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PF aponta uso de “linha de montagem” digital para fabricar documentos falsos no Banco Master
Publicado 14/09/2026 • 09:30 | Atualizado há 56 minutos
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Publicado 14/09/2026 • 09:30 | Atualizado há 56 minutos
KEY POINTS
Foto: Reprodução
Caso Banco Master: o que a Polícia Federal consegue descobrir em celulares apreendidos?
A Polícia Federal identificou uma estrutura interna no Banco Master que teria sido usada para produzir, alterar e organizar documentos destinados a dar aparência de legitimidade a operações de crédito consignado negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
Segundo a investigação, o processo reunia dados verdadeiros de clientes, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos pela área de tecnologia, assinaturas digitais e edição de arquivos em PDF.
O material analisado pela PF indica que documentos eram produzidos em escala, combinados com páginas de assinatura de outras operações e, posteriormente, reunidos em dossiês. Em alguns casos, informações capazes de revelar a origem ou a data efetiva de produção dos arquivos teriam sido excluídas.
A investigação relaciona o procedimento a créditos atribuídos à Tirreno Consultoria. De acordo com o portal G1, a empresa teria funcionado como intermediária em cessões fictícias de consignados que somaram R$ 7,15 bilhões. Essas carteiras teriam passado pelo Banco Master antes de serem negociadas com o BRB.
Parte das conclusões consta de um relatório técnico-pericial elaborado a partir de uma apresentação encontrada na área de tecnologia do Banco Master.
O arquivo, chamado “Investigações internas – Banco Master”, tinha 30 slides e registrava trabalhos realizados entre junho e outubro de 2025. Segundo a PF, o conteúdo permitiu reconstruir as etapas usadas para gerar documentos relacionados às cessões de crédito apresentadas ao BRB.
A análise apontou uma sequência organizada: primeiro eram recuperados dados de clientes de operações anteriores; depois, essas informações alimentavam documentos produzidos automaticamente; páginas de assinatura eram separadas e reaproveitadas; datas e referências eram removidas de determinados arquivos; por fim, diferentes peças eram reunidas em um único PDF para compor cada operação.
Segundo a investigação, a produção começava com informações de pessoas que já haviam realizado operações legítimas com o banco, inclusive clientes ligados ao CredCesta, modalidade de crédito voltada a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em julho de 2025, integrantes das áreas de controles e tecnologia trabalharam na identificação de CPFs e na consulta ao banco de dados interno. As informações foram exportadas para uma planilha com dados como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe.
A perícia encontrou ainda conversas internas nas quais funcionários apontavam inconsistências na seleção dessas pessoas. Em uma das discussões, integrantes da equipe observaram que alguns registros não pareciam corresponder ao perfil esperado das operações que estavam sendo montadas.
Para a PF, esses dados verdadeiros funcionavam como ponto de partida para a criação dos documentos que seriam posteriormente apresentados como parte de uma carteira de crédito.
Uma das etapas de maior escala envolveu a produção de procurações. A apuração indica que funcionários utilizaram o recurso de mala direta do Microsoft Word, que permite preencher automaticamente um modelo com informações extraídas de uma planilha.
O procedimento teria sido usado para gerar 2.700 procurações em um único lote em 20 de junho de 2025.
Na prática, um mesmo modelo era reproduzido com os dados de diferentes pessoas. Segundo os investigadores, o uso de uma ferramenta comum de escritório permitia criar rapidamente centenas ou milhares de documentos com estrutura semelhante.
A área de tecnologia também participou do processo. A PF identificou aplicações desenvolvidas em C# e armazenadas em repositórios do próprio banco.
Uma dessas ferramentas tinha como função extrair uma página específica de arquivos em PDF: justamente aquela em que aparecia a assinatura de documentos anteriores. Em um dos conjuntos encontrados, havia mais de 1,8 mil arquivos contendo páginas de assinatura isoladas.
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Essas páginas, segundo a investigação, podiam ser utilizadas na montagem de novos conjuntos documentais.
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Siga o Times | CNBCA produção também envolvia Cédulas de Crédito Bancário, as CCBs. Em junho de 2025, centenas delas foram organizadas para assinatura digital em lote. A perícia verificou que parte dos documentos apresentava datas anteriores ao momento em que a assinatura eletrônica efetivamente havia sido registrada.
Essas diferenças permaneceram registradas nos metadados e certificados digitais, permitindo à Polícia Federal comparar a data exibida no conteúdo do documento com o momento real da assinatura.
Outro ponto destacado pela perícia foi a remoção de informações que poderiam indicar quando os arquivos haviam sido originalmente produzidos.
Em uma conversa analisada pelos investigadores, funcionários discutiram a necessidade de retirar data e horário de determinados Termos de Consentimento. A PF encontrou ao menos um caso em que um documento originalmente datado de fevereiro de 2023 apareceu posteriormente sem essa referência, após uma alteração realizada em julho de 2025.
Embora a informação visual tenha sido eliminada, os registros internos do arquivo permitiram reconstruir sua trajetória.
Para os investigadores, esse tipo de edição tinha importância porque documentos antigos poderiam entrar em conflito com a data atribuída às novas operações que estavam sendo apresentadas.
Depois da produção e das alterações, CCBs, procurações, termos e outros registros eram agrupados para formar um conjunto documental correspondente a cada operação.
A PF identificou o uso do programa PDF24 nessa fase. Arquivos criados ou modificados separadamente eram combinados em um único PDF, estruturando os dossiês que serviriam como documentação dos créditos.
Os investigadores também encontraram tentativas de alterar comprovantes de transferências bancárias. A intenção discutida internamente era retirar referências como número do contrato, identificação do evento e histórico da operação.
Nesse ponto, porém, funcionários relataram dificuldades para realizar modificações em grande escala. Algumas alterações exigiam tratamento individual dos comprovantes, o que limitava a automação do processo.
As comunicações internas analisadas pela Polícia Federal mostram que a preocupação não se restringia à criação dos arquivos.
Quando surgiram dúvidas relacionadas a uma auditoria, integrantes da equipe discutiram como explicar inconsistências encontradas na documentação. Segundo o material periciado, uma das justificativas cogitadas era atribuir os problemas a um erro operacional na seleção dos documentos.
A investigação também identificou o envio de amostras da documentação a integrantes da cúpula do Banco Master. Em junho de 2025, houve pedido para a preparação de um conjunto com centenas de contratos e respectivas assinaturas, segundo os registros analisados pela PF.
Apesar das alterações, a perícia afirma que a estrutura dos próprios arquivos preservou informações relevantes.
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Registros de criação, modificação e assinatura permitiram comparar documentos apresentados como antigos com ações realizadas apenas meses ou anos depois. Certificados digitais, metadados de PDFs, arquivos intermediários e conversas internas também ajudaram a estabelecer a sequência de produção.
A conclusão dos investigadores é que diferentes ferramentas foram usadas de forma complementar: consultas a bases internas forneceram os dados; Word e Excel permitiram produzir documentos em escala; programas desenvolvidos pela equipe técnica separavam páginas; o Adobe Acrobat era utilizado nas assinaturas digitais; e programas de edição e união de PDFs finalizavam os dossiês.
De acordo com a PF, esse conjunto de procedimentos formava uma cadeia de produção destinada a dar suporte documental a créditos que, segundo a investigação, não correspondiam às operações que os arquivos aparentavam representar.
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