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Tendências e Mentalidades Álvaro Machado

Algoritmos das redes passam a priorizar conversas infinitas – e mudam a lógica do engajamento digital

Publicado 25/03/2026 • 13:12 | Atualizado há 6 horas

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Tendências e Mentalidades

Álvaro Machado Dias é um neurocientista e futurista de reputação internacional. Ele é professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, membro do Painel Global de Tecnologia do MIT e fellow da Brain & Behavioral Sciences (Cambridge).

As redes sociais vivem uma transformação silenciosa, mas profunda: o que antes era medido por curtidas agora passa a ser definido pela capacidade de gerar conversas contínuas. A mudança, já perceptível em plataformas como X e Instagram, altera não apenas os algoritmos, mas também o tipo de conteúdo que ganha visibilidade – e, possivelmente, o comportamento dos usuários.

Esse novo modelo se apoia em uma lógica simples: interações mais complexas e duradouras têm mais valor do que reações rápidas. Curtidas, que podem ser automatizadas ou realizadas sem grande envolvimento, perdem relevância diante de cadeias de comentários que se desdobram ao longo do tempo.

O valor da conversa em cadeia

A priorização de discussões prolongadas responde a um problema antigo das plataformas: a baixa confiabilidade de métricas como curtidas e seguidores. Essas interações são facilmente inflacionadas por robôs ou por ações pouco refletidas dos usuários, o que reduz seu valor como indicador real de atenção.

Já o comentário exige mais esforço cognitivo e engajamento ativo. Quando esse comentário gera resposta, e essa resposta gera uma nova interação, cria-se uma cadeia que mantém o usuário por mais tempo na plataforma – exatamente o objetivo central das redes.

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Esse tipo de dinâmica, no entanto, não é facilmente replicável por sistemas automatizados, ao menos nos moldes tradicionais. Isso aumenta o valor dessas interações para os algoritmos, que passam a privilegiar conteúdos capazes de gerar debates contínuos.

Conteúdo pensado para não se fechar

Com a mudança nos critérios de engajamento, o conteúdo também se transforma. Em vez de mensagens completas, que apresentam começo, meio e fim, ganham espaço publicações propositalmente abertas – que convidam o público a participar, corrigir ou complementar.

A lógica é baseada em um princípio conhecido da psicologia: a tendência humana de buscar completar informações incompletas. Quando uma ideia parece inacabada, surge o impulso de intervir, opinar ou corrigir.

Esse mecanismo pode ser explorado de diferentes formas, desde listas deliberadamente incompletas até conteúdos com erros intencionais, criados para estimular respostas. A consequência é um ambiente em que o engajamento nasce da sensação de que algo precisa ser resolvido coletivamente.

A entrada dos agentes artificiais

Essa transformação se conecta a outra mudança estrutural: a entrada de agentes artificiais nas redes sociais. Com a evolução da inteligência artificial, torna-se possível criar perfis capazes de interagir, responder e sustentar conversas de forma contínua.

Como o custo de resposta para sistemas automatizados é muito menor do que para humanos, esses agentes podem ampliar significativamente o volume de interações. Isso favorece um modelo em que o engajamento é, em parte, impulsionado artificialmente.

Na prática, esses sistemas tendem a estimular conversas abertas, muitas vezes mantendo um grau de ambiguidade ou incompletude que incentive novas respostas. A lógica se aproxima de estratégias já conhecidas no ambiente digital, como conteúdos que provocam reações ou exploram dúvidas.

Impactos sobre o comportamento e o debate público

A mudança levanta questionamentos sobre seus efeitos mais amplos. Se, por um lado, há um uso sofisticado de princípios da psicologia cognitiva para aumentar o engajamento, por outro, cresce a preocupação com a qualidade das interações.

Ambientes que priorizam a continuidade da conversa, em vez da construção de conclusões, podem favorecer conteúdos menos assertivos e mais voltados à provocação do que à informação. Nesse cenário, a lógica da síntese – típica de áreas como o jornalismo – perde espaço para dinâmicas que incentivam o debate constante, mas nem sempre produtivo.

O resultado pode ser a formação de um comportamento mais reativo, com grande volume de opiniões, mas menor disposição para consolidar entendimentos ou buscar conclusões.

Ao privilegiar a conversa que não termina, as redes sociais inauguram uma nova fase do engajamento digital – mais intensa, mais contínua e, possivelmente, mais complexa em seus efeitos sobre a sociedade.

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