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CNBCGoldman Sachs: reservas japonesas de US$ 1 trilhão deixam “muita capacidade” para novas intervenções no mercado de ienes

Allan Ravagnani AI-451

Entenda porque o índice Kospi, da Coreia do Sul, vive um verdadeiro dorama financeiro, que despenca num dia e dispara no outro; spoiler: não é pânico generalizado

Publicado 13/08/2026 • 07:00 | Atualizado há 42 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

Kospi

Ilustração gerada por IA para AI-451/CNBC Brasil

Um dorama financeiro, o índice Kospi despenca e dispara ao ritmo de Samsung e SK Hynix

Todos os dias, por volta das 6h20 da manhã, o os jornalistas de Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC publicam a notícia sobre o fechamento dos mercados asiáticos. Nss últimss semanas, um padrão passou a ser motivo de brincadeiras e apostas. "O índice Kospi disparou ou derreteu hoje?". Pensamos até em fazer um bot em I.A. para responder a essa pergunta todos os dias, mas deu preguiça...

No dia 29 de julho, uma quarta-feira, era madrugada aqui no Brasil quando a bolsa de Seul acionou o circuit breaker, sistema que trava as negociações quando o mercado desaba rápido demais para qualquer decisão humana ainda fazer sentido.

No dia seguinte, a mesma coisa, uma sirene eletrônica soou tantas vezes nos dias seguintes que até os operadores acostumados a lidar com crise, gente que viveu de perto o colapso asiático de 1997 e o tombo de 2008, admitiram nunca ter visto o mecanismo repetir com essa frequência.

Dois dias depois, no dia 31 de julho, o índice fez o caminho inverso e disparou 17,91% em uma única sessão, o maior ganho diário já registrado pelo índice coreano, com a Samsung e SK Hynix subindo perto de 30% cada uma e recuperando de uma vez boa parte do que tinham perdido na semana anterior.

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Uma semana depois, 5 e 6 de agosto, o Kospi voltou a acionar os dois lados do sistema em dias consecutivos, primeiro o disjuntor (circuit breaker) de compra, quando o índice saltou quase 5% em poucos minutos, depois o de venda, quando devolveu o ganho inteiro sob forte venda estrangeira nas duas maiores empresas de chips do país.

E nem nesta quarta-feira (12 de agosto) trouxe descanso de verdade, ainda que tenha trazido alívio no placar, com o índice fechando em alta de 3,7%, aos 6.579,04 pontos, puxado outra vez por Samsung e SK Hynix, depois que o mercado global de inteligência artificial deu sinais de que o apetite por infraestrutura segue firme.

Por trás dessa sucessão de solavancos que já rendeu ao Kospi a pior perda mensal desde a crise financeira global de 2008, existe uma explicação que tem menos a ver com pânico generalizado e mais com aritmética pura, porque a concentração do índice sul-coreano em apenas duas empresas, Samsung Electronics e SK Hynix, chegou a um nível que nenhum outro mercado relevante do planeta tolera hoje.

Variação do Kospi no último mês pela tela do Tranding View

O cálculo é simples de entender e difícil de digerir. Há dois anos, as duas fabricantes de chips de memória somavam cerca de 40% do valor total do Kospi. No pico registrado entre junho e o início de julho, essa fatia bateu recordes próximos de 60%, para depois cair abaixo de 50% pela primeira vez desde o fim de junho, justamente durante a pior semana da liquidação em agosto, e voltar a subir com a arrancada desta quarta-feira.

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Para efeito de comparação, Nvidia e Apple juntas representam algo perto de 20% da Nasdaq, e Toyota com Kioxia não chegam a 10% do Nikkei japonês.

A imagem que melhor descreve o fenômeno é a de um buscapé, como era conhecido aqui em São Paulo, mini foguetes que, uma vez acesos, saiam em disparada sem direção, fazendo todo mundo correr e pular.

Quando as duas principais empresas do Kospi oscilam, como aconteceu repetidamente nas últimas semanas, o paviu do buscapé é aceso, e começa novamente o "salve-se quem puder".

A bolsa de Seul tem mais de 900 empresas listadas, e estas não têm culpa de nada, apenas vão no embalo.

A raiz do fenômeno é real e tem nome, HBM, a memória de alta largura de banda que virou peça obrigatória em qualquer acelerador de inteligência artificial, já falamos desse componente aqui na coluna.

