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De volta à nave, Xuxa revela o poder bilionário da indústria da nostalgia

Publicado 15/08/2026 • 11:50 | Atualizado há 2 horas

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Semanalmente, Michaele Gasparini destrincha um dos principais temas da indústria de mídia na semana. Nada passa despercebido ao olhar da colunista: tudo o que movimenta o mercado e rende milhões de dólares em publicidade nas emissoras de televisão e nas plataformas de streaming estará aqui.

Xuxa

Reprodução/ Instagram

A turnê O Último Voo da Nave, anunciada por Xuxa Meneghel para 2026, coloca a nostalgia no centro de uma operação comercial que ultrapassa o palco. O projeto se apoia na memória afetiva do público que acompanhou a apresentadora desde os anos 1980, mas chega ao mercado como um produto contemporâneo. Ingressos, patrocínios, produtos licenciados e experiências especiais ajudam a transformar lembranças em uma cadeia de consumo.

A dimensão financeira aparece nos preços praticados. Segundo informações divulgadas na abertura das vendas, entradas para apresentações da turnê chegaram a variar de cerca de R$ 195 a R$ 1.495, conforme setor e modalidade. Experiências especiais elevaram o tíquete para milhares de reais em determinados pacotes. A estratégia mostra que O Último Voo da Nave não depende apenas da quantidade de espectadores, mas também do gasto médio por consumidor.

A estimativa de público, porém, precisa ser tratada com cautela. Sem um balanço final da turnê, qualquer número agregado depende da capacidade das arenas, da configuração adotada em cada cidade e da quantidade efetiva de apresentações. Casas com capacidade para milhares de pessoas permitem projetar dezenas de milhares de espectadores ao longo do calendário. Isso não equivale, contudo, a público confirmado nem permite calcular faturamento multiplicando capacidade pelo ingresso mais caro.

O modelo usado por Xuxa acompanha uma tendência que ganhou espaço na indústria criativa brasileira: transformar repertórios conhecidos em eventos premium. O consumidor não compra apenas o acesso a um show. Produtos, áreas diferenciadas, experiências e ativações comerciais elevam o valor econômico de propriedades intelectuais construídas décadas atrás. Nesse cenário, a nostalgia funciona como ferramenta de aquisição de público e reduz parte do desafio de apresentar uma marca desconhecida ao mercado.

Esse movimento ajuda a explicar por que projetos nostálgicos conseguem movimentar milhões de reais mesmo sem depender exclusivamente das bilheterias. Uma produção de arena aciona empresas de cenografia, iluminação, vídeo, figurino, transporte, segurança, alimentação, hospedagem, publicidade e venda de produtos. Patrocinadores e licenciados também entram nessa engrenagem. Portanto, o dinheiro associado ao espetáculo circula por diferentes segmentos da economia criativa antes e depois da apresentação propriamente dita.

No caso de O Último Voo da Nave, o próprio nome reforça o valor comercial de símbolos associados à carreira de Xuxa. A nave, elemento ligado aos programas infantis comandados pela artista, funciona como um ativo de memória reconhecido pelo público. A turnê pode monetizar essa identificação por meio da bilheteria e de produtos derivados. O mecanismo mostra como arquivos, músicas, personagens, objetos e marcas antigas podem ganhar nova vida econômica décadas depois.

A disposição do público para pagar mais por experiências relacionadas à juventude também sustenta esse mercado. Quem acompanhou Xuxa na infância hoje pertence majoritariamente a uma faixa adulta, com autonomia financeira diferente daquela dos telespectadores que dependiam dos pais para consumir discos e brinquedos. A indústria passa, assim, a oferecer experiências destinadas diretamente a essa geração, com preços e serviços compatíveis com um evento de grande porte e diferentes categorias de acesso.

Há ainda um componente de escassez no posicionamento de uma turnê apresentada como despedida. A comunicação de um último espetáculo cria um acontecimento com prazo definido e transforma a compra do ingresso em oportunidade limitada. Esse recurso comercial não pertence apenas ao universo de Xuxa: reencontros, despedidas, celebrações de aniversários e retomadas de repertórios antigos passaram a ocupar espaço relevante no entretenimento ao vivo e na disputa pelo orçamento do consumidor.

Por isso, a relevância econômica de O Último Voo da Nave não pode ser medida apenas pela receita potencial das entradas. A turnê exemplifica uma indústria que converte propriedade intelectual, memória televisiva e música em produtos presenciais capazes de gerar receitas em várias frentes.

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