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A eleição passa. Quem fica à mesa?
Publicado 01/11/2026 • 14:34 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 01/11/2026 • 14:34 | Atualizado há 2 horas
Uma cadeira vazia no almoço de domingo. Um aniversário sem telefonema. Irmãos que já não se procuram. Pais e filhos que conversam pisando em ovos. No meio disso tudo, uma eleição. E uma pergunta que parece ter desaparecido: em que momento discordar passou a significar deixar de amar?
A política importa. Nossas escolhas têm consequências e expressam valores, expectativas e visões de mundo. É natural que despertem emoções. Mas há algo doloroso acontecendo quando o voto de alguém começa a apagar toda a história que construímos com essa pessoa. O irmão deixa de ser aquele que esteve ao nosso lado numa dificuldade. A mãe deixa de ser quem nos acolheu. Aos poucos, cada um passa a ser identificado pelo candidato que escolheu.
Um vínculo, porém, carrega muito mais do que uma opinião. Carrega o que vivemos juntos, a confiança construída ao longo dos anos, a certeza de que podemos procurar alguém quando a vida aperta. Há uma intimidade feita de pequenos gestos: saber como o outro toma café, reconhecer sua voz quando está preocupado, perceber que seu silêncio pede companhia. Tudo isso merece cuidado, inclusive quando discordamos profundamente.
Quando perdemos essa dimensão, a conversa vira um julgamento. Já não perguntamos para compreender; perguntamos para encontrar a contradição. Ouvimos preparando a resposta. Compartilhamos um vídeo esperando que o outro, finalmente, reconheça o próprio erro. E, quando ele não reconhece, aumentamos o tom. Como se a humilhação pudesse produzir entendimento.
Talvez uma parte dessa briga venha da dificuldade de aceitar que alguém tão próximo enxergue o mundo de maneira tão diferente. Esperamos encontrar na família uma confirmação de quem somos. Por isso, a divergência pode ser sentida como deslealdade: “Como você, que cresceu comigo, pode pensar assim?”. O desacordo político toca, então, numa necessidade mais profunda de reconhecimento e pertencimento.
Mas o pertencimento se torna frágil quando depende de concordância. Se o outro precisa pensar como eu para continuar sendo acolhido, que espaço resta para que ele seja quem é? A proximidade exige que aceitemos algo desconfortável: mesmo as pessoas que amamos têm uma história, experiências e escolhas que não controlamos.
É nesse ponto que me vem “Paciência”, de Lenine e Dudu Falcão. No meio da pressa e do ruído, a canção nos devolve uma percepção que a irritação costuma encobrir: “A vida é tão rara”.
Rara demais para tratarmos cada encontro como a última oportunidade de vencer uma discussão.
A paciência de que precisamos começa no intervalo entre sentir raiva e ferir alguém. Na possibilidade de dizer “discordo profundamente” sem acrescentar uma ofensa. Na disposição de interromper uma conversa que perdeu o respeito e retomá-la quando houver condições de escuta. Conviver também exige limites: ninguém precisa aceitar humilhação ou ameaça para preservar a aparência de harmonia.
Cuidar do vínculo pode começar com uma frase simples: “Você é importante para mim, mesmo quando discordamos”. Pode ser um telefonema depois de uma conversa difícil, um pedido de desculpas pela maneira de falar, um convite para o próximo almoço. Pedir desculpas por ter ferido alguém não exige renunciar às próprias convicções. Exige reconhecer que somos responsáveis pelo que fazemos com elas.
Esses gestos não resolvem todas as diferenças, mas abrem espaço para que a relação continue. Para que ainda se possa perguntar pela saúde, oferecer ajuda ou compartilhar uma alegria sem transformar cada conversa numa prova de lealdade política. Nenhuma certeza nos dispensa de responder pela maneira como tratamos quem está diante de nós.
Talvez, antes de enviar a próxima provocação ao grupo da família, valha lembrar de quem a receberá. Da história que existe ali. E de como gostaríamos que essa relação estivesse quando chegasse o próximo aniversário.
A eleição passa. A vida continua precisando de companhia, cuidado e presença. Neste domingo, talvez o gesto mais importante seja procurar alguém de quem nos afastamos e abrir uma conversa que ainda pode acontecer.
Quem você gostaria de ter à sua mesa?
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