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Muito além das passarelas: o negócio de muitos bilhões por trás dos 20 anos da Copenhagen Fashion Week

Publicado 09/08/2026 • 08:00 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • A Copenhagen Fashion Week encerrou a SS27 aos 20 anos, com 34 desfiles e apresentações e maior aposta na internacionalização.
  • As exportações dinamarquesas de moda cresceram 115% desde 2006 e já superam 42 bilhões de coroas, cerca de R$ 33 bilhões.
  • Copenhagen transformou a sustentabilidade, novos talentos e acesso ao mercado global em pilares de sua estratégia de negócios.
Copenhagen Fashion Week completa 20 anos enquanto indústria de moda dinamarquesa já fatura R$ 45 bilhões por ano no exterior.

CPHFW

Copenhagen Fashion Week completa 20 anos enquanto indústria de moda dinamarquesa já fatura R$ 45 bilhões por ano no exterior.

A Copenhagen Fashion Week encerrou na sexta-feira (7) uma edição que ajuda a explicar por que a capital dinamarquesa deixou de ocupar apenas um espaço alternativo no calendário internacional da moda. Aos 20 anos, a maior semana de moda do Norte da Europa chega à temporada primavera-verão 2027, a SS27, conectada a uma indústria que mais que dobrou suas exportações desde a criação do evento e transformou design, sustentabilidade e descoberta de novos talentos em ativos comerciais.

Realizada entre 3 e 7 de agosto, a edição reuniu 34 desfiles e apresentações no calendário oficial, com nomes estabelecidos, marcas emergentes e uma presença estrangeira mais explícita. By Malene Birger, Stine Goya, Mfpen e Marimekko estiveram entre os retornos, enquanto a americana Collina Strada inaugurou uma nova categoria criada para receber marcas internacionais.

Por trás da passarela existe uma transformação econômica maior. Quando a Copenhagen Fashion Week foi criada, em 2006, a Dinamarca exportava cerca de 19,8 bilhões de coroas dinamarquesas em moda, valor equivalente hoje a aproximadamente R$ 15,6 bilhões. Em 2025, as exportações superaram 42 bilhões de coroas, cerca de R$ 33,2 bilhões, segundo a Danish Fashion & Textile, a DM&T, entidade que representa o setor.

O avanço foi de 115% em duas décadas.

Mais importante do que o crescimento isolado é a mudança no perfil da indústria. Atualmente, mais de 70% do faturamento da moda dinamarquesa vem das exportações, segundo a DM&T.

Copenhagen passou, portanto, a ocupar um lugar que interessa não apenas a quem acompanha moda e luxo, mas também a executivos, investidores e empresas que observam como indústrias criativas constroem valor internacional a partir de design, posicionamento de marca e diferenciação.

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Uma indústria de quase R$ 45 bilhões

O último dado anual consolidado da DM&T mostra que a indústria dinamarquesa de moda faturou 56,9 bilhões de coroas em 2024, aproximadamente R$ 45 bilhões pela cotação atual.

O mercado doméstico permaneceu relativamente estável ao longo das últimas duas décadas. O exterior foi o principal responsável por ampliar a escala do setor.

A Alemanha continua sendo o maior mercado para a moda dinamarquesa. Noruega, Suécia e Holanda também aparecem entre os principais destinos. Mais recentemente, empresas do país ampliaram vendas justamente em mercados europeus associados à moda e ao luxo, como França, Itália e Bélgica.

Segundo a Copenhagen Fashion Week, com base em dados da Statistics Denmark e da Creative Denmark, a moda representa hoje cerca de 5% das exportações de mercadorias da Dinamarca e está entre os principais produtos vendidos pelo país no exterior.

A expansão ocorreu sem que o número de empresas acompanhasse o mesmo ritmo. Segundo a DM&T, a quantidade de companhias do setor caiu ligeiramente em 20 anos, enquanto o emprego teve crescimento moderado.

Isso indica uma transformação importante. Em média, as empresas passaram a gerar mais negócios no exterior.

