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Guilherme Carter

Por que vale ler a carta de maio da Adam Capital

Publicado 29/06/2026 • 12:10 | Atualizado há 3 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

Adam Capital

Adam Capital

Gestora de Marcio Appel defende dólar e tecnologia americana, vendida em Ibovespa e euro

A Adam Capital não esconde o jogo na carta de maio: está comprada em ações americanas do setor de tecnologia, vendida na bolsa brasileira e no euro, e tomada em inflação implícita. São quatro apostas que, juntas, desenham uma visão de mundo — os Estados Unidos como vencedores da corrida tecnológica e o Brasil como uma economia que cresce na base de “esteroides” fiscais no curto prazo, mas se fragiliza no longo. A carta é o roteiro que liga esse posicionamento a um diagnóstico. E vale a leitura justamente por isso.

Fonte: Carta de Gestão Adam Capital – maio 2026 (“O valor intrínseco dos ativos”) – Elaboração: Equipe da Plataforma DataBay

A maioria das cartas de gestão é esquecível: muito diagnóstico, pouco risco e nenhuma posição que comprometa quem assina. A carta de maio da Adam Capital é o oposto. Sob o título “O valor intrínseco dos ativos”, Marcio Appel e sua equipe cravam teses fortes o bastante para valerem o seu tempo, mesmo — ou especialmente — quando incomodam. A ideia que costura o documento é simples e ambiciosa: depois de mais de uma década de dinheiro barato, um ambiente prolongado de juros altos estaria forçando o mercado a voltar a olhar para o que gera caixa de verdade. Quem tem lucro real sobe; quem depende de narrativa, cai. É dessa premissa que nascem todas as apostas da casa.

O primeiro motivo para ler é o ponto de partida, raro numa carta brasileira. A Adam ancora a análise na Escola Austríaca de economia: juros artificialmente baixos distorcem a preferência temporal e financiam o que chamam de malinvestment — projetos que só se sustentam enquanto o dinheiro é grátis. Para a gestora, a verdadeira anomalia não são os juros de hoje, e sim o longo período de taxas deprimidas entre 2011 e 2022. A consequência prática dessa lente é direta: ao subir, o juro pune as empresas que não geram caixa e premia as que geram hoje, caso das grandes empresas de tecnologia à frente da IA, destacadas por seus balanços sólidos e forte geração de caixa. Concorde-se ou não com a teoria, ela dá ao texto uma coerência interna que falta à maioria dos relatórios de conjuntura.

Desse alicerce parte a convicção global da carta: a de que os Estados Unidos são o polo dinâmico da fronteira tecnológica. A gestora sustenta que o PIB nominal americano cresce acima de Europa e China desde 2021 — e que os números oficiais até subestimam o avanço, no chamado "PIB fantasma", conceito que a carta credita a estudos de think tanks como o Brookings Institution e que liga essa subestimação à subnotificação dos investimentos em IA. Para medir a força da demanda, a gestora usa o Employment Cost Index (ECI) como proxy para a expansão da renda. Livre de distorções estatísticas de outros indicadores, o ECI rodando perto de 4% ao ano chancela, para a Adam, a tese de que a demanda agregada americana segue resiliente. Sobre inflação e juros de curto prazo, a carta admite névoa, com forças inflacionárias — gastos militares, energia, o choque inicial de demanda da IA — disputando espaço com vetores deflacionários, como a produtividade que a própria IA tende a trazer adiante. A aposta firme recai sobre os juros longos, que a casa vê sob pressão de alta contínua à medida que o setor de tecnologia suga volumes inéditos de capital nos mercados de renda fixa.

É quando vira o olhar para o Brasil, porém, que a carta fica mais cortante — e aí está o segundo motivo para lê-la. A Adam vê o crescimento de 1,1% do PIB no primeiro trimestre movido pelo que chama de “esteroides” fiscais e parafiscais. O impulso fiscal real, somadas as operações que correm fora do orçamento, poderia superar 2% do PIB e, na prática, anular o aperto monetário. O diagnóstico estrutural é ainda mais severo: excluído o agronegócio, a estimativa de PIB potencial despencaria para perto de zero, com a produtividade do trabalho em queda — agravada, na visão da casa, por pautas como a redução da jornada semanal e o fim da escala 6x1. Daí a conclusão do texto, a de que o Banco Central errou ao cortar juros e que a Selic não deveria ter caído abaixo de 15%. O recado político vem em tom quase de aviso: Brasília seguiria anestesiada pelo câmbio ao redor de R$ 5, reagindo apenas quando o estresse cambial se torna agudo.

O terceiro motivo para ler é a rara honestidade de fechar o raciocínio em posições explícitas, sem se esconder atrás do diagnóstico. Tudo converge para quatro apostas: comprado em tecnologia americana e em dólar, vendido em Ibovespa e em euro, e tomado em inflação implícita. A posição vendida no euro vem acompanhada de uma analogia reveladora — a Europa drenando capital para os Estados Unidos como nos anos 1990 da internet —, e a compra de dólar funciona em dois papéis ao mesmo tempo: tese de valorização e seguro do portfólio para momentos de aversão a risco.

Ler, claro, não é concordar. A carta traz a visão da própria gestora, e alguns de seus pontos são objeto de debate. O documento descreve um portfólio alinhado aos cenários que apresenta, então diagnóstico e posicionamento andam juntos. Alguns números também são estimativas da casa, e não dados oficiais — caso do "PIB fantasma" e da inflação subjacente perto de 6. Vale lembrar, ainda, que parte do mercado segue em direção oposta: casas como BTG e UBS vêm trabalhando com um dólar mais fraco — o BTG projeta o câmbio perto de R$ 4,90 no fim de 2026, e o UBS vê fraqueza prolongada do dólar, inclusive um euro mais forte —, ao contrário da aposta da Adam, que está comprada em dólar e vendida em euro.

Mesmo assim, vale a leitura — e justamente por ser desconfortável. É um texto que assume o ônus de cada convicção, encadeia dados e termina em posições que podem custar caro se estiverem erradas. Para quem está otimista com o Brasil, serve como o melhor tipo de leitura possível: a que obriga o investidor a defender a própria tese contra o argumento mais bem construído do outro lado. No fim, é disso que a carta trata. Ela não pede que você concorde. Pede que você pare de olhar apenas para a tendência de curto prazo e volte a perguntar quanto, de fato, cada ativo vale.

Texto baseado na Carta de Gestão da Adam Capital de maio de 2026 (“O valor intrínseco dos ativos”). As projeções e estimativas descritas são da própria gestora e não constituem consenso de mercado nem recomendação de investimento. Referências macro: Banco Central do Brasil, IBGE, Federal Reserve e Plataforma DataBay.

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