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Aposta de Bessent para acalmar mercado de títulos aumenta temores com inflação

Publicado 21/08/2026 • 18:00 | Atualizado há 51 minutos

KEY POINTS

  • Investidores começaram, nos últimos dias, a precificar uma inflação mais alta após uma intervenção no mercado anunciada pelo Departamento do Tesouro nesta semana.
  • As taxas de breakeven atingiram níveis não vistos em mais de dois meses, à medida que investidores ficaram preocupados com os impactos inflacionários da intenção do departamento de dobrar o volume de recompras da dívida pública.
  • “O cenário neste momento é muito implacável. Há uma combinação de preocupações que ganhou força”, disse Van Hesser, estrategista-chefe da KBRA, agência de classificação de crédito e títulos.

Investidores passaram, nos últimos dias, a precificar uma maior probabilidade de inflação mais elevada à frente, um possível sinal de que os esforços do Departamento do Tesouro nesta semana para melhorar a liquidez no mercado de dívida pública estão levantando preocupações sobre implicações mais amplas da política.

A chamada taxa de breakeven, uma medida baseada no mercado que compara os rendimentos dos títulos do Tesouro com os de títulos protegidos contra a inflação de mesmo vencimento, subiu ao longo de toda a curva, atingindo seu maior nível em mais de dois meses. Os breakevens refletem as expectativas de inflação, bem como a compensação que os investidores buscam pelo risco inflacionário e outros fatores.

No horizonte de dez anos, a taxa de breakeven subiu para 2,34% na quinta-feira, seu maior nível desde 10 de junho. Os breakevens de cinco anos atingiram o mesmo patamar, o maior desde 16 de junho. Embora essas medidas possam ser voláteis e ainda indiquem que o mercado não espera uma inflação fora de controle, elas também mostram que as preocupações com a inflação estão aumentando.

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A preocupação surgiu após um anúncio do Tesouro na quarta-feira, informando que irá pelo menos dobrar o tamanho de sua recompra típica de dívida de US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões), uma operação de rotina iniciada em 2024 que ajuda a proporcionar liquidez para títulos de prazo mais longo.

Embora o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tenha insistido que a medida não era uma tentativa de reduzir os rendimentos, ela veio depois que os títulos do Tesouro de dez e 30 anos atingiram níveis não vistos desde antes da crise financeira global de 2008.

“O cenário neste momento é muito implacável. Há uma combinação de preocupações que ganhou força”, disse Van Hesser, estrategista-chefe da KBRA, agência de classificação de crédito e títulos.

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A precificação de uma inflação mais alta pelos operadores “se encaixa no cenário em que as pessoas estão preocupadas com a inflação, e isso continua pressionando o mercado. Essas coisas vão e vêm. Acho que todos esses riscos estão presentes, e muitos deles já existem há algum tempo. Eles se intensificam de tempos em tempos e se manifestam nos mercados.”

Reação negativa do mercado

O aumento das expectativas de inflação baseadas no mercado segue um padrão geral observado nesta semana.

Embora os rendimentos dos títulos do Tesouro de prazo mais longo tenham despencado no dia do anúncio da recompra, eles se recuperaram na quinta-feira e voltaram a subir na sexta-feira. O rendimento do título de referência de dez anos estava em 4,73% no início da tarde, alta de 3,4 pontos-base no dia e acima do nível anterior ao anúncio.

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Da mesma forma, o rendimento do título de 30 anos subiu 3,6 pontos-base, para 5,27%, enquanto os rendimentos também avançaram nos títulos de prazo mais curto. O Tesouro é obrigado a compensar as recompras de dívida de longo prazo com a emissão de títulos de prazo mais curto.

O salto nos rendimentos tem sido associado a uma série de fatores, com os temores de inflação entre os principais. Os Treasuries também têm sido obrigados a competir com dívidas públicas de maior rendimento na Ásia e na Europa, com uma onda recorde de emissões de grandes empresas de tecnologia que investem em inteligência artificial e com um aumento generalizado dos prêmios de prazo, ou seja, o rendimento adicional exigido pelos investidores para manter dívida dos Estados Unidos, que ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões (R$ 206 trilhões) nesta semana.

Enquanto os rendimentos subiram, o dólar também enfraqueceu, dando continuidade a uma tendência observada nesta semana, na qual a moeda americana acumulou perda de quase 0,9%.

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O movimento do dólar “também pode ser resultado da ‘interpretação’ do anúncio do Tesouro como uma perspectiva de políticas mais flexíveis do Fed”, escreveu Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e juros do Macquarie Group.

“Após o anúncio do aumento das recompras e o ‘efeito de sinalização’ que ele provocou, o breakeven de dez anos subiu cerca de 6 a 7 pontos-base — algo nada insignificante. É como se o mercado estivesse dizendo que havia algo ‘inflacionário’ no anúncio”, acrescentou Wizman.

Autoridades do Departamento do Tesouro não responderam a um pedido de comentário.

Warsh no centro das atenções

A resposta do mercado aumenta a pressão sobre o presidente do Fed, Kevin Warsh, que deve fazer seu aguardado discurso principal em 28 de agosto, no simpósio anual do banco central em Jackson Hole, Wyoming.

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Declarações anteriores de Warsh, nas quais ele defendeu uma participação menor do Fed nos mercados, foram interpretadas pelos mercados como uma postura mais branda em relação à inflação.

Wizman observou que “se Warsh sinalizasse que permaneceria ‘dovish’ indefinidamente, isso poderia ser contraproducente para ele e para o Tesouro, já que os breakevens de inflação subiriam ainda mais, talvez desfazendo a estabilidade dos rendimentos nominais de longo prazo que [o secretário do Tesouro] Scott Bessent está tentando alcançar”.

Ainda assim, alguns participantes do mercado não veem a recente alta dos rendimentos como motivo de preocupação.

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David Zervos, estrategista-chefe de mercado da Jefferies, destacou em entrevista à CNBC que o título de dez anos está em “uma das faixas mais estreitas” observadas em 20 anos. “Ele não está fugindo do controle de ninguém”, disse.

“O que estamos vendo é um tipo diferente de secretário do Tesouro, alguém disposto a entrar e agir de forma mais tática, e isso é algo novo para o mercado, ao qual o mercado terá de se adaptar”, disse Zervos.

Da mesma forma, Hesser, estrategista da KBRA, afirmou que os atuais níveis de rendimento estão mais alinhados às normas históricas, uma mudança após um período prolongado no qual o Fed utilizou suas ferramentas para manter os juros artificialmente baixos.

“Um rendimento de 4% a 5% para o título de dez anos é um nível muito construtivo de juros em uma economia próspera”, disse. “Acho que uma taxa de 4% a 5% para o título de dez anos é muito saudável e permite que os juros façam o que devem fazer, que é moderar os fluxos de capital pela economia.”

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