Ao mesmo tempo, a forma de vender moda mudou.

Em dez anos, aproximadamente 1.000 lojas de roupas desapareceram da Dinamarca, enquanto as vendas realizadas pelos e-commerces domésticos quadruplicaram. A estatística não captura integralmente as compras feitas em plataformas estrangeiras, o que amplia ainda mais o peso da transformação digital.

É nesse ambiente, marcado por internacionalização, comércio eletrônico e concorrência global, que uma Fashion Week passa a ter valor econômico além da exposição nas passarelas.

E quanto vale a Copenhagen Fashion Week?

O faturamento da indústria não deve ser confundido com a receita da própria Fashion Week.

A Copenhagen Fashion Week Foundation, organização responsável pelo evento, registrou 13,724 milhões de coroas dinamarquesas em receita líquida em 2025, aproximadamente R$ 10,8 milhões pela cotação atual, segundo informações do registro empresarial dinamarquês.

O resultado líquido foi de 90 mil coroas, cerca de R$ 71 mil na conversão atual.

Esses valores são anuais e compreendem as atividades da fundação. Não representam, portanto, o faturamento da edição SS27.

Até a publicação desta matéria, não havia estimativa oficial divulgada sobre quanto a edição encerrada na sexta-feira movimentou diretamente na economia de Copenhague, incluindo hospedagem, restaurantes, transporte, comércio, produção e outros serviços.

A economia da Fashion Week pode, porém, ser observada por outra perspectiva: quanto custa para uma marca chegar à sua passarela.

Na SS27, a organização adotou uma tabela proporcional ao tamanho do negócio.

Uma empresa com faturamento anual inferior a 1 milhão de coroas, cerca de R$ 790 mil, pagava 9 mil coroas para realizar um desfile oficial, aproximadamente R$ 7,1 mil.

No topo da tabela, marcas com faturamento superior a 100 milhões de coroas, cerca de R$ 79 milhões, desembolsavam 40,5 mil coroas, aproximadamente R$ 32 mil, para um desfile.

Nas apresentações, as tarifas variavam de 5 mil a 28 mil coroas, aproximadamente R$ 4 mil a R$ 22,1 mil.

Havia ainda uma taxa de sustentabilidade entre 450 e 2,4 mil coroas, aproximadamente R$ 356 a R$ 1,9 mil, além de uma taxa de inscrição de 2,5 mil coroas, cerca de R$ 2 mil, para parte das candidatas.

Empresas menores recebem tratamento diferenciado. Marcas com faturamento inferior a 1 milhão de coroas estão dispensadas da taxa de inscrição, e participantes do CPHFW NEWTALENT, programa para novos designers, não pagam a taxa sazonal.

O desenho cria uma espécie de estrutura progressiva de acesso. Quanto maior o negócio, maior o valor desembolsado para ocupar a plataforma.

A Copenhagen Fashion Week também é financiada por contribuições da indústria e parcerias comerciais. A Zalando aparece como principal parceira estratégica. Pandora, Miele, Perwoll e The Climate Pledge também integram sua rede de parceiros.

Mais do que uma sequência de desfiles, forma-se ao redor do evento um ponto de encontro entre marcas, varejistas, patrocinadores, compradores internacionais, imprensa e designers em busca de escala.

De vitrine nórdica a plataforma internacional

Criada em 2006, a Copenhagen Fashion Week nasceu com a missão de ampliar a visibilidade da moda dinamarquesa e nórdica diante de compradores e da imprensa internacional.

Hoje, apresenta-se como a maior semana de moda do Norte da Europa, com duas edições por ano.

O crescimento de 115% das exportações dinamarquesas de moda durante essas duas décadas não pode ser atribuído exclusivamente à Fashion Week. Digitalização, expansão internacional das marcas, novos canais de distribuição e estratégias empresariais próprias foram determinantes.

Mas a coincidência dos movimentos ajuda a explicar o papel adquirido pelo evento.

