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A dor do trabalhador é sentida pela sociedade

Publicado 22/04/2026 • 08:00 | Atualizado há 3 horas

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Adoecimento da força de trabalho avança no Brasil, impulsiona afastamentos e gera impacto bilionário na economia, evidenciando a necessidade de repensar o modelo de cuidado e gestão da saúde no país.

O cenário macroeconômico brasileiro atual apresenta um profundo paradoxo. A celebração do avanço do Produto Interno Bruto (PIB) e a resiliência das altas taxas de emprego contrastam drasticamente com o colapso físico da sua força de trabalho. O país vivencia uma epidemia silenciosa, impulsionada pela degradação biomecânica contínua dos trabalhadores. Nesse contexto, as doenças osteomusculares assumiram o protagonismo como os principais vetores de incapacidade laboral, com destaque absoluto para a dor lombar e a hérnia de disco. A gravidade estrutural dessa condição é ilustrada pelo salto enorme nos benefícios concedidos por incapacidade temporária. Esses auxílios ultrapassaram a marca de quatro milhões de afastamentos em 2025, superando com imensa folga as ausências motivadas por traumas acidentais graves.

O que está por trás da epidemia de dor lombar

A origem dessa crise vai muito além da mera sobrecarga mecânica ou de erros posturais. Ela se assenta, também, na precarização laboral, no sedentarismo e na cultura assistencialista do modelo de saúde da nossa sociedade. A fisiologia humana foi originalmente projetada para o movimento, a absorção de impactos e o suporte de cargas axiais. No entanto, o corpo depara-se hoje com rotinas extenuantes e confinamento em posições estáticas. Isso dificulta a capacidade de recuperação dos tecidos e acelera substancialmente a degeneração dos discos intervertebrais.

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Por outro lado, a análise clínica moderna rejeita a visão superficial de que a dor lombar é puramente biomecânica. Reconhece-se, hoje, o inegável caráter biopsicossocial no agravamento do quadro. O adoecimento físico está frequentemente atrelado a distúrbios somáticos, quadros de ansiedade, episódios depressivos e estressores socioeconômicos. Um contingente significativo da força de trabalho apresenta altos graus de estresse financeiro, frequentemente associado a longas jornadas. Esse cenário atua sistemicamente no corpo: eleva os níveis de cortisol e as tensões musculares crônicas, além de diminuir o limiar de percepção da dor. Como resultado, o esgotamento psicológico se transforma em percepções de dor incapacitantes. Muitas vezes, a intensidade da queixa do paciente não é compatível com a gravidade real das alterações mecânicas.

O custo invisível para o Estado e para as empresas

A quantificação do prejuízo atrelado a essa epidemia revela um enorme custo socioeconômico. Esse impacto afeta de maneira incisiva tanto os cofres públicos quanto os balanços corporativos. Anualmente, o Estado arca com cifras bilionárias em transferências previdenciárias diretas e custos de tratamento. Contudo, o maior impacto recai sobre os custos indiretos. Estes incluem a perda de capacidade produtiva pelos dias de ausência, o desempenho ineficiente no posto de trabalho e os custos decorrentes de potenciais litígios trabalhistas. Assim, o cenário não se resume apenas ao absenteísmo médico (justificado ou compulsório). Ele inclui sua faceta mais ignorada e subnotificada: o presenteísmo incapacitado, que frequentemente deságua em processos judiciais.

Muitas vezes, o colaborador comparece ao posto de trabalho com sua capacidade de concentração severamente prejudicada pela dor crônica e pela exaustão psicológica. Isso dilata o tempo de execução de tarefas, eleva vertiginosamente o retrabalho e prejudica a sustentabilidade do negócio de forma invisível. Além disso, trabalhar com dor causa um enorme descontentamento e a sensação de injustiça no profissional. Esse sentimento quase sempre termina nos tribunais trabalhistas. A Justiça, por sua vez, costuma estabelecer nexos causais diretos entre a omissão corporativa e as patologias da coluna, mesmo quando essa correlação não é clinicamente bem definida. As condenações resultantes de condições antiergonômicas e adoecimento ocupacional geram passivos de bilhões de reais para as empresas brasileiras. Isso engessa os quadros de funcionários por meio de estabilidades acidentárias e punições judiciais severas.

