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Entre avanços pró Irã e provocações de Trump, delegações devem retomar negociações de paz nesta segunda (22)

Publicado 21/06/2026 • 19:33 | Atualizado há 3 horas

KEY POINTS

  • Delegação iraniana deixa local de negociações após mensagem considerada ofensiva de Trump
  • Irã e EUA avançam sobre liberação de ativos congelados e isenção de sanções ao petróleo
  • Hezbollah rejeita negociações do governo libanês com os EUA em meio a combates no Líbano

O domingo (21) foi marcado por uma sequência de eventos nas negociações entre Irã e Estados Unidos na Suíça, que buscam transformar o memorando de entendimento assinado na semana passada em um acordo definitivo para encerrar a guerra no Oriente Médio. Entre avanços pontuais e novas tensões, veja o que aconteceu ao longo do dia.

Do lado iraniano, negociadores relataram avanços concretos antes da escalada de tensão. Hussein Gurbanzadeh, integrante da equipe do Irã, afirmou que um rascunho sobre a isenção de sanções ao petróleo iraniano foi finalizado durante a rodada, o que permitiria à Teerã retomar a venda de petróleo bruto sem restrições.

Segundo a televisão estatal iraniana, o tema central do encontro foi a liberação de ativos financeiros do país congelados no exterior, com discussão também sobre os procedimentos para esse descongelamento. O canal destacou ainda que o programa nuclear iraniano não entrou na pauta dessa rodada, ponto que tem sido um dos principais impasses entre as partes desde a assinatura do memorando.

A rodada de conversas teve início após a chegada do vice-presidente americano, JD Vance, à Suíça, à frente da delegação dos Estados Unidos.

Pouco depois do começo das tratativas, e diante de críticas internas por ser um acordo muito favorável ao Irã, o presidente Donald Trump publicou uma mensagem em sua rede social ameaçando retomar ataques contra o Irã caso o país não contenha seus aliados no Líbano, dando o tom de tensão que marcaria o restante do dia.

Leia também: Delegação iraniana deixou local de negociações na Suíça após nova ameaça de Trump, diz mídia estatal

Irã pede que EUA “meçam suas palavras”

O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento do país, alertou os Estados Unidos a evitarem ameaças contra Teerã, afirmando que as forças armadas iranianas estão prontas para responder a qualquer ação militar. A declaração veio em resposta à postagem de Trump.

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Primeira rodada avança sobre ativos congelados e sanções

O ministro das Finanças do Irã, Seyed Ali Madanizadeh, reforçou à agência estatal Irna que o memorando deve permitir a venda de petróleo bruto iraniano sem restrições e a repatriação de receitas em moeda estrangeira, o que ajudaria a aliviar o déficit orçamentário do país.

Madanizadeh também citou a liberação de fundos hoje bloqueados pertencentes ao banco central iraniano. O Irã enfrenta inflação de 77,2% em maio, o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial, segundo dados oficiais.

Delegação iraniana deixa local de negociações após post de Trump

A escalada verbal teve um capítulo concreto horas depois, quando a delegação iraniana deixou o hotel nos Alpes suíços onde ocorriam as conversas, após a publicação de Trump. Segundo a Irna, as negociações, mediadas por Paquistão e Catar, entraram em fase difícil após a postagem.

Uma fonte ouvida pela AFP, no entanto, afirmou que a delegação iraniana segue comprometida com o processo e não comunicou aos mediadores intenção de abandoná-lo.

A delegação americana, liderada por Vance, classificou o encontro como histórico e disse esperar transformar a relação dos EUA com o povo iraniano. Segundo Vance, houve “progressos consideráveis” nos últimos dias para garantir o cessar-fogo no Líbano, embora ele tenha reconhecido que esse tipo de negociação costuma ser confuso e pode não resolver todos os desentendimentos de imediato.

Líbano segue como principal ponto de atrito

As negociações ocorrem em meio à continuidade dos confrontos entre Israel e o Hezbollah no Líbano, apesar de o memorando prever o fim das hostilidades em todas as frentes. Em retaliação, o Irã chegou a anunciar o fechamento do Estreito de Ormuz. Somente neste fim de semana, 30 pessoas morreram no leste e no sul do território libanês, segundo balanço local.

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O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, afirmou que não será possível selar um acordo final com Washington caso as hostilidades no Líbano não cessem. Já o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reiterou que seu Exército permanecerá no sul do território libanês pelo tempo que considerar necessário, enquanto o líder do Hezbollah, Naim Qassem, rejeitou tanto a criação de uma zona de segurança israelense na região quanto as negociações diretas entre o governo libanês e os Estados Unidos, alegando que elas comprometeriam a soberania do Líbano.

Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, as operações israelenses já mataram 4.106 pessoas desde 2 de março, enquanto o Exército israelense reportou a morte de 36 militares no mesmo período. Em um sinal de distensão, Israel anunciou na noite deste domingo (21) que vai suspender, a partir de segunda-feira (22), as restrições a reuniões públicas impostas no norte do país, próximo à fronteira libanesa.

Mercado financeiro reage à saída da delegação iraniana

O abandono da mesa de negociações pela delegação iraniana eleva de imediato a volatilidade e o risco geopolítico nos mercados globais, segundo Hulisses Dias, mestre em finanças pela Universidade de Sorbonne. Para o analista, a dinâmica entre os dois países lembra a estratégia de “bad cop, good cop“, com Trump assumindo o tom mais agressivo enquanto a delegação americana na Suíça, liderada por JD Vance e pelo genro do presidente, Jared Kushner, conduz a negociação propriamente dita. Do lado iraniano, o presidente Masoud Pezeshkian apoiaria as conversas, enquanto o líder supremo do país mostraria relutância em relação ao acordo.

Segundo Dias, a expectativa é de volatilidade no petróleo e nas bolsas ao longo dos próximos 60 dias previstos no memorando, mas o cenário-base ainda seria de um acordo final, já que a continuidade da guerra prejudica politicamente Trump e pressiona os dados de inflação nos Estados Unidos. O analista cita o discurso recente de Kevin Walsh, novo presidente do Federal Reserve, que surpreendeu o mercado ao adotar postura mais dura contra a inflação, o que teria influenciado a leitura do Irã sobre a disposição americana de negociar.

No Brasil, Dias aponta que o Ibovespa caiu cerca de 15% desde a metade de abril, em um movimento que, na visão dele, já mostra sinais de exaustão e pode abrir espaço para recuperação de até 5% nas próximas semanas, especialmente impulsionada por ações de Petrobras e Vale. Para o analista, o custo da energia também preocupa o mercado americano por seu impacto sobre os investimentos em inteligência artificial, setor que demanda grande consumo energético, o que reforçaria o interesse dos Estados Unidos em encerrar o conflito o quanto antes.

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