Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Por que vale ler a carta de maio da Adam Capital
Publicado 29/06/2026 • 12:10 | Atualizado há 2 meses
Nvidia afirma que os racks Groq estarão online ainda este ano, após compra por US$ 20 bilhões
Sócio da Goldman Sachs teme que IA prejudique formação de nova geração de banqueiros
Criptomoedas ampliam ganhos após maior alta em três dias desde 2023
Governo Trump anuncia plano global de sanções contra o Irã e indica que China não ficará isenta
Procurador-geral da Califórnia acusa Paramount de agir de má-fé e cancela reunião sobre fusão com Warner Bros.
Publicado 29/06/2026 • 12:10 | Atualizado há 2 meses
Adam Capital
Gestora de Marcio Appel defende dólar e tecnologia americana, vendida em Ibovespa e euro
A Adam Capital não esconde o jogo na carta de maio: está comprada em ações americanas do setor de tecnologia, vendida na bolsa brasileira e no euro, e tomada em inflação implícita. São quatro apostas que, juntas, desenham uma visão de mundo — os Estados Unidos como vencedores da corrida tecnológica e o Brasil como uma economia que cresce na base de “esteroides” fiscais no curto prazo, mas se fragiliza no longo. A carta é o roteiro que liga esse posicionamento a um diagnóstico. E vale a leitura justamente por isso.

Fonte: Carta de Gestão Adam Capital – maio 2026 (“O valor intrínseco dos ativos”) – Elaboração: Equipe da Plataforma DataBay
A maioria das cartas de gestão é esquecível: muito diagnóstico, pouco risco e nenhuma posição que comprometa quem assina. A carta de maio da Adam Capital é o oposto. Sob o título “O valor intrínseco dos ativos”, Marcio Appel e sua equipe cravam teses fortes o bastante para valerem o seu tempo, mesmo — ou especialmente — quando incomodam. A ideia que costura o documento é simples e ambiciosa: depois de mais de uma década de dinheiro barato, um ambiente prolongado de juros altos estaria forçando o mercado a voltar a olhar para o que gera caixa de verdade. Quem tem lucro real sobe; quem depende de narrativa, cai. É dessa premissa que nascem todas as apostas da casa.
O primeiro motivo para ler é o ponto de partida, raro numa carta brasileira. A Adam ancora a análise na Escola Austríaca de economia: juros artificialmente baixos distorcem a preferência temporal e financiam o que chamam de malinvestment — projetos que só se sustentam enquanto o dinheiro é grátis. Para a gestora, a verdadeira anomalia não são os juros de hoje, e sim o longo período de taxas deprimidas entre 2011 e 2022. A consequência prática dessa lente é direta: ao subir, o juro pune as empresas que não geram caixa e premia as que geram hoje, caso das grandes empresas de tecnologia à frente da IA, destacadas por seus balanços sólidos e forte geração de caixa. Concorde-se ou não com a teoria, ela dá ao texto uma coerência interna que falta à maioria dos relatórios de conjuntura.
Desse alicerce parte a convicção global da carta: a de que os Estados Unidos são o polo dinâmico da fronteira tecnológica. A gestora sustenta que o PIB nominal americano cresce acima de Europa e China desde 2021 — e que os números oficiais até subestimam o avanço, no chamado "PIB fantasma", conceito que a carta credita a estudos de think tanks como o Brookings Institution e que liga essa subestimação à subnotificação dos investimentos em IA. Para medir a força da demanda, a gestora usa o Employment Cost Index (ECI) como proxy para a expansão da renda. Livre de distorções estatísticas de outros indicadores, o ECI rodando perto de 4% ao ano chancela, para a Adam, a tese de que a demanda agregada americana segue resiliente. Sobre inflação e juros de curto prazo, a carta admite névoa, com forças inflacionárias — gastos militares, energia, o choque inicial de demanda da IA — disputando espaço com vetores deflacionários, como a produtividade que a própria IA tende a trazer adiante. A aposta firme recai sobre os juros longos, que a casa vê sob pressão de alta contínua à medida que o setor de tecnologia suga volumes inéditos de capital nos mercados de renda fixa.
É quando vira o olhar para o Brasil, porém, que a carta fica mais cortante — e aí está o segundo motivo para lê-la. A Adam vê o crescimento de 1,1% do PIB no primeiro trimestre movido pelo que chama de “esteroides” fiscais e parafiscais. O impulso fiscal real, somadas as operações que correm fora do orçamento, poderia superar 2% do PIB e, na prática, anular o aperto monetário. O diagnóstico estrutural é ainda mais severo: excluído o agronegócio, a estimativa de PIB potencial despencaria para perto de zero, com a produtividade do trabalho em queda — agravada, na visão da casa, por pautas como a redução da jornada semanal e o fim da escala 6x1. Daí a conclusão do texto, a de que o Banco Central errou ao cortar juros e que a Selic não deveria ter caído abaixo de 15%. O recado político vem em tom quase de aviso: Brasília seguiria anestesiada pelo câmbio ao redor de R$ 5, reagindo apenas quando o estresse cambial se torna agudo.
O terceiro motivo para ler é a rara honestidade de fechar o raciocínio em posições explícitas, sem se esconder atrás do diagnóstico. Tudo converge para quatro apostas: comprado em tecnologia americana e em dólar, vendido em Ibovespa e em euro, e tomado em inflação implícita. A posição vendida no euro vem acompanhada de uma analogia reveladora — a Europa drenando capital para os Estados Unidos como nos anos 1990 da internet —, e a compra de dólar funciona em dois papéis ao mesmo tempo: tese de valorização e seguro do portfólio para momentos de aversão a risco.
Ler, claro, não é concordar. A carta traz a visão da própria gestora, e alguns de seus pontos são objeto de debate. O documento descreve um portfólio alinhado aos cenários que apresenta, então diagnóstico e posicionamento andam juntos. Alguns números também são estimativas da casa, e não dados oficiais — caso do "PIB fantasma" e da inflação subjacente perto de 6. Vale lembrar, ainda, que parte do mercado segue em direção oposta: casas como BTG e UBS vêm trabalhando com um dólar mais fraco — o BTG projeta o câmbio perto de R$ 4,90 no fim de 2026, e o UBS vê fraqueza prolongada do dólar, inclusive um euro mais forte —, ao contrário da aposta da Adam, que está comprada em dólar e vendida em euro.
Mesmo assim, vale a leitura — e justamente por ser desconfortável. É um texto que assume o ônus de cada convicção, encadeia dados e termina em posições que podem custar caro se estiverem erradas. Para quem está otimista com o Brasil, serve como o melhor tipo de leitura possível: a que obriga o investidor a defender a própria tese contra o argumento mais bem construído do outro lado. No fim, é disso que a carta trata. Ela não pede que você concorde. Pede que você pare de olhar apenas para a tendência de curto prazo e volte a perguntar quanto, de fato, cada ativo vale.
Texto baseado na Carta de Gestão da Adam Capital de maio de 2026 (“O valor intrínseco dos ativos”). As projeções e estimativas descritas são da própria gestora e não constituem consenso de mercado nem recomendação de investimento. Referências macro: Banco Central do Brasil, IBGE, Federal Reserve e Plataforma DataBay.
Leia outras colunas de Guilherme Carter.
Maiores Audiências
1
Anel de R$ 6 milhões dado à atriz Marina Ruy Barbosa integra disputa judicial de família dona da Marabraz
2
Novo iPhone 18 Pro: veja o que muda no celular da Apple
3
Quem são os credores da Casas Bahia?
4
O preço invisível do “risco zero”
5
Braskem entra com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 54 bilhões