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Agentes de IA: o fim dos silos ou uma nova disputa pelo poder?
Publicado 09/10/2026 • 21:19 | Atualizado há 22 horas
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Publicado 09/10/2026 • 21:19 | Atualizado há 22 horas
Imagine uma empresa industrial diante de uma oportunidade comercial importante. O cliente precisa de volumes expressivos, prazos reduzidos e condições competitivas. Comercial identifica o potencial do negócio, mas Produção alerta para limitações de capacidade. Suprimentos aponta riscos de abastecimento, Logística questiona os prazos e Finanças demonstra preocupação com as margens e o capital de giro.
As discussões avançam, novas análises são solicitadas e a decisão se prolonga. Cada departamento apresenta argumentos legítimos, sustentados por seus próprios indicadores e responsabilidades. Ainda assim, a empresa pode perder uma oportunidade economicamente vantajosa.
Essa situação revela uma contradição conhecida da administração: uma organização pode reunir profissionais competentes, processos estruturados e sistemas integrados sem conseguir coordenar adequadamente suas decisões.
Durante décadas, procuramos superar essas dificuldades redesenhando estruturas, implantando tecnologias e criando mecanismos de integração. Os avanços foram importantes, mas as fronteiras departamentais continuam influenciando profundamente o funcionamento das empresas.
Agora, a inteligência artificial agêntica oferece novas possibilidades para transformar essa realidade. Ao mesmo tempo, coloca uma questão desconfortável: estamos preparados para modificar as relações de poder e autoridade que sustentam a fragmentação organizacional?
Em artigo publicado na edição de setembro–outubro de 2026 da Harvard Business Review, Kris Johnson Ferreira, da Harvard Business School, e Jordan Tong, da Wisconsin School of Business, discutem como agentes de IA podem coordenar atividades entre diferentes funções empresariais.
A contribuição é relevante porque desloca o foco da produtividade individual para a coordenação do trabalho que atravessa toda a organização.
Até recentemente, grande parte das aplicações de inteligência artificial buscava acelerar atividades específicas. A IA agêntica amplia esse horizonte ao permitir que sistemas inteligentes acessem diferentes fontes de informação, identifiquem restrições, avaliem alternativas e executem atividades interdependentes, dentro de limites definidos de autonomia e supervisão humana.
Na situação industrial descrita anteriormente, agentes poderiam trabalhar de maneira coordenada para avaliar a capacidade produtiva, verificar estoques, antecipar restrições de suprimentos, simular alternativas logísticas e calcular os impactos financeiros de diferentes compromissos comerciais.
O que antes dependia de sucessivas transferências de informações e negociações entre áreas poderia ser conduzido como um fluxo integrado, articulando análises, decisões e atividades em torno do resultado empresarial.
Essa possibilidade representa mais do que um ganho de velocidade. Ela questiona uma premissa histórica da administração: a de que o trabalho precisa ser coordenado predominantemente por estruturas verticais, nas quais cada departamento administra uma parte do processo.
A tecnologia começa a permitir que a organização seja pensada a partir de suas interdependências, e não apenas de suas divisões funcionais.
Uma das contradições mais persistentes da gestão empresarial é que a eficiência dos departamentos não garante o bom desempenho da organização.
Comercial procura ampliar receitas, Produção busca produtividade, Suprimentos negocia menores preços e Finanças controla despesas e capital de giro. São objetivos legítimos, mas que podem produzir resultados conflitantes quando perseguidos isoladamente.
Uma compra aparentemente vantajosa pode elevar estoques e custos financeiros. Uma programação industrial orientada à máxima utilização dos equipamentos pode comprometer prazos de entrega. Uma política comercial concentrada em volumes pode deteriorar margens ou sobrecarregar a operação.
Assim, executivos podem cumprir suas metas enquanto a empresa perde rentabilidade, competitividade e capacidade de resposta ao mercado.
A inteligência agêntica pode ajudar a superar essa fragmentação ao permitir que decisões sejam avaliadas considerando seus efeitos sobre toda a cadeia de valor. Entretanto, identificar a alternativa economicamente mais consistente não significa garantir que ela seja adotada.
Se determinada decisão beneficiar a empresa, mas prejudicar o indicador de um departamento, quem assumirá a responsabilidade? Como será avaliado o executivo que aceitar uma perda local para produzir um ganho global?
Essas perguntas revelam que os silos não são sustentados apenas por estruturas e processos. Sua permanência também está relacionada à maneira como distribuímos responsabilidades, reconhecemos resultados e exercemos autoridade.
Ao longo da minha experiência em transformações organizacionais, tenho observado que os silos também representam espaços de identidade, pertencimento, vínculos, proteção e poder.
Para um executivo, seu departamento pode constituir muito mais do que uma responsabilidade funcional. Nele estão sua história profissional, seu reconhecimento, suas relações de confiança e parte da segurança construída ao longo da carreira.
