Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Conveniência mudou tudo – e expôs quem não sabe operar no e-commerce farmacêutico
Publicado 15/04/2026 • 15:10 | Atualizado há 1 mês
Congresso dos EUA reafirma apoio a Taiwan apesar de fala de Trump sobre vendas de armas à China
Mercedes-Benz pode ficar fora do mercado dos EUA por projeto de lei voltado à participação chinesa em montadoras
Exclusivo CNBC: CEO do JPMorgan vê exuberância nas bolsas com IA, mas diz que lucros podem justificar alta
Ações da SentinelOne caem após empresa cortar empregos para ampliar investimentos em IA
Com IPO da SpaceX se aproximando, mercado vê Elon Musk como forte candidato a se tornar o primeiro trilionário
Publicado 15/04/2026 • 15:10 | Atualizado há 1 mês
Freepik
Mais do que ampliar presença online, as empresas passaram a lidar com uma questão estrutural
Com crescimento acelerado e baixa penetração digital, setor de saúde entra em nova fase: mais do que vender online, o desafio agora é sustentar operações complexas com eficiência, escala e previsibilidade
O varejo farmacêutico brasileiro atravessa uma transformação acelerada, impulsionada pela digitalização. Estudo da IQVIA indica que o e-commerce do setor já movimenta cerca de R$ 27,5 bilhões no país, com crescimento superior a 50% em um curto intervalo recente. Apesar do avanço, o digital ainda representa pouco mais de 10% das vendas totais, em um mercado que ultrapassa os R$ 240 bilhões anuais, segundo dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e de entidades do setor. Levantamentos da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias) mostram que apenas as grandes redes já superam R$ 20 bilhões em vendas online, evidenciando a consolidação do canal entre os principais players do mercado.
Esse crescimento, no entanto, mudou a natureza do desafio. Mais do que ampliar presença online, as empresas passaram a lidar com uma questão estrutural: sustentar operações cada vez mais complexas, com eficiência, escala e previsibilidade. Nesse novo cenário, a digitalização deixou de ser uma escolha estratégica e se consolidou como exigência competitiva.
Esse movimento tem uma explicação direta: a conveniência deixou de ser diferencial e passou a ser regra. O consumidor, acostumado a experiências rápidas, previsíveis e sem fricção em outros setores, passou a exigir o mesmo padrão ao comprar produtos de saúde. E isso inclui desde medicamentos isentos de prescrição até suplementos, vitaminas e dermocosméticos.
Segundo Gerson Ferreira, diretor de Client Success da Infracommerce, esse foi o verdadeiro ponto de inflexão do setor. “O digital deixou de ser uma vitrine e passou a ser um modelo operacional. Não é mais sobre estar online, mas sobre operar digitalmente de ponta a ponta, com integração, governança e eficiência”, afirma.
Por trás da simplicidade percebida pelo consumidor, existe uma operação altamente sofisticada. A jornada de compra – busca, escolha e entrega – pode parecer trivial, mas depende de uma cadeia complexa que envolve múltiplos sistemas, parceiros logísticos, regras regulatórias e controle rigoroso de estoque e validade.
“O maior gargalo hoje está na orquestração”, explica Ferreira. “Não é apenas ter as peças, mas fazer tudo funcionar de forma integrada, com consistência e escala.”
No setor farmacêutico, essa complexidade ganha uma camada adicional. Restrições regulatórias, necessidade de profissionais especializados e exigências de compliance tornam a operação ainda mais sensível. Nesse contexto, qualquer falha – atraso na entrega, indisponibilidade de produto ou erro na comunicação – impacta diretamente a experiência do cliente e a confiança na marca.
Se antes a força da marca era suficiente para garantir competitividade, no ambiente digital essa lógica mudou. Hoje, a decisão de compra passa por fatores como prazo de entrega, facilidade de navegação, disponibilidade de produtos e eficiência no pós-venda.
“A marca continua sendo relevante, especialmente em saúde, onde a confiança é fundamental. Mas ela deixou de ser suficiente. A operação passou a ser um diferencial competitivo central”, afirma Ferreira. “A marca abre portas, mas é a operação que sustenta a relação.”
