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Recompra de Treasuries alivia mercado, mas juros longos dos EUA mantêm viés de alta

Publicado 19/08/2026 • 22:31 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Pedro Paulo Silveira avalia que a recompra de títulos pelo Tesouro americano trouxe alívio pontual, sem resolver os fatores estruturais que pressionam os juros longos.
  • Endividamento público elevado, emissão de dívida por empresas e investimentos em inteligência artificial aumentam a disputa global por capital.
  • Analista vê tendência de alta para as taxas de longo prazo dos EUA, cenário que pode pressionar câmbio, juros e ativos de risco em outros países.

A recompra de títulos de longo prazo anunciada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos trouxe alívio aos mercados nesta quarta-feira (18), mas não elimina os fatores que vêm pressionando os juros americanos de prazos mais longos. A avaliação é de Pedro Paulo Silveira, analista da Terra Investimentos.

Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Silveira afirmou que o movimento ajudou a reduzir temporariamente a taxa considerada livre de risco e abriu espaço para uma recuperação de ativos mais arriscados. O problema, segundo ele, é que o desequilíbrio estrutural por trás da alta dos rendimentos continua presente.

“Não foi nenhuma reversão de cenário”, afirmou.

Para Silveira, o mercado enfrenta uma combinação de elevado endividamento público, grande necessidade de financiamento das empresas e pressão adicional provocada pelos investimentos em inteligência artificial e infraestrutura tecnológica.

“Você tem grandes tomadores de poupança no mundo, que são governos e que são empresas agora. E mais: você tem uma parte significativa do mundo ressabiada em continuar financiando a dívida americana”, disse.

Leia também: Ibovespa opera em alta após Tesouro dos EUA aumentar recompra de títulos

Juros longos têm tendência de alta

Perguntado sobre a direção das taxas dos títulos americanos de dez e 30 anos, Silveira afirmou que há incerteza sobre a velocidade do movimento, mas vê um viés de alta.

“O momento de equilíbrio no mercado de títulos indica uma tendência de alta”, afirmou.

Segundo ele, o mercado pode passar por períodos de ajuste gradual, mas movimentos mais abruptos não podem ser descartados.

“A taxa de juro sempre sobe devagar até o momento que ela para de subir devagar e dá um baita pulo gigante que ninguém consegue prever”, disse.

O analista ponderou que não é possível antecipar se um movimento dessa magnitude acontecerá, mas afirmou que a dinâmica atual exige atenção.

“Existe uma indeterminação. Esse mercado de títulos pode ficar equilibrado com a taxa de juro caindo um pouquinho […] ou esse mercado vai continuar subindo em direção a 5% no dez anos”, afirmou.

Na avaliação de Silveira, entretanto, o cenário atual aponta mais para aumento do que para queda.

Dívida mais cara muda equilíbrio global

Silveira destacou que o aumento das taxas de longo prazo ocorre depois de um período em que governos conseguiram elevar fortemente o endividamento sem enfrentar o mesmo grau de pressão sobre o custo da dívida.

Após a crise financeira de 2008 e a pandemia, segundo ele, juros reais muito baixos ajudaram a tornar níveis elevados de dívida mais administráveis.

O cenário muda quando o custo do financiamento passa a superar o ritmo de crescimento da economia.

“Quando, por uma série de fatores, a taxa de juro começou a subir e ficar maior que a taxa de crescimento, isso coloca o endividamento numa trajetória crescente”, afirmou.

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Para Silveira, essa mudança ajuda a explicar por que investidores passaram a cobrar rendimentos maiores para financiar governos por prazos de dez, 20 ou 30 anos.

IA aumenta disputa por financiamento

O analista também chamou atenção para o volume de recursos demandado pelas grandes empresas de tecnologia.

Segundo ele, o avanço dos investimentos em inteligência artificial e data centers ocorre ao mesmo tempo em que governos precisam captar grandes volumes no mercado.

“As big techs estão fazendo dívida até não poder mais. É um nível muito grande de endividamento, elas estão emitindo muita dívida. As empresas em geral estão buscando o mercado de capitais para se financiar. Os países todos estão precisando se financiar e não sei se vai haver poupança para todo mundo”, afirmou.

Essa concorrência por recursos tende, segundo Silveira, a pressionar o preço do dinheiro.

“Com isso, a taxa de juro sobe e fica maior que a taxa de crescimento”, disse.

Cenário americano pode espalhar pressão pelo mundo

Para o analista, a política econômica e a postura dos Estados Unidos em questões comerciais e geopolíticas também podem manter o mercado de títulos sob pressão.

“Os Estados Unidos estão jogando para aumentar o estresse nesse mercado, seja pela manutenção da postura em relação à guerra, seja pela postura de buscar um atrito permanente com seus grandes aliados comerciais no mundo. Isso é mais inflação, isso é mais taxa de juro”, afirmou.

Uma alta persistente dos juros longos americanos teria efeitos que ultrapassam o mercado dos Estados Unidos.

Taxas maiores dos Treasuries aumentam a remuneração exigida pelos investidores em outros mercados e podem pressionar moedas, juros e bolsas, especialmente em economias emergentes.

Leia também: Dólar cai a R$ 5,18 após ação do Tesouro no mercado de títulos públicos americanos

Recompra deu apenas um ‘refresco’

Silveira afirmou que a melhora observada nos mercados nesta quarta-feira ocorreu justamente porque a atuação do Tesouro americano retirou parte da pressão sobre os rendimentos dos títulos.

“Quando a taxa de juro livre de risco, que é a taxa de juro dos títulos americanos, dá o refresco como deu hoje, isso abre espaço para ativos de risco se recuperarem”, disse.

O movimento também contribuiu para a desvalorização do dólar no exterior e para o alívio observado em outros mercados.

Para Silveira, porém, o episódio deve ser visto como um ajuste de curto prazo, e não como sinal de que os problemas no mercado de dívida americana foram solucionados.

“A questão estrutural por trás dessa alta de taxa de juro continua”, afirmou.

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