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Raphael Coraccini

Juros agravam crise de gigantes como Casas Bahia, Marabraz e GPA –  e queda discreta da Selic não resolve o problema

Publicado 17/08/2026 • 21:51 | Atualizado há 8 horas

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

Os juros reais brasileiros entre os maiores do mundo fez, primeiramente, algumas vítimas entre as empresas mais frágeis: as micro, pequenas e médias, com a disparada de falências nos últimos anos. Mas o patamar de juros no Brasil, mantido por um período inexplicavelmente longo e também em patamares difíceis de entender, acaba por afetar inclusive empresas que eram consideradas grandes demais para quebrar, como, por exemplo, Raízen e Pão de Açúcar, que estão em recuperação. 

Agora, em um único fim de semana, houve o anúncio da recuperação judicial de duas grandes empresas do varejo brasileiro: Casas Bahia -- com ações caindo 33% na bolsa -- e a Marabraz, de capital fechado. Essas companhias ficam expostas a essa patamar extorsivo de juros. Por outro lado, as concorrentes internacionais que entram no Brasil -- que, muitas vezes, não têm passivo físico e trabalhista no país -- encontram, em 100% das vezes, condições melhores de financiamento. 

O varejo brasileiro sofre mais do que a maioria dos outros setores por causa da exposição ao custo do crédito. Há a necessidade de alavancagem para financiar unidades, prédios comerciais e outras questões. Além disso, os juros altos impactam diretamente a capacidade das pessoas de contrair crédito para comprar itens de alto valor agregado, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis, que geralmente não são adquiridos à vista. Portanto, os juros batem nas duas pontas do varejo: tanto na capacidade de as empresas financiarem suas atividades quanto na possibilidade de obter uma boa receita, com consumidores comprando mais por meio de crédito mais acessível. O resultado: em apenas um trimestre, o prejuízo das Casas Bahia foi de mais de R$ 10 bilhões e o endividamento total da companhia bateu R$ 17,3 bilhões. Isso deve custar pelo menos 2 mil empregos e o fechamento de 300 lojas. 

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, esteve em evento de um banco privado nesta segunda-feira (17). E o tema do impacto dos juros sobre o varejo e outros setores da economia real brasileira ficou à margem da discussão. Por outro lado, a questão fiscal permeou toda a discussão. Evidentemente, existe uma relação entre a questão fiscal e a política monetária brasileira em patamares restritivos, mas o Banco Central tem como mandato controlar a inflação brasileira. E ela está controlada. Por outro lado, o BC tem sido convocado a controlar a questão fiscal brasileira.

Além disso, há muitos questionamentos sobre o real tamanho do impacto da questão fiscal brasileira no nível de inflação do país. O gasto público atual tem potencial de causar inflação? As respostas não são tão precisas. Por outro lado, o nível da Selic tem piorado o nível de endividamento do pais. Isso é incontestável. Será muito difícil reduzir o nível de endividamento se os juros não caírem a patamares mais racionais. O patamar exato para isso é incerto, mas há estudos que indicam algum nível de racionalidade em patamares bem mais baixos que os atuais. 

Professor titular de Economia e membro do Trinity College da Universidade de Cambridge,  Tiago Cavalcanti publicou estudo sobre o nível de juros no Brasil. E, os dados utilizados pelo economista, que também é professor da FGV, apontam que pelo menos dois pontos percentuais de juros são inexplicáveis. Se esses dois pontos fossem apagados, os juros brasileiros cairiam para aquém dos 13%, patamar que, segundo o boletim Focus, deve ser alcançado só daqui um ano. Até lá, quantas Casas Bahia, Marabraz e Pão de Açúcar estarão expostas à insolvência? Sem contar empresas de tamanhos menores, que compõem a maior parte das 6 mil recuperações judiciais ativas no país.

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