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EXCLUSIVO: Refinarias brasileiras operam acima da capacidade e custo de paradas supera R$ 100 milhões por dia

Publicado 14/08/2026 • 07:14 | Atualizado há 57 minutos

KEY POINTS

  • Refinarias no Brasil superam 100% da capacidade instalada segundo dados da Petrobras e da ANP em 2026
  • Parada de manutenção em refinaria pode custar R$ 106 milhões por dia de interrupção no processamento
  • Tecnologia de monitoramento em tempo real reduz riscos e custos durante paradas programadas de refino
Refinarias Replan - refinaria de Paulínea - Petrobras

Crédito_Marcos Peron_Agência Petrobras

Refinaria de Paulínea (Replan)

Refinarias brasileiras operam, em 2026, acima da capacidade instalada, um patamar que eleva o custo de qualquer parada de manutenção para além de R$ 100 milhões por dia, segundo estimativas do setor. O cenário marca uma mudança expressiva em relação a 2025, quando o parque de refino nacional trabalhava com 86,4% da capacidade, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Paralelamente, o Brasil também bateu recorde na extração de petróleo. Conforme o Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural, divulgado pela própria ANP, o país registrou em maio de 2026 uma média de 4,301 milhões de barris por dia. O número, contudo, não se confunde com a capacidade de refino do país, já que produzir petróleo e refiná-lo são etapas distintas da cadeia produtiva.

Assim, enquanto o volume extraído dos poços segue em expansão, o processamento nas refinarias passou por oscilações ao longo dos últimos dois anos. Em 2025, o setor processou em média 2,2 milhões de barris por dia, uma queda de 1,4% em relação ao ano anterior, equivalente aos mencionados 86,4% da capacidade instalada.

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Fator de utilização supera 100%

Já em 2026, o quadro mudou de forma expressiva. A Petrobras, responsável pela maior parte do parque de refino nacional, informou que o Fator de Utilização Total de suas unidades chegou a 95% no primeiro trimestre e atingiu 97,4% em março, o maior índice desde dezembro de 2014.

Em abril e maio, a companhia foi além. Segundo a estatal, o patamar superou os 100%, com refinarias operando acima da capacidade de referência mediante autorização da ANP.

Diante desse novo regime de operação, as paradas programadas passaram a exigir maior precisão. Com unidades trabalhando no limite ou além dele, qualquer intervenção de manutenção se torna uma corrida contra o tempo, com efeitos que chegam rapidamente ao preço nas bombas e à disponibilidade nos postos.

Paradas podem custar milhões por dia

Uma estimativa simples ajuda a dimensionar o impacto financeiro de uma parada. Considerando uma refinaria de capacidade média, com processamento de 250 mil barris por dia, e a cotação do Brent em torno de US$ 78,55, uma parada de três dias equivale à interrupção de aproximadamente US$ 58,9 milhões em processamento, cerca de R$ 318 milhões em valores brutos, sem contar os efeitos operacionais, logísticos e comerciais da paralisação. Um único dia de parada já representa US$ 19,64 milhões, o equivalente a R$ 106 milhões.

Tulio Cerviño, CEO Latam e VP Global de Operações Industriais da Trackfy | Wakecap, compara o momento a um teste de eficiência para o setor. “Cada parada programada é como um teste de eficiência para o setor, e quanto mais rápida e segura a execução, menor o preço que toda a cadeia paga”, afirma o executivo.

Segundo Cerviño, nem toda parada em uma refinaria está relacionada a falhas. Muitas são programadas e incluem as chamadas turnarounds, períodos destinados a manutenção, inspeções, substituição de equipamentos e atendimento a exigências regulatórias.

🔍 Turnaround é o termo usado pela indústria para descrever a parada programada de uma unidade industrial inteira, geralmente com duração de semanas, dedicada a manutenção, inspeções e substituição de equipamentos que não podem ser feitas com a planta em funcionamento.

Durante esses períodos, unidades inteiras deixam de produzir enquanto milhares de trabalhadores ocupam simultaneamente áreas industriais consideradas críticas. Cada dia adicional de atraso representa perdas financeiras, aumento nos custos de contratação e maior exposição a riscos operacionais.

De acordo com a consultoria internacional Turner & Townsend, projetos industriais de grande porte registram, em média, desvios de até 35% nos cronogramas e custos quando há falhas de coordenação entre equipes e fornecedores.

Pessoas são o ativo mais difícil de gerenciar

Coordenar, em tempo real, a movimentação de equipamentos e frentes de trabalho distribuídas pela planta industrial está entre os principais desafios de uma parada programada, segundo Cerviño. Garantir segurança e reduzir ao máximo o tempo de paralisação depende diretamente dessa coordenação.

