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SK Hynix cai 13%; por que as ações da empresa se comportam como fichas de cassino nos pregões pós IPO
Publicado 15/07/2026 • 13:08 | Atualizado há 46 minutos
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Publicado 15/07/2026 • 13:08 | Atualizado há 46 minutos
Em três pregões, ação da SK Hynix caiu, disparou e voltou a subir, expondo a lógica de cassino por trás do boom de memória para IA.
Quem acompanhou o painel de cotações da SK Hynix nesta semana viu algo parecido como sentar numa mesa de cassino em que a casa muda de sorte a cada rodada sem nenhuma carta nova ter sido virada. Na segunda-feira (13), a ação despencou 15,37% em Seul, o pior pregão da história da empresa, arrastando o índice Kospi para uma queda de quase 9% e acionando o circuit breaker da bolsa coreana.
Na terça-feira (14), o recibo negociado em Nova York (ADR) disparou 27%, saindo de 152 para 193,92 dólares, puxado por uma elevação de rating do Barclays e por um orçamento recorde de IA anunciado pelo governo sul-coreano.
Na quarta-feira (15), de volta a Seul, as ações subiram 8,83%, mas mesmo assim fecharam valendo 38% menos do que o mesmo papel negociado horas antes em Nova York.
Três pregões, três movimentos de dois dígitos, e o mesmo ativo custando preços diferentes conforme o lado do Pacífico em que o investidor está sentado.

A SK Hynix não nasceu ontem nem surgiu do nada para pegar carona na euforia da inteligência artificial. A empresa sul-coreana de memória tem 43 anos de história, fundada em 1983 como Hyundai Electronics pelo grupo automotivo e naval Hyundai, passou por uma fusão turbulenta com a LG Semicon em 1999, quase quebrou na crise financeira asiática e só virou SK Hynix em 2012, quando a SK Telecom comprou o controle acionário.
Essa coluna já contou em abril como a corrida por memória HBM, o tipo usado para turbinar os chips de IA da Nvidia, esgotou a capacidade de produção das fabricantes e encareceu até o celular do consumidor comum.
Foi justamente para financiar novas fábricas e equipamentos que a SK Hynix decidiu estrear com recibos de ações na Nasdaq na semana passada, captando até US$ 29,4 bilhões numa aposta no boom que essa própria coluna vem acompanhando mês a mês.
Nada na operação da SK Hynix explica esse tipo de oscilação. A companhia segue sendo a maior fornecedora mundial de memória HBM, a que abastece os aceleradores de IA da Nvidia, com carteira de pedidos esgotada e o presidente-executivo Kwak Noh-jung repetindo que 2027 será o ano da maior escassez da história da indústria de memória.
O que mudou foi o humor do mercado sobre quanto vale essa escassez, negociado por gente que usa ETFs alavancados 2x e dinheiro emprestado. Quando o clima vira de pânico para euforia em 48 horas, o efeito nesses instrumentos não é proporcional, é multiplicado.
🔍 Depois de uma queda violenta como a de segunda-feira, parte da alta seguinte costuma vir de gente que apostou contra a ação e precisa recomprá-la para fechar a posição, a chamada cobertura de posição vendida, que empurra o preço para cima com mais força do que a demanda genuína compraria sozinha. Some fundos caçando barganha e ETFs alavancados amplificando o movimento na direção contrária, e o resultado é uma alta tão exagerada quanto a queda que a precedeu.
A queda de segunda-feira teve gatilho concreto, o temor de que os gastos bilionários das big techs em infraestrutura de IA não sustentem o retorno prometido, tema que esta coluna já tratou em junho ao mostrar a Nvidia isolada como a única gigante realmente lucrando com a corrida.
A recuperação de terça e quarta teve outro gatilho, dados de inflação nos Estados Unidos mais fracos que o previsto, o que reduz a pressão para juros altos e devolve apetite por risco.
Nenhum dos dois gatilhos tem relação direta com quantos chips de memória a SK Hynix vai vender no próximo trimestre. A analista Kim Sunwoo, da Meritz Securities, calcula que os fabricantes de DRAM hoje atendem apenas de 75% a 80% da demanda do mercado, fração que pode cair para a faixa dos 60% em 2027. Esse número não mudou em nenhum dos três pregões.
O detalhe da semana nem é a montanha-russa em si, é o fato de que a mesma empresa, no mesmo instante, tem dois preços diferentes conforme a bolsa escolhida. Depois do pregão de terça, o ADR em Nova York fechou valendo 38% mais do que a ação local em Seul fecharia na quarta-feira seguinte, distância que era de apenas 3% quando os recibos foram precificados na semana anterior.
A diferença existe porque o Depositário de Valores da Coreia ainda não libera a conversão entre ADR e ação local, prevista para 29 de julho, coincidentemente o mesmo dia do balanço do segundo trimestre. O Morgan Stanley estima que o depositário só deve permitir a criação de novos ADRs equivalentes a 2,5% do total de ações em circulação, restrição que mantém o prêmio artificialmente alto, e o mercado já sinalizou a correção, com os ADRs indicando queda de 5% no pré-mercado de quarta-feira.
O precedente existe na taiwanesa TSMC, cujo ADR operou nesta quarta (dia que escrevo) com prêmio de 11% mas já oscilou entre 1% e 26% em décadas.
O caso da SK Hynix desta semana serve de aula sobre a diferença entre o preço de uma ação e o valor de uma empresa. A empresa vende um produto real, para clientes reais, num mercado com escassez estrutural projetada até o fim da década.
O preço da ação, negociado por gente usando alavancagem em cima de um papel que virou queridinho global após a estreia na Nasdaq, se comporta como qualquer ficha de cassino, sobe, desce e até vale valores diferentes em mesas diferentes por motivos que pouco têm a ver com o balanço da empresa.
Separar as duas coisas é o exercício mais útil que um investidor pode fazer antes de repetir a aposta.
Leia outras colunas em AI-451.
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