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Clubes brasileiros dão all in contra seu próprio torcedor, e estão perdendo
Publicado 30/09/2026 • 21:33 | Atualizado há 13 horas
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Publicado 30/09/2026 • 21:33 | Atualizado há 13 horas
Foto: Adriano Fontes/Flamengo
Existe um afastamento cada vez mais evidente entre o mundo do futebol, seus dirigentes e jogadores, e o seu público, o povo que, em última instância, sustenta economicamente esse negócio. Com ou sem casa de aposta.
Dois episódios desses últimos dias aumentam o desencantamento do torcedor com seus clubes. O primeiro foi a manifestação dos clubes logo depois de proferida a medida do governo de extinção das apostas online. Quase todos os grandes clubes do país se reuniram em um ato pouco usual para defender a manutenção das casas de aposta no Brasil.
Agora, os mesmos clubes defendem a suspensão do Campeonato Brasileiro, que, inclusive, levava o nome de uma bet. O ato seria em defesa do retorno das casas de aposta, com tudo o que elas trazem. Os impactos sociais e econômicos já foram amplamente apresentados nesta coluna, neste site e em vários outros espaços.
Mas há mais números a mostrar. Entre 65% e 75% dos brasileiros são a favor do fim das apostas online no país. Os clubes de futebol deram all-in a favor das casas de aposta, contra a saúde financeira e mental de boa parte dos seus torcedores. Apostaram e estão perdendo. Existe um desencantamento profundo com a postura dos clubes, que insistem em ficar contra aqueles que, no final, pagam as contas.
O analista do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Rodrigo Loureiro lembrou que os clubes se negaram a parar o futebol na tragédia da queda do avião da Chapecoense, que matou 71 pessoas, a maioria jogadores e profissionais do futebol. Também não houve decisão de interromper as competições durante a pandemia de Covid-19 e as enchentes do Rio Grande do Sul. Esta última, com cerca de 200 mortos, deixou debaixo d’água os estádios do Inter e do Grêmio e comprometeu a temporada dos dois maiores clubes do estado. Agora, eles estão unidos.
Essa união é algo que raramente acontece no futebol brasileiro. Há algum tempo, o Brasil tenta organizar uma liga para tornar o ambiente mais saudável do ponto de vista esportivo e financeiro, melhorar um calendário que é uma lástima e aumentar as receitas de maneira organizada. Nada disso parece ter sido suficiente para provocar uma manifestação coletiva de tamanha amplitude. Mas, para defender as bets, os clubes se uniram.
Existe uma desconexão entre os clubes de massa e essa mesma massa, que sempre manteve o futebol como símbolo nacional e negócio multibilionário.
A quebra do encanto ainda está em uma fase contornável. Mas o futebol precisa se reaproximar da massa se quiser manter sua perenidade. O futebol é um produto vendável porque existe uma relação emocional entre o torcedor e o clube. Quanto mais distante o clube fica do seu público, menor tende a ser o engajamento. E, quando o engajamento diminui, torna-se mais difícil transformar o torcedor em consumidor fiel de produtos, serviços, ingressos, transmissões e experiências relacionadas ao clube.
O esporte, no geral, disputa a atenção das novas gerações com uma quantidade cada vez maior de outras formas de entretenimento. Quase ninguém mais assiste a um jogo de futebol olhando apenas para a televisão. O celular está ao lado, muitas vezes como primeira tela, enquanto a televisão se transforma na segunda. Inclusive, agora, sem a sedução das apostas na palma da mão, talvez o torcedor se volte mais para o jogo no campo do que para o do celular.
Nesse ambiente, o futebol precisa disputar não apenas dinheiro, mas atenção. E a atenção é construída por vínculo. Quando dirigentes e jogadores se afastam dos valores e das preocupações do público, esse vínculo pode ser enfraquecido. E isso, no longo prazo, também é um problema financeiro para o esporte. O fim das bets é contornável; o desencantamento, não.
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