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Inveja: a emoção proibida do mundo corporativo que corrói decisões, lideranças e culturas empresariais
Publicado 02/02/2026 • 11:37 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 02/02/2026 • 11:37 | Atualizado há 3 horas
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A inveja é um dos sentimentos mais negados do ambiente corporativo e, paradoxalmente, um dos mais presentes. Pouco nomeada, raramente discutida de forma aberta, ela atravessa relações profissionais, influencia decisões e molda comportamentos que vão da ansiedade silenciosa à sabotagem explícita. Para o psiquiatra Isaac Efraim e para a neurocientista Daiana Petry, ignorar esse fenômeno é um erro estratégico e humano.
“A inveja é um sentimento subestimado no mundo de forma geral. As pessoas não falam dela, não assumem e, muitas vezes, nem percebem que estão dominadas por ela”, afirma o psiquiatra. Segundo ele, não se trata apenas de um problema restrito ao trabalho, mas de um traço emocional amplamente presente na sociedade e, justamente por isso, difícil de ser reconhecido.
Do ponto de vista da neurociência, a explicação começa no chamado cérebro social. “A inveja não é um desvio moral, é uma resposta neurobiológica automática à comparação social”, explica Daiana Petry. Ambientes corporativos organizados em torno de métricas, status e reconhecimento ativam circuitos cerebrais ligados à dor social, especialmente o córtex cingulado anterior. “O cérebro interpreta a superioridade do outro como uma ameaça ao próprio valor”, diz.
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Essa ameaça não precisa ser explícita. Rankings, metas agressivas e comparações permanentes tornam o desconforto estrutural. “Quando a comparação é institucionalizada, ela deixa de ser episódica e se torna crônica. O cérebro não foi projetado para sustentar esse nível contínuo de avaliação social”, afirma Daiana. O resultado é aumento de cortisol, sensação persistente de insegurança emocional e ruminação constante.
Na prática clínica, Isaac Efraim observa que o problema surge quando o sentimento deixa de ser pontual. “O objeto da inveja não sai da cabeça. A pessoa passa a sentir um ódio crônico, alimentado por implicância, raiva e até desejo de destruir”, relata. Ansiedade, depressão e sofrimento psíquico se intensificam, mas, para ele, o sintoma mais marcante é outro. “O pior sintoma da inveja é a raiva”.
A neurocientista descreve esse mesmo processo por outro ângulo. “Quando a inveja não é elaborada, o sistema límbico ganha predominância sobre o córtex pré-frontal. A pessoa reage mais por ameaça do que por estratégia”, explica. É nesse ponto que surgem comportamentos como sabotagem, desqualificação do outro e rupturas relacionais, muitas vezes invisíveis à gestão.
Ambientes altamente competitivos potencializam esse ciclo. “O ambiente competitivo faz a pessoa viver em estado de alerta permanente, gastando uma energia psíquica que leva ao sofrimento mental”, afirma Efraim. Para ele, a linha entre estímulo saudável e comparação destrutiva está no foco. “Competir para melhorar a própria performance é saudável. Competir para ganhar do outro, não”.
A queda de um colega bem-sucedido também revela muito sobre o funcionamento emocional nas empresas. Daiana explica que o prazer diante do fracasso alheio, a schadenfreude, tem base neurológica. “Quando alguém que ocupava posição superior cai, ocorre ativação do estriado ventral, ligado ao sistema de recompensa. O cérebro interpreta a redução da ameaça social como alívio”, afirma. Não se trata de maldade consciente, mas de um mecanismo automático de monitoramento de status.
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As redes sociais profissionais amplificam esse efeito. “O LinkedIn é o Instagram profissional”, resume Efraim. “As pessoas expõem suas melhores conquistas, e quem está vivendo uma dificuldade fica mais propenso à comparação.” Daiana reforça. “O cérebro não diferencia plenamente o real do digital. Ele reage às imagens de sucesso editado como se fossem comparações concretas”.
Para ambos, a inveja não é um problema moral, mas um fenômeno humano que exige manejo. “Todo mundo sente inveja, sem exceção. O problema é o nível, o tempo de permanência e o quanto isso passa a dominar a pessoa”, afirma o psiquiatra. Segundo ele, o caminho está na mudança de mentalidade. “O verdadeiro instrumento de poder é ser competente e buscar fazer o seu melhor”.
Do lado organizacional, Daiana destaca o papel decisivo da liderança. “Culturas baseadas em medo e escassez ativam circuitos de ameaça. Já ambientes de segurança psicológica reduzem a reatividade emocional e favorecem o aprendizado”, afirma. Ignorar essa dimensão custa caro. A produtividade cai, a colaboração se perde e conflitos silenciosos corroem resultados.
No fim, a inveja não desaparece, mas pode ser compreendida. Quando reconhecida, deixa de operar nos bastidores e passa a ser um sinal. Um radar emocional que, mal interpretado, adoece. Bem elaborado, pode apontar caminhos mais humanos, estratégicos e sustentáveis para o mundo do trabalho.
Alexandre Hercules é editor-chefe do Portal Brazil Health (www.brazilhealth.com)
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