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Setor de ferro e aço vê avanço em audiência pública nos EUA, mas alerta que tarifa pode parar 55% das usinas
Publicado 07/07/2026 • 22:15 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 07/07/2026 • 22:15 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
O setor brasileiro de ferro e aço saiu esperançoso do segundo e último dia de audiência pública nos Estados Unidos sobre a proposta de tarifa adicional de 25% contra produtos do Brasil, mas ainda vê risco elevado para a cadeia produtiva caso o ferro-gusa fique fora da lista de exceções.
A avaliação é do Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer-MG), que participou das discussões em Washington no âmbito da investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301.
O principal ponto de atenção para a entidade é o ferro-gusa, matéria-prima usada na produção de aço e ferro fundido. O produto é estratégico para siderúrgicas americanas e tem o Brasil, especialmente Minas Gerais, como fornecedor relevante.
“A gente sai esperançoso. Realmente, o melhor termo é esse”, disse Fausto Varela, presidente do Sindifer-MG, em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC. “Gostaríamos de estar bem otimistas, mas estamos muito esperançosos.”
Segundo ele, a audiência foi positiva para o setor. “Foi bem receptivo, a coisa funcionou bem”, afirmou.
O USTR tem até 15 de julho para decidir se levará adiante a tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, segundo comunicado do órgão.
A estratégia do setor foi tentar mostrar que a tarifa não atingiria apenas exportadores brasileiros, mas que a sobretaxa também poderia elevar custos para a indústria americana do aço, que usa o ferro-gusa brasileiro como insumo.
Segundo Varela, os Estados Unidos são grandes importadores do produto e têm uma relação antiga de fornecimento com o Brasil.
“Existe uma demanda muito grande de ferro-gusa. Os Estados Unidos são importadores de ferro-gusa”, disse.
De acordo com o presidente do Sindifer-MG, o Brasil respondeu por 60% das importações americanas do produto no ano passado.
“No ano passado, das importações totais deles, 60% foi do Brasil. Então isso é muito forte”, afirmou.
Segundo a S&P Global, os Estados Unidos compraram cerca de 3,36 milhões de toneladas de ferro-gusa do Brasil em 2025. Já dados do US Customs indicam que as importações totais americanas do produto somaram 5,3 milhões de toneladas no período. Com isso, o Brasil respondeu por pouco mais de 60% das compras externas dos EUA.
O peso do Brasil na oferta explica a preocupação das siderúrgicas americanas. Segundo a S&P Global, há pouco ou nenhum mercado doméstico disponível de ferro-gusa nos Estados Unidos, já que empresas americanas que produzem o insumo normalmente consomem a própria produção.
A relevância do produto também está ligada ao modelo de produção americano. Mais de 70% do aço produzido nos Estados Unidos vem de fornos elétricos a arco, tecnologia que usa sucata, ferro-gusa e/ou ferro reduzido direto como carga metálica, segundo a associação americana do setor de ferro e aço, a AISI.
Para Varela, substituir rapidamente o fornecimento brasileiro seria difícil. “Eles não conseguem abastecer de outros países. Eles teriam dificuldade de suprir essa falta de oferta”, disse.
Na avaliação do setor, a tarifa reduziria a competitividade do produto brasileiro e pressionaria os custos de empresas americanas que compram esse insumo.
A audiência desta terça-feira (7) também incluiu representantes de empresas e entidades ligadas à indústria americana de metais e aço.
Além do Sindifer-MG, o cronograma do segundo dia previa participações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da Steel Manufacturers Association, da Cleveland-Cliffs e da Steel Dynamics, entre outros nomes da cadeia industrial.
A presença desses representantes reforça que o debate não ficou restrito a uma defesa brasileira. A questão também envolve fabricantes e associações dos Estados Unidos preocupados com o efeito da tarifa sobre custos de produção, competitividade e abastecimento.
Representantes da siderurgia americana também têm defendido isenção para o ferro-gusa importado. A Steel Manufacturers Association, que representa produtores de aço por forno elétrico nos EUA, argumenta que a tarifa sobre o insumo poderia prejudicar a competitividade da própria siderurgia americana.
