 milhões na holding da família de Tércio.

A Esna ficou com Tanure. O Kyra e o Texas foram transferidos pelo Master em uma troca de ativos realizada com o objetivo de substituir carteiras de recebíveis fraudulentos que haviam sido colhidas pela instituição financeira de Vorcaro ao Distrito Federal.

Times Brasil - CNBC

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Dearborn, Osaka e o beneficiário final

O Dearborn e o Osaka tinham Tércio Borlenghi como beneficiário final, aponta o Valor. Por meio da holding, o grupo tinha como principais títulos de crédito as emissões Lormont Participações, da Sabesp (R$ 708,3 milhões), e MDSV Participações, de Maurício e Denise Quadrado (cerca de R$ 300 milhões).

Em outras palavras, o controlador da Ambipar emprestou dinheiro para Tércio e Quadrado, em um total de quase R$ 900 milhões. Com isso, as obrigações fiduciárias das cotas do Master passaram a ser potencial credor, em última instância, dos dois empresários.

O dia em que Vorcaro ficou aborrecido

Daniel Vorcaro estava aborrecido na manhã de sábado (12) de julho de 2024. Logo cedo, lamentou em mensagens à então namorada, Martha Graeff, o que chamou de “ataques” que estava “sofrendo na mídia”. Naquela madrugada, uma reportagem da coluna de Malu Gaspar, em O Globo, revelou que dois gerentes da Caixa haviam sido destituídos de seus cargos depois de se oporem à compra, pela gestora do banco estatal, de letras financeiras do Master.

O tema era delicado. O Banco Central já acompanhava de perto a instituição financeira, que dava os primeiros sinais de problemas de liquidez. Além disso, o Master precisava fortalecer seu patrimônio líquido para continuar girando a máquina de captações de depósitos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). As letras financeiras ajudariam o banco a compor capital e manter o ritmo acelerado de captação.

Vorcaro havia apresentado ao BC um plano para captar R$ 15 bilhões de fontes institucionais, mas só tinha conseguido R$ 2 bilhões até aquele momento.

Patrimônio turbinado

O castelo de cartas começou a ruir em 2025. O Master acabou intervencionado extrajudicialmente pelo BC, enquanto Tércio e Quadrado enfrentaram problemas em seus negócios e as fraudes nas operações da Compliance Zero pressionaram a instituição financeira que intermediou os recursos. No entanto, em um primeiro momento, a compra dos papéis trouxe vantagens para todos os envolvidos, além de ganho direto ao patrimônio das ações.

O principal beneficiado foi o Master, cotista dos fundos que adquiriram as ações da Ambipar. O patrimônio líquido do banco dobrou de R$ 2,4 bilhões em dezembro de 2023 para R$ 4,7 bilhões no término de 2024. Esse aumento foi decisivo para que a instituição pudesse continuar captando recursos no mercado. A base de depósitos saiu de R$ 30,5 bilhões para R$ 49,9 bilhões no período, durante uma crise de liquidez e patrimonial já se avizinhava.

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