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Com lucro em queda e caixa negativo, Cimed pega empréstimo para pagar dividendos
Publicado 02/04/2026 • 12:55 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 02/04/2026 • 12:55 | Atualizado há 2 horas
KEY POINTS
A Cimed encerrou o ano de 2025 com o fluxo de caixa operacional negativo em R$ 55,5 milhões. No mesmo ano, a farmacêutica pagou R$ 427 milhões em forma de dividendos e juros sobre capital próprio aos acionistas. A combinação entre caixa no vermelho e proventos milionários chamou atenção do mercado e motivou um rebaixamento de rating pela Fitch.
Os proventos pagos superaram em mais de duas vezes o lucro líquido consolidado do ano, de R$ 196,7 milhões. Para sustentar essa distribuição sem caixa suficiente, a Cimed recorreu a captações: foram R$ 450 milhões em novos empréstimos, financiamentos e debêntures ao longo do ano.
A operação se enquadra no que analistas chamam de leveraged dividend – quando uma empresa toma dívida – a juros de mercado – para remunerar acionistas. A prática não é ilegal, mas eleva o endividamento e o risco financeiro da companhia.
A Cimed vendeu mais em 2025. A receita líquida consolidada avançou 12,5%, para R$ 3,067 bilhões. O ponto de dúvida do mercado está no que ficou para os acionistas depois dos custos.
O lucro líquido consolidado recuou cerca de 30%, de R$ 280,9 milhões em 2024 para R$ 196,7 milhões em 2025. As despesas comerciais e administrativas subiram de forma relevante, as despesas financeiras também pesaram, e o caixa operacional fechou no negativo.
A margem EBITDA ficou em 16% em 2025, abaixo da média histórica de 21% registrada entre 2021 e 2024.
Leia também: Margens pressionadas e geração de caixa negativa fazem Fitch rebaixar nota da Cimed
Parte da queda de rentabilidade tem explicação operacional. No primeiro trimestre, a implementação do sistema SAP S/4HANA gerou interrupções no time comercial que só foram recuperadas a partir do segundo trimestre. Ao mesmo tempo, as despesas com propaganda e marketing saltaram de R$ 129,2 milhões para R$ 182,8 milhões no consolidado – alta de 41,5% – reflexo direto da aposta da companhia na expansão do segmento de consumer health, que exige investimento contínuo em marcas.
Os estoques consolidados também pesaram: avançaram de R$ 508 milhões para R$ 699,5 milhões, consumindo R$ 232,3 milhões de caixa ao longo do ano. A isso se somaram as despesas financeiras com os empréstimos captados para sustentar a operação e a estratégia de aquisições, que incluiu a integração da R2M e a criação da Cilab S.A., joint venture com a Globo Ventures para o segmento de babycare, que encerrou seu primeiro exercício parcial com prejuízo de R$ 15,3 milhões.
O contexto regulatório ajuda a explicar a magnitude da distribuição. Com a mudança na legislação tributária brasileira, lucros distribuídos a partir de 2026 passam a ser tributados pelo Imposto de Renda. Antecipar o pagamento de lucros acumulados até o fim de 2025 permitiu aos acionistas da Cimed aproveitar a isenção vigente.
A estratégia envolve ainda uma lógica de arbitragem fiscal: empresas tributadas pelo lucro real podem deduzir as despesas com juros dos empréstimos captados para financiar os dividendos, reduzindo a base tributável – enquanto os acionistas recebem os proventos sem incidência de IR.
A corrida pela antecipação de dividendos não foi exclusividade da Cimed. A reta final de 2025 gerou movimento semelhante entre empresários e investidores em todo o Brasil: era o último ano em que ainda seria possível realizar a distribuição de lucros sem pagar imposto, desde que tudo fosse formalizado dentro do prazo. A Lei nº 15.270/2025 estabeleceu que lucros apurados até 31 de dezembro de 2025 permaneceriam isentos de tributação, desde que a deliberação societária ocorresse até essa data, com pagamento permitido até 2028. A partir de 2026, distribuições acima de R$ 50 mil mensais por beneficiário passaram a estar sujeitas ao Imposto de Renda Retido na Fonte à alíquota de 10%. Para empresas com caixa restrito, a saída foi recorrer a empréstimos para viabilizar a distribuição antes da virada – e garantir a isenção aos acionistas.
O lucro líquido é o resultado contábil da empresa: o que sobra depois de descontar custos, despesas operacionais, financeiras e impostos da receita total. Ele segue as normas contábeis e pode registrar receitas que ainda não entraram no caixa – como vendas a prazo ainda não recebidas.
O fluxo de caixa operacional, por sua vez, mede o dinheiro que de fato circulou pela operação da empresa em determinado período: o que entrou e o que saiu. Uma companhia pode ter lucro contábil positivo e, ao mesmo tempo, caixa negativo – quando, por exemplo, vende muito a prazo, acumula estoques ou enfrenta aumento de custos operacionais que precisam ser pagos antes de receber dos clientes.
No caso da Cimed, os dois indicadores apontaram em direções opostas em 2025: a empresa registrou lucro líquido de R$ 196,7 milhões e, ao mesmo tempo, fluxo de caixa operacional negativo em R$ 55,5 milhões. Parte da explicação está no aumento expressivo de estoques e contas a receber, que consumiram recursos antes que as vendas se convertessem em dinheiro disponível.
A dívida bruta da Cimed encerrou 2025 em R$ 1,8 bilhão, composta principalmente por debêntures, que respondem por 78% do total. O índice dívida bruta/EBITDA chegou a 3,7 vezes, e a dívida líquida/EBITDA ficou em 2,8 vezes – ambos acima dos patamares que a Fitch considera compatíveis com o rating atual.
Para os próximos dois anos, a agência projeta que o aporte remanescente do fundo soberano de Cingapura GIC – R$ 500 milhões previstos entre 2026 e 2027 – ajude a aliviar a pressão sobre a estrutura de capital da Cimed e mantenha a alavancagem em níveis próximos a 3 vezes no bruto e 2 vezes no líquido.
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