Esse novo cenário cria uma inversão importante. Empresas com execução eficiente conseguem competir – e até superar – concorrentes com maior reconhecimento de marca, mas operação deficiente.
Outro movimento que ganha força no e-commerce farmacêutico é a adoção de modelos de assinatura e compra recorrente. Categorias como suplementos, vitaminas e dermocosméticos se adaptam naturalmente a esse formato, que oferece conveniência ao consumidor e previsibilidade às empresas.
“Estamos falando de uma mudança estrutural. A recorrência resolve uma dor importante do setor, que é garantir abastecimento contínuo para o cliente e previsibilidade de demanda para a operação”, diz Ferreira.
Na prática, isso representa uma evolução do modelo transacional para um relacionamento contínuo, com impacto direto em indicadores como retenção e lifetime value.
Apesar do avanço dos modelos de recorrência, o Brasil ainda enfrenta barreiras culturais importantes quando o assunto é assinatura. Diferentemente de mercados mais maduros, como os Estados Unidos, onde consumidores adotaram amplamente esse formato – inclusive para itens básicos do dia a dia –, o consumidor brasileiro ainda demonstra certa resistência.
Entre os principais entraves estão o receio de ficar preso a contratos, a preferência por compras oportunistas e a sensibilidade a preço. Em um país marcado por instabilidade econômica e comportamento mais tático de consumo, a previsibilidade oferecida pela assinatura nem sempre é percebida como vantagem imediata.
Esse cenário exige das empresas um esforço adicional de educação do consumidor e, principalmente, a construção de propostas de valor claras. Mais do que oferecer conveniência, é necessário demonstrar flexibilidade, transparência e ganho real para o cliente.
Ainda assim, a tendência é de amadurecimento. À medida que a experiência melhora e os modelos se tornam mais adaptados à realidade local, a recorrência tende a ganhar espaço – especialmente em categorias ligadas ao cuidado contínuo, como saúde e bem-estar.
Apesar do crescimento acelerado, muitas empresas ainda entram no e-commerce farmacêutico com uma visão simplificada do desafio. A percepção de que basta “colocar um site no ar” contrasta com a realidade operacional do setor.
“O principal erro é subestimar a complexidade. Achar que vai ser fácil”, afirma Ferreira. “Na prática, estamos falando de uma operação que exige integração, disciplina e capacidade de execução em múltiplas frentes ao mesmo tempo.”
Essa diferença entre expectativa e realidade tem impacto direto nos resultados. Operações mal estruturadas enfrentam dificuldades para escalar, pressionam margens e comprometem a experiência do cliente.
Com o avanço do digital e o aumento da competitividade, o setor caminha para um momento de seleção natural. Empresas que não conseguirem sustentar eficiência operacional tendem a perder espaço.
“O que vai separar os líderes do restante do mercado é a logística rápida e experiência do usuário”, resume Ferreira. “No fim do dia, não é a estratégia mais sofisticada que vence, mas a capacidade de executar bem, com consistência.”
Esse cenário reforça uma mudança de mentalidade. Crescimento, por si só, já não é suficiente. O foco passa a ser crescimento com rentabilidade, previsibilidade e qualidade de execução.
Com 12 anos de atuação e presença em oito países da América Latina, a Infracommerce atende cerca de 100 marcas no Brasil, incluindo players de luxo, cosméticos, wellness e farmacêutico – segmento que já representa uma parcela relevante da operação. Hoje, cerca de 15% da operação está concentrada em pharma e wellness, um reflexo direto da digitalização do setor e da crescente complexidade envolvida na gestão dessas categorias.
Nesse novo e-commerce farmacêutico, a lógica é clara: não vence quem entra no digital – vence quem consegue operar dentro dele.
Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health.
Mais lidas
1
Sob pressão, Inter vê remuneração de executivos virar alvo de investidores
2
Inverno curto por conta do El Niño deve antecipar vendas de verão no e-commerce
3
Enquadramento de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA pode afetar PIB e dólar no Brasil
4
Anthropic lança Opus 4.8 com workflows dinâmicos e modo rápido mais barato
5
Classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA traz risco econômico ao Brasil