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Para o executivo, as pessoas são o ativo mais difícil de gerenciar durante esse tipo de operação. “A indústria sempre monitorou muito bem os equipamentos, agora ela começa a monitorar também a dinâmica da operação. Saber onde estão as equipes, quanto tempo uma atividade levou, quais áreas estão mais movimentadas ou onde existe concentração de pessoas permite tomar decisões melhores durante toda a rotina da refinaria”, avalia.

Ainda segundo o executivo, esse tipo de monitoramento também permite respostas rápidas em situações de emergência e a geração de indicadores que apoiam os gestores durante toda a operação.

Tecnologia monitora movimentação em tempo real

Foi para responder a esse desafio que a tecnologia IoT (Internet das Coisas) passou a ocupar espaço crescente nas paradas programadas de refinarias. Sensores, câmeras e sistemas de monitoramento permitem acompanhar, em tempo real, a movimentação de pessoas dentro da planta.

“Essa visão instantânea da operação muda a forma como as decisões são tomadas e ajuda a manter uma parada programada dentro do cronograma”, completa Cerviño.

Segurança, logística e produtividade passam a ser geridas com mais agilidade quando é possível enxergar, minuto a minuto, o que acontece em cada frente de trabalho. Um problema que antes levava horas para ser identificado agora aparece na tela em segundos, o que pode significar a diferença entre uma parada dentro do prazo e um atraso que custa milhões.

Na prática, sensores e dispositivos vestíveis, como capacetes e crachás inteligentes com sistemas de localização em tempo real, permitem acompanhar continuamente onde estão trabalhadores e prestadores de serviço. Essa visão operacional antes dependia de planilhas, comunicação por rádio ou conferências presenciais.

Segundo a TRACKFY | WAKECAP, além de localizar pessoas, a plataforma permite identificar gargalos de circulação, redistribuir equipes conforme o avanço das atividades e controlar automaticamente o acesso a áreas restritas. Em situações de emergência, o sistema também confirma em poucos minutos a evacuação de trabalhadores.

Ainda de acordo com a empresa, as informações ficam registradas digitalmente, o que facilita auditorias, rastreabilidade das operações e análises voltadas ao aperfeiçoamento de futuras paradas de manutenção.

Resultados apontados pela empresa

Em projetos desenvolvidos pela Trackfy | Wakecap em diferentes segmentos da indústria, a empresa registrou, segundo dados próprios, uma otimização de deslocamentos internos de 33%, aumento de até 67% na produtividade das equipes de manutenção e redução de aproximadamente 1,5% nos custos com seguros industriais.

Atualmente, conforme informado pela companhia, a tecnologia combinada entre Trackfy e WakeCap monitora cerca de 25 mil trabalhadores simultaneamente em operações ao redor do mundo, com atuação em projetos avaliados em mais de US$ 120 bilhões.

Esse movimento acompanha uma tendência observada globalmente. De acordo com a consultoria indiana Maximize Market, o mercado mundial de Internet das Coisas voltado ao setor de óleo e gás deve alcançar US$ 45,02 bilhões até 2032.

Novo ciclo de investimentos no refino brasileiro

No Brasil, o processo de digitalização das refinarias acompanha um novo ciclo de investimentos no parque de refino nacional. Entre os aportes anunciados está um valor de R$ 26 bilhões para ampliar a integração entre a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) e o Complexo Boaventura, além de R$ 4,9 bilhões destinados à expansão da Refinaria Abreu e Lima (RNEST).

Para Cerviño, os investimentos mostram que o setor observa o futuro das refinarias com atenção à tecnologia. “A tecnologia passa a fazer parte da estratégia de competitividade das empresas, porque permite que decisões operacionais sejam tomadas com base em dados, e não apenas na experiência de campo. Esse é um movimento que tende a se intensificar nos próximos anos”, diz o executivo.

O CEO da Trackfy | Wakecap destaca ainda que a plataforma da empresa pode ser integrada aos sistemas já utilizados pelas refinarias, incluindo cadastros de profissionais, modelos digitais das plantas industriais e sistemas de planejamento das obras. “A tendência é que o uso de tecnologias baseadas em dados avance tanto em paradas programadas quanto em intervenções emergenciais, além da gestão como um todo. Sempre que houver pessoas na operação e necessidade de maior eficiência operacional, de segurança e de capacidade de resposta, esse tipo de monitoramento passa a ter um papel ainda mais relevante”, conclui Cerviño.

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