Para uma indústria cujo faturamento depende em mais de 70% de mercados estrangeiros, reunir compradores, executivos, plataformas globais e imprensa internacional em Copenhagen deixa de ser apenas uma ação de imagem.

É também distribuição, construção de marca e abertura de mercado.

A estratégia ganha relevância especialmente porque a Dinamarca não possui a concentração de grandes conglomerados de luxo encontrada em Paris ou Milão.

Copenhagen construiu outro ativo competitivo. Sua força está na capacidade de identificar marcas em ascensão, antecipar movimentos de consumo, atrair compradores e estabelecer parâmetros que ganham influência além do mercado nórdico.

Esse modelo também cria um paradoxo.

Algumas das marcas que ganharam projeção em Copenhagen passaram a procurar centros maiores quando alcançaram escala internacional. A dinamarquesa Ganni estreou na Paris Fashion Week em 2024. Cecilie Bahnsen também integra o calendário oficial parisiense.

O desafio de Copenhagen é manter sua capacidade de revelar os próximos nomes antes que os maiores partam.

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Sustentabilidade como regra de mercado

Um dos elementos centrais dessa diferenciação está na sustentabilidade.

Em vez de deixá-la restrita ao discurso institucional, Copenhagen passou a vinculá-la à participação das marcas no calendário oficial.

O Sustainability Requirements Framework, criado em 2020 e incorporado formalmente ao processo de seleção em 2023, reúne atualmente 19 padrões mínimos, distribuídos por seis áreas da cadeia de valor, além de 87 ações adicionais de autoavaliação.

As exigências alcançam estratégia ambiental e social, produtos não vendidos, durabilidade, circularidade, materiais, condições de trabalho, relacionamento com consumidores e produção dos próprios desfiles.

Na prática, Copenhagen transformou parte da agenda ambiental e social em condição de acesso a uma vitrine comercial internacional.

Isso interessa especialmente ao mercado de luxo porque coloca reputação, conformidade e custo no mesmo debate.

A organização realiza verificações nas áreas dos eventos e dos bastidores para acompanhar algumas das exigências. Ao mesmo tempo, ressalta que o sistema não representa uma certificação de sustentabilidade nem uma auditoria das empresas.

As informações apresentadas pelas marcas são analisadas por um comitê externo liderado pela consultoria Rambøll.

Novas participantes também recebem um período de adaptação. Elas dispõem de um ano, equivalente a duas temporadas, para atingir integralmente os requisitos mínimos.

A SS27 mostrou que transformar sustentabilidade em regra objetiva ainda é um processo em construção.

Nesta temporada, Copenhagen suspendeu temporariamente a aplicação de dois dos 19 requisitos. Um deles previa uma lista de materiais considerados preferenciais. O outro determinava que ao menos 60% da coleção fosse produzida com materiais certificados, considerados preferenciais ou provenientes de estoques excedentes.

A decisão ocorreu em meio a mudanças nas referências internacionais do setor e enquanto a União Europeia continua avançando nas regras de ecodesign aplicáveis a produtos.

O episódio evidencia uma questão central para empresas de moda e luxo. Sustentabilidade pode funcionar como vantagem competitiva e instrumento de reputação, mas envolve custos de conformidade, disponibilidade de materiais, métricas em evolução e risco regulatório.

O modelo de Copenhagen já atravessou fronteiras. A organização mantém iniciativas relacionadas ao framework com Berlin Fashion Week, British Fashion Council, Amsterdam Fashion Week, Oslo Runway e Norwegian Fashion Hub.

Uma semana de moda criada para ampliar a presença internacional de marcas dinamarquesas passou também a exportar padrões para a própria indústria.

Dinheiro e exposição para disputar os próximos talentos

A edição encerrada na sexta-feira também mostrou que Copenhagen quer ampliar sua presença internacional.

Pela primeira vez, foi criado um International Guest Slot, destinado a receber uma marca estrangeira no calendário oficial. A americana Collina Strada, fundada por Hillary Taymour em Nova York, inaugurou o projeto.

A competição por talentos também envolve dinheiro.