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O erro no diagnóstico e o caminho para soluções mais eficazes

Contribuindo para esses prejuízos socioeconômicos e jurídicos, encontra-se um recorrente equívoco médico no manejo do diagnóstico e tratamento. Os sistemas de saúde público e suplementar lidam com um alarmante sobrediagnóstico. Esse fenômeno é impulsionado pelo uso massivo e indiscriminado de exames de imagem de alto custo (como as ressonâncias magnéticas) logo nas fases iniciais da dor lombar. Tais exames costumam ter alta sensibilidade, mas baixa especificidade para a causa exata da dor. É muito frequente o achado de alterações degenerativas assintomáticas, que, na maioria dos casos, não têm nenhuma relevância clínica para a queixa do paciente. No entanto, esses laudos geram pânico e pavimentam o caminho para a indicação de procedimentos invasivos e afastamentos desnecessários. Além disso, esses exames acabam servindo como "arma" para que trabalhadores e advogados mal-intencionados correlacionem os sintomas ao trabalho e iniciem litígios trabalhistas.

A prática clínica global, contudo, estabelece que a imensa maioria dos quadros agudos apresenta remissão por meio de um tratamento clínico simples. Isso envolve manejo medicamentoso adequado e protocolos ativos de fisioterapia para fortalecimento postural. Por outro lado, quando a reabilitação fracassa ou surgem déficits neurológicos, a intervenção cirúrgica torna-se inevitável. Nesses casos, a escolha da técnica dita implacavelmente o tempo de retorno do colaborador ao trabalho. Nesse contexto corporativo, técnicas minimamente invasivas, como a discectomia lombar endoscópica percutânea (PELD), devem ser priorizadas. Elas reduzem o sangramento, minimizam a resposta inflamatória muscular e encurtam o tempo de internação hospitalar. Em comparação às cirurgias abertas tradicionais, proporcionam um regresso significativamente mais rápido e seguro do indivíduo às suas funções operacionais.

Para mitigar este colapso estrutural, as políticas públicas e corporativas precisam passar por uma conscientização imediata. É necessário substituir a velha ideia de gerenciamento reativo de atestados médicos pela inteligência de dados e intervenção preditiva. O arcabouço metodológico para essa mudança de paradigma reside na adoção do Cuidado à Saúde Baseado em Valor (VBHC). Esse modelo propõe o financiamento de desfechos clínicos práticos que aumentem o valor real para a organização e para o indivíduo. Abandona-se, assim, a nociva remuneração baseada apenas no volume de procedimentos.

A implementação de uma gestão estratégica de afastamentos deve estar aliada, de forma inseparável, à engenharia ergonômica participativa e a programas estruturados de saúde corporativa. Essa ação deixa

de ser um esforço filantrópico para se consolidar como uma tática central de sobrevivência financeira. O investimento sistemático na higidez biomecânica do capital humano produz um retorno sobre o investimento expressivo e facilmente mensurável. Com isso, o bem-estar dos funcionários transforma-se em um aliado estratégico que eleva a rentabilidade e evita paralisações nas linhas produtivas. A integridade física da força de trabalho configura-se como o pilar incontornável da produtividade. Ignorar essa premissa biomecânica e social significa comprometer, de forma incalculável, o avanço econômico das corporações e a própria sustentabilidade do desenvolvimento nacional.

Dr. Guilherme Henrique Porceban - CRM-SP 169162 | RQE 84726

  • Ortopedista e cirurgião de coluna no Hospital Israelita Albert Einstein e HCor
  • Mestre em Cirurgia Translacional pela Universidade Federal de São Paulo

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