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Acordo entre EUA e Irã dita rumo dos mercados na semana, com expectativa sobre credibilidade do pacto e garantias para Ormuz

Publicado 14/06/2026 • 19:30 | Atualizado há 11 minutos

KEY POINTS

  • Investidores monitoram as negociações entre Estados Unidos e Irã, com a reação dos mercados dependendo da credibilidade do acordo e das garantias para a reabertura do Estreito de Ormuz.
  • Em caso de acordo sólido, a expectativa é de queda do petróleo, redução das pressões inflacionárias, recuo dos juros futuros e valorização de bolsas e moedas de países emergentes, incluindo o real.
  • Os mercados já começaram a antecipar um cenário mais favorável, com o Brent caindo mais de 4%, bolsas globais em alta, dólar próximo de R$ 5,10 e recuperação do Ibovespa.
  • Se as negociações fracassarem ou forem consideradas frágeis, o petróleo pode voltar a subire elevar os temores inflacionários, de modo a ampliar a busca por ativos de proteção.

O anúncio do acordo de paz entre EUA e Irã neste domingo (14) deu a notícia que os mercados esperavam ouvir há meses, à medida que a interdiição do Estreito de Ormuz vinha pressionando todas as classses de ativos e adicionando volatilidade aos mercados mais diversos. Para os especialistas ouvidos pelo Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, entretanto, a reação dos investidores depende menos do anúncio político em si e mais da credibilidade dos compromissos assumidos pelas duas partes.

A cerimônia oficial de assinatura está prevista para ocorrer em Genebra, no dia 19 de junho. O encontro, entretanto, ainda deixou algumas pontas soltas, o que deve limitar os avanços do mercado em alguma medida. Restam, agora, duas hipóteses acerca do desenlace da pacificação.

Na avaliação do economista e estrategista de investimentos Gustavo Cruz, o mercado continuará incorporando um prêmio de risco aos preços do petróleo mesmo diante do fim das hostilidades. Isso porque a crise evidenciou a vulnerabilidade da economia mundial a eventuais interrupções em uma rota considerada estratégica para o abastecimento energético.

Por esse motivo, a expectativa predominante entre analistas não é de um retorno aos valores observados antes do início da guerra. “Você vai ter sempre esse medo de que o Irã mude de uma semana para outra a sua postura sobre o Estreito de Ormuz”, disse, em entrevista ao Times Brasil – licenciado exclusivo CNBC.

Na hipótese mais favorável, um entendimento entre Washington e Teerã que garanta a reabertura e a normalização da navegação pelo Estreito de Ormuz tende a reduzir os temores de interrupções no fornecimento global de energia.

“O petróleo deve ser o primeiro ativo a reagir, com queda dos prêmios de risco geopolítico embutidos no Brent e no WTI”, disse Daniel Toledo, advogado especialista em direito internacional. Ele afirma que a principal leitura do mercado seria a redução do risco de um choque de oferta no setor energético. Entre o  início do conflito, em 26 de fevereiro, e a última atualização desta reportagem, o petróleo do tipo Brent acumulava alta superior a 42%, refletindo tanto os riscos logísticos envolvendo o Estreito de Ormuz quanto os danos à infraestrutura energética da região.

“Menor risco de interrupção no fornecimento de energia, menor pressão inflacionária global e, consequentemente, algum alívio nas expectativas de juros”, afirmou.

Nesse ambiente, bolsas de valores poderiam ganhar força, especialmente em setores mais sensíveis ao comportamento dos juros, como tecnologia, varejo, consumo e construção. O movimento também tenderia a favorecer moedas de países emergentes.

No Brasil, a combinação de petróleo mais barato, inflação mais controlada e fluxo internacional para mercados emergentes poderia beneficiar o real, os juros futuros e o Ibovespa. O efeito líquido tende a ser positivo para a bolsa brasileira, à medida que a melhora do ambiente externo deve ser acompanhada por maior apetite global por risco.

Os mercados já começaram a antecipar parte desse cenário. Para a CEO da Magno Investimentos, Olívia Flôres de Brás, o avanço das negociações ajudou a reduzir a pressão sobre o petróleo nos últimos dias.

“O Brent recua mais de 4% e volta para a região dos US$ 86 por barril. Menos tensão geopolítica significa menor pressão inflacionária global e maior disposição para tomada de risco”, afirmou.

O movimento foi acompanhado por uma recuperação dos mercados internacionais. Segundo a executiva, as bolsas asiáticas encerraram a semana em forte alta, enquanto os principais índices europeus avançaram mais de 2% e os futuros americanos passaram a operar em território positivo.

No Brasil, o dólar voltou a se aproximar de R$ 5,10, os juros futuros recuaram e o Ibovespa interrompeu a sangria de oito semanas. “O investidor estrangeiro continua encontrando uma combinação rara: um dos maiores juros reais do mundo e ativos negociados abaixo do potencial de longo prazo”, disse.

Aversão a risco renovada

O cenário muda completamente caso as negociações sejam recebidas com desconfiança pelos investidores. Segundo Toledo, a simples percepção de que o acordo não oferece garantias concretas para a segurança da navegação no Estreito de Ormuz já seria suficiente para pressionar os preços da energia.

Ele explica que não seria necessário um bloqueio total da rota marítima para desencadear a reação: “Basta o risco de interrupção, aumento do seguro marítimo, atraso logístico ou ameaça militar para o prêmio geopolítico voltar.”

A alta da energia poderia reacender preocupações inflacionárias em diversas economias e reduzir o espaço para cortes de juros por parte dos bancos centrais. No caso dos EUA, principalmente, um recrudescimento das negociações pressionaria os juros futuros na medida em que o Federal Reserve teria menos espaço para cortar juros  – mantendo uma postura mais dura por mais tempo.

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Nesse ambiente, investidores costumam migrar para ativos considerados mais seguros, como o dólar e os títulos do Tesouro americano, reduzindo a exposição a ações e mercados emergentes.

Para o economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni, a guerra entre Estados Unidos e Irã deixou de ser apenas um evento temporário e passou a influenciar diretamente a precificação dos ativos globais. “A extensão do conflito deixou de operar como um ruído geopolítico de curto prazo e passou a assumir um papel de força reorganizadora do capitalismo global”, afirmou.

Simioni avalia que, se os efeitos persistirem por mais de três trimestres, o Banco Central poderá ser forçado a adotar uma postura mais restritiva, com a taxa básica de juros chegando a 15%.

Nesse cenário, as projeções indicam inflação entre 4,8% e 5,2% em 2026, desvalorização cambial próxima de 10% e crescimento econômico limitado a uma faixa entre 1,4% e 1,7%.

Para Daniel Toledo, o principal fator a ser observado pelo mercado nos próximos dias será a capacidade de implementação efetiva do acordo.

“O mercado não vai olhar apenas para o anúncio político. Vai olhar para a credibilidade do acordo, para o cronograma de reabertura, para a segurança dos navios, para o posicionamento militar dos dois lados e para a reação dos demais atores da região”, afirmou.

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