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Samsung e SK Hynix dominam essa cadeia junto com a americana Micron, e o apetite de clientes como Nvidia e os grandes provedores de nuvem levou as duas coreanas a valorizações que dispararam ao longo do ano, empurrando ambas para o clube das empresas avaliadas em mais de um trilhão de dólares.

O problema é que o sucesso concreto de um negócio real, com carteira de pedidos cheia e capacidade de produção sendo ampliada a toque de caixa, acabou coincidindo com uma migração de capital tão volumosa que passou a distorcer a própria estrutura do índice que deveria apenas refletir o mercado coreano como um todo.

O aviso do Goldman Sachs sobre saída forçada do Kospi

O detalhe mais técnico desse período veio de um relatório do Goldman Sachs. Fundos institucionais estrangeiros que seguem regras de diversificação da legislação americana de investimentos, o Investment Company Act, não podem manter uma fatia excessiva de capital concentrada em poucos nomes dentro de um mesmo fundo.

Segundo o banco, se o peso combinado de Samsung e SK Hynix no Kospi subir apenas mais um ponto percentual a partir do patamar recorde já observado, esses fundos seriam obrigados por regra, não por convicção sobre o futuro das duas empresas, a vender cerca de dois bilhões de dólares em ações, algo perto de onze bilhões de reais na cotação atual.

Não é uma previsão de mercado, é um gatilho mecânico, o tipo de coisa que pode desestabilizar um índice de bolsa sozinho, sem que nenhuma notícia nova precise acontecer.

🔍 O disjuntor, ou circuit breaker, é um mecanismo que interrompe automaticamente as negociações quando um índice sobe ou cai além de um limite predefinido em pouco tempo, dando um intervalo para que investidores respirem antes de tomar novas decisões.

O medo que corre entre os investidores de varejo coreanos

O medo, entre quem investe em bolsa na Coreia do Sul agora, tem endereço bem definido, e não é abstrato. É o medo da chamada de margem, aquele telefonema ou notificação que avisa que a garantia colocada para comprar ações alavancadas não é mais suficiente e que a corretora vai vender a posição de qualquer jeito.

Segundo dados do Goldman Sachs, mais de 1,2 milhão de contas de varejo com alavancagem foram atingidas por chamadas de margem só em julho, e entre 320 mil e 360 mil delas tiveram a posição liquidada à força, o equivalente a um em cada trinta adultos do país correndo risco direto de perda súbita.

O banco Citi estimou os prejuízos de investidores de varejo em ETFs alavancados em 56,3 trilhões de wones, algo perto de 40 bilhões de dólares, com os produtos ligados só à SK Hynix respondendo por 8 trilhões de wones dessa conta.

A imprensa local recolheu relatos de gente que hipotecou o próprio apartamento para bancar posições alavancadas e hoje jura nunca mais investir, e de investidores mais experientes dizendo que o nível de oscilação atual mostra que o mercado deixou de funcionar de forma previsível.

A queda acumulada desde o pico de junho, medida ao longo das últimas semanas de pregão, já superou proporcionalmente o tombo da bolsa de Xangai em 2015 e evoca comparações diretas com a crise asiática de 1997, quando o próprio Kospi foi um dos epicentros da turbulência que varreu a região.

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ETFs alavancados aprofundam a concentração no Kospi

Em maio, a Bolsa da Coreia lançou ETFs de ação única alavancados em duas vezes, permitindo que qualquer investidor de varejo multiplicasse por dois o movimento diário de Samsung ou SK Hynix sem precisar operar margem diretamente com a corretora.

A ferramenta que deveria distribuir risco de forma mais organizada acabou virando um amplificador de humor de mercado. O governo já reagiu, limitando o investimento individual nesses ETFs a 20% do patrimônio de cada investidor, elevando as exigências de margem e adiando o lançamento de opções sobre a própria SK Hynix que estava programado para o período.

Mas especialistas locais apontam que a raiz do problema segue intacta, porque o Kospi 200, ao contrário de índices como o próprio S&P 500 americano, não tem um teto de concentração por empresa, o que significa que mesmo sem alavancagem os grandes fundos passivos continuariam replicando esse desequilíbrio estrutural toda vez que rebalanceiam suas carteiras.

A conta que os coreanos fazem agora, entre um circuit breaker e outro, é a mesma que qualquer investidor brasileiro exposto a fundos internacionais com posição em mercados emergentes deveria fazer também, porque quando dois papéis decidem sozinhos a direção de um índice inteiro, o risco deixa de ser sobre a qualidade do negócio e passa a ser sobre a engrenagem que segura tudo em pé.

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