Leia também: Coca-Cola, Tesla e eBay pedem que EUA não cobrem tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros
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Siga o Times | CNBCO risco para o setor não se limita à tarifa de 25% discutida na investigação específica sobre o Brasil. O ferro-gusa também pode ser alcançado por uma investigação paralela da Seção 301 sobre trabalho forçado.
Nesse processo, o USTR propôs tarifa adicional de 12,5% para produtos de economias que, segundo o órgão, não impõem ou não fiscalizam de forma efetiva a proibição de importações ligadas a trabalho forçado.
Os representantes da siderurgia alertam que a cobrança total poderia chegar a 37,5% sobre o ferro-gusa brasileiro, somando a tarifa de 25% proposta na investigação contra o Brasil e a alíquota adicional de 12,5% discutida no processo sobre trabalho forçado.
O setor afirma que o ferro-gusa brasileiro não foi contemplado na lista preliminar de exceções à tarifa de 25%. Por isso, a meta é convencer o USTR a incluir o produto entre os itens isentos antes da decisão final.
Para o Sindifer-MG, a tarifa teria impacto direto sobre a competitividade das usinas brasileiras. A entidade estima que cerca de 55% das unidades produtoras poderiam paralisar atividades caso as novas tarifas entrem em vigor.
O impacto potencial é especialmente relevante para Minas Gerais. Segundo levantamento do Sindifer-MG divulgado pela Fiemg, o estado concentra 48 usinas e 63 fornos, com capacidade instalada de cerca de 420 mil toneladas por mês. Isso representa aproximadamente 70% da produção nacional.
Sete Lagoas, na região central do estado, é um dos principais polos do setor, com 21 unidades.
Em 2025, a produção nacional de ferro-gusa somou cerca de 5,4 milhões de toneladas. Aproximadamente três quartos desse volume foram destinados à exportação, sendo mais de 80% para os Estados Unidos, segundo o Sindifer-MG.
Entre janeiro e maio de 2026, a produção nacional chegou a cerca de 1,6 milhão de toneladas. Desse total, 80% foram exportados ao mercado americano.
O setor também afirma gerar mais de 60 mil empregos diretos e indiretos em Minas Gerais.
Varela disse que as vendas já contratadas seguem dentro do previsto, com entregas programadas até o início de agosto. Segundo ele, o desempenho do primeiro semestre está levemente acima do registrado no mesmo período do ano passado.
“Nós temos as vendas normais, da forma que estava programada, praticamente equivalente, um pouquinho maior que o ano passado”, disse.
Segundo ele, o problema está nas novas negociações.
“A única coisa é que as negociações para o futuro estão suspensas”, afirmou. “Aquilo que já estava negociado e cuja entrega estamos fazendo agora até o início de agosto segue programado, sem alteração.”
Essa suspensão mostra que o efeito da tarifa já aparece antes mesmo da decisão final. Compradores e produtores aguardam o desfecho em Washington antes de fechar novos contratos.
Leia também: Planalto acusa Flávio Bolsonaro de legitimar tarifa dos EUA contra o Brasil
Durante a audiência, os setores inscritos tiveram cinco minutos para apresentar seus argumentos. Segundo Varela, a exposição do setor de ferro e aço foi bem recebida.
“Não houve contestação”, disse. “A exposição foi muito boa, as perguntas foram todas respondidas.”
O presidente do Sindifer-MG afirmou que produtores de aço nos Estados Unidos também têm interesse na exclusão do produto da sobretaxa, porque seriam afetados pelo aumento de custos.
“Os produtores de aço, que são nossos clientes lá nos Estados Unidos, também têm interesse muito grande em que continue, que não seja sobretaxado, porque realmente aumentaria o custo deles”, afirmou.
Varela disse acreditar que o governo americano pode avaliar produtos ou setores de forma separada, e não apenas tomar uma decisão única para toda a pauta exportadora brasileira.
Segundo ele, o ideal seria uma decisão ampla que beneficiasse todos os setores brasileiros, mas a dinâmica da audiência abre espaço para análises individualizadas ou por grupos de produtos semelhantes.
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