Quando uma transformação modifica as fronteiras de decisão, não altera somente processos. Pode provocar sentimentos de perda de autonomia, exposição de fragilidades e ameaça à própria relevância profissional.
Essas dinâmicas integram aquilo que denomino Campo Psicodinâmico da Vida Organizacional, constituído por forças emocionais, relacionais e simbólicas, muitas vezes inconscientes, que influenciam comportamentos e decisões coletivas.
Por essa perspectiva, a resistência à integração nem sempre representa oposição deliberada aos interesses da empresa. Um dirigente pode reconhecer racionalmente a necessidade de colaboração e, simultaneamente, encontrar dificuldades para abandonar formas de controle que lhe proporcionam segurança.
O conflito pode aparecer em discussões aparentemente técnicas, exigências sucessivas, adiamentos e disputas sobre responsabilidades. Nem sempre aquilo que está em jogo corresponde ao que se declara nas reuniões.
A inteligência artificial poderá tornar mais transparentes as interdependências e contradições existentes. Mas essa transparência também poderá expor tensões que a organização aprendeu, ao longo do tempo, a evitar.
A possibilidade de coordenar processos por meio de agentes inteligentes traz consequências que ultrapassam os ganhos de produtividade. À medida que informações passam a circular entre diferentes funções e decisões podem ser tomadas mais próximas de onde os problemas acontecem, começam a ser questionados os mecanismos tradicionais de autoridade, controle e distribuição de responsabilidades.
Essa transformação não significa, necessariamente, uma organização mais descentralizada. A mesma tecnologia que amplia a autonomia das equipes pode oferecer à alta administração instrumentos cada vez mais sofisticados de supervisão e intervenção. Uma empresa pode tornar seus processos mais integrados e, paradoxalmente, concentrar ainda mais suas decisões.
É nesse contexto que o papel do CEO adquire uma nova dimensão. Sua responsabilidade não estará apenas em assegurar investimentos tecnológicos ou estabelecer mecanismos de governança, mas em compreender como essas novas capacidades poderão modificar a própria dinâmica de funcionamento da organização.
Isso implica rever a forma como responsabilidades são distribuídas, resultados são avaliados e conflitos entre objetivos departamentais são resolvidos. Afinal, pouco adiantará estabelecer processos integrados se os executivos continuarem sendo reconhecidos exclusivamente pelos resultados de suas áreas, ou ampliar a autonomia tecnológica se as decisões permanecerem dependentes da aprovação da alta liderança.
Há também uma dimensão menos evidente. Compartilhar decisões significa compartilhar influência, aceitar maior transparência e reconhecer que parte da autoridade anteriormente associada ao domínio de informações poderá ser exercida de outra maneira. Essas mudanças podem provocar resistências mesmo entre dirigentes genuinamente comprometidos com a transformação.
O desafio do CEO será, portanto, construir as condições para que a inteligência produzida pela tecnologia se converta em capacidade coletiva de decisão, sem transformar a integração em mais uma forma de centralização.
À medida que os agentes de IA se disseminarem, o acesso à tecnologia, isoladamente, dificilmente será suficiente para sustentar uma vantagem competitiva. Empresas com recursos tecnológicos semelhantes poderão apresentar desempenhos muito diferentes, dependendo da maneira como organizarem seus processos, suas decisões e suas relações de trabalho.
A diferença estará na capacidade de transformar a inteligência disponível em resultados empresariais. Isso exigirá processos orientados ao fluxo completo de geração de valor, mecanismos de governança que reconheçam as interdependências e lideranças capazes de administrar interesses que nem sempre convergem naturalmente.
Mas exigirá também enfrentar aquilo que os sistemas não conseguem modificar por si mesmos: os vínculos, as relações de poder, os mecanismos de proteção e os pactos silenciosos que influenciam o comportamento organizacional.
É nessa articulação entre a arquitetura visível e o lado invisível da organização que reside uma parte decisiva do desafio. Podemos redesenhar processos, integrar sistemas e criar novas formas de coordenação, mas os resultados continuarão limitados se os padrões de relacionamento e de exercício da autoridade permanecerem inalterados.
Estamos diante de uma mudança de época na administração. Pela primeira vez, tecnologias inteligentes começam a oferecer possibilidades de coordenação que desafiam a maneira como as organizações foram historicamente estruturadas. A questão central já não será apenas o que essas tecnologias conseguem realizar, mas até onde as empresas estarão dispostas a transformar seu próprio funcionamento para aproveitar esse potencial.
A inteligência artificial agêntica poderá reduzir significativamente as barreiras operacionais entre departamentos. Contudo, a superação dos silos dependerá de algo que permanece profundamente humano: a capacidade de reconhecer interdependências, compartilhar responsabilidades e reconstruir relações de confiança e autoridade.
O futuro da integração organizacional não será determinado apenas pela inteligência dos agentes, mas pela maturidade das lideranças para transformar a maneira como o poder é exercido e o trabalho coletivo é conduzido.
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