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Juros dos Treasuries enfrentam o teste dos 4,8% enquanto riscos fiscais ameaçam atingir outros ativos

Publicado 07/09/2026 • 08:08 | Atualizado há 53 minutos

KEY POINTS

  • Uma alta sustentada dos juros dos Treasuries de 10 anos acima de 4,8% pode provocar “problemas relevantes” em outras classes de ativos.
  • Déficits fiscais, forte emissão de títulos do Tesouro americano e aumento do endividamento das empresas mantêm pressão sobre os juros de longo prazo, apesar das tentativas do Tesouro de conter esse movimento.
  • O HSBC elevou sua projeção para o rendimento dos Treasuries de 10 anos no fim de 2026 para 4,65%, ao apontar um patamar estruturalmente mais alto para os juros de longo prazo.
Operador da Bolsa de Nova York diante de telas com gráficos do mercado financeiro

AFP

Operador acompanha negociações na Bolsa de Nova York (NYSE), em meio às atenções do mercado sobre os juros dos Treasuries e os riscos fiscais nos Estados Unidos.

Os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos enfrentam um teste importante no patamar de 4,8%. Uma alta sustentada acima desse nível pode provocar “problemas relevantes” em outras classes de ativos, segundo Matt Maley, estrategista-chefe de mercado da Miller Tabak + Co.

“Continuamos preocupados com o mercado de Treasuries, já que o aumento dos déficits fiscais, a forte emissão de dívida e o elevado endividamento das empresas continuam pressionando os juros de longo prazo, enquanto as tentativas do Departamento do Tesouro de conter as taxas por meio de declarações não produziram a queda desejada, pelo menos até agora”, afirmou Maley em relatório divulgado no fim de semana.

Segundo o estrategista, uma alta sustentada acima de 4,8% no rendimento dos Treasuries de 10 anos, nível que corresponde à máxima atingida em janeiro de 2025, seria “particularmente preocupante”.

O movimento poderia começar a gerar problemas mais amplos para os mercados e indicar que as preocupações fiscais estão se sobrepondo às tentativas das autoridades americanas de influenciar o custo dos empréstimos.

Maley afirmou que os esforços recentes do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e do secretário do Tesouro, Scott Bessent, para tentar reduzir os juros por meio de declarações públicas não produziram, até agora, o efeito esperado.

A estratégia ocorreu em um momento em que muitos investidores apostavam na queda dos preços dos Treasuries e, consequentemente, na alta dos juros, enquanto o volume de negociações durante o verão no Hemisfério Norte estava mais baixo. A expectativa das autoridades era de que as declarações pudessem desencadear uma valorização relevante dos títulos.

O resultado, porém, evidencia a dificuldade crescente de responder às preocupações do mercado sem enfrentar as pressões fiscais que estão por trás delas, segundo Maley.

O déficit orçamentário dos Estados Unidos e a dívida pública do país, que já supera US$ 40 trilhões, estão cada vez mais difíceis de serem ignorados pelos investidores. Ao mesmo tempo, o governo disputa a demanda do mercado com um volume elevado de emissões de dívida por empresas.

Mais de US$ 8,4 trilhões em títulos do governo americano devem vencer e precisar ser refinanciados entre agora e o fim do ano, segundo Maley. Setembro também pode registrar um volume recorde de emissões de títulos corporativos de alta qualidade.

O Goldman Sachs elevou recentemente sua projeção para as emissões de dívida corporativa com grau de investimento em dólar em 2026 para US$ 2,3 trilhões.

Pressão vai além dos Estados Unidos

A pressão não se limita aos Estados Unidos. Japão, Reino Unido, França e outras economias desenvolvidas também enfrentam desafios fiscais significativos, contribuindo para uma mudança mais ampla nos mercados globais de títulos.

Nesse cenário, investidores passaram a exigir uma remuneração maior para assumir o risco de financiar governos.

“Nada disso significa que o mercado de títulos vai se mover em linha reta”, afirmou Maley. Segundo ele, o pessimismo elevado e o posicionamento dos investidores ainda podem provocar uma forte valorização dos contratos futuros de Treasuries.

Um eventual movimento desse tipo, porém, pode ser apenas temporário, sem representar uma reversão da tendência de longo prazo.

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O patamar de 5% passou a ser amplamente acompanhado pelo mercado para os títulos mais longos do Tesouro americano. Maley observa, porém, que os níveis considerados críticos vêm subindo sucessivamente, passando de 4,4% para 4,5%, depois 4,6% e 4,7%.

Alta dos juros pode atingir ações e imóveis

Uma alta sustentada acima de 4,8% pode ter consequências muito além do mercado de títulos.

Michael Chen, gerente-geral da Noah ARK Hong Kong, afirmou que uma elevação desordenada dos juros dos Treasuries de longo prazo pode levar a uma reprecificação de ativos cujo valor depende de fluxos de caixa mais distantes no futuro.

Entre eles estão títulos com vencimentos muito longos, ações de empresas de crescimento negociadas a múltiplos elevados, imóveis comerciais e alguns ativos de mercados privados.

Chen afirmou que a pressão estrutural sobre os Treasuries está aumentando à medida que a situação fiscal dos Estados Unidos leva os investidores a exigir uma remuneração maior para carregar dívida de longo prazo.

Ele prefere ouro e moedas fortes como formas de proteção estrutural e mantém exposição abaixo da média a Treasuries com vencimentos muito longos. Ao mesmo tempo, mantém investimentos em ações de empresas de qualidade, ativos reais e infraestrutura física relacionada à inteligência artificial, como eletricidade, redes de energia, sistemas de armazenamento e data centers.

HSBC eleva projeção

O HSBC também adotou uma visão mais cautelosa para os títulos de longo prazo das economias desenvolvidas.

O banco elevou sua projeção para o rendimento dos Treasuries de 10 anos no fim de 2026 de 4,30% para 4,65%. A instituição citou um patamar estruturalmente mais elevado para os juros de longo prazo e uma possibilidade maior de que a política monetária permaneça mais restritiva.

O HSBC afirmou que continua cauteloso com títulos de vencimento mais longo nos mercados desenvolvidos.

O banco também elevou de 2,8% para 3% sua projeção para o rendimento dos Bunds alemães de 10 anos no fim de 2026.

Para Maley, a principal questão é que uma eventual queda dos juros no curto prazo não resolveria necessariamente o problema estrutural.

“Se tivermos uma recuperação do mercado de Treasuries em breve, e consequentemente uma queda dos juros, mesmo que ela possa durar até as eleições de meio de mandato, isso não é algo que possa ser amenizado no longo prazo sem mudanças sérias na área fiscal”, afirmou.

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