A Zalando Visionary Award 2026 destinou à vencedora Institution um prêmio de 50 mil euros, cerca de R$ 295 mil pela cotação atual, além de outros 35 mil euros, aproximadamente R$ 207 mil, para custos de produção do desfile.

Somados, são mais de R$ 500 mil em prêmio e apoio financeiro, além de seis meses de mentoria e serviços relacionados à realização da apresentação.

O modelo se aproxima da lógica de uma aceleradora para negócios criativos. Além do capital, oferece infraestrutura, visibilidade e acesso a uma rede internacional.

No CPHFW NEWTALENT, Studio Constance, Stem e Anne Sofie Madsen integraram a SS27. O programa oferece suporte financeiro, mentoria e presença no calendário em um momento particularmente delicado para novas marcas, quando reconhecimento criativo ainda precisa ser convertido em receita e escala.

A Pandora é a principal parceira do programa e contribui para as bolsas concedidas aos participantes. Os valores individuais não são divulgados.

A relação entre grandes empresas e novos designers não se limita ao financiamento. Durante a SS27, a Ganni forneceu tecidos para uma colaboração com a Stem e abriu seu showroom para apresentar o projeto.

Para grandes companhias, iniciativas desse tipo significam acesso a novas linguagens de design, inovação em materiais e associação com uma geração de marcas em formação.

Para os designers, significam capital, infraestrutura, legitimidade e, principalmente, acesso ao mercado.

O que a SS27 sinaliza para quem vende moda e luxo

A roupa continua no centro da Copenhagen Fashion Week, mas, para o mercado, importa também o que ela antecipa sobre consumo.

Os balanços publicados após a SS27 apontaram uma Copenhagen menos presa à imagem tradicional do minimalismo escandinavo.

Cores, renda, transparências, crochê, texturas e sobreposições dividiram espaço com propostas mais minimalistas. Peças esportivas foram combinadas com alfaiataria, vestidos e elementos de maior impacto visual.

Ainda é cedo para decretar o fim do chamado quiet luxury. O que Copenhagen mostra é uma maior fragmentação das referências.

Para empresas e varejistas, isso significa mais do que estética.

Mudanças de silhueta, material e acabamento repercutem em mix de produtos, decisão de compra, contratos com fornecedores, níveis de estoque, posicionamento de preço e campanhas publicitárias meses antes de uma coleção chegar ao consumidor.

Copenhagen tem ainda a vantagem de ocupar uma posição antecipada no calendário internacional. Antes que Nova York, Londres, Milão e Paris concentrem a atenção da indústria, executivos e compradores já conseguem observar na capital dinamarquesa movimentos que podem ganhar força nas temporadas seguintes.

Para o segmento premium e de luxo, uma das questões deixadas pela SS27 é justamente se o consumidor começa a buscar novamente maior individualidade e reconhecimento visual depois de temporadas dominadas por discrição, cores neutras e luxo silencioso.

O desafio é continuar diferente

A Copenhagen Fashion Week chega aos 20 anos sem precisar se transformar em uma nova Paris.

Paris concentra grandes maisons, conglomerados bilionários e décadas de poder institucional. Copenhagen conquistou espaço por uma lógica diferente, apoiada em design nórdico, descoberta de marcas, compradores internacionais, experimentação e sustentabilidade.

Os números mostram que essa construção ocorreu em paralelo à internacionalização da indústria.

As exportações dinamarquesas de moda cresceram 115% em duas décadas e superaram 42 bilhões de coroas, cerca de R$ 33,2 bilhões. Mais de 70% da receita do setor já vem do mercado externo.

O próximo desafio será preservar a capacidade de descobrir marcas antes que elas migrem para centros maiores, atrair empresas estrangeiras e transformar exigências ambientais em vantagem competitiva sem criar barreiras proibitivas para negócios menores.

A edição encerrada na sexta-feira reforça uma conclusão importante para além da moda: Copenhagen transformou uma semana de desfiles em infraestrutura de negócios para uma indústria exportadora.

As passarelas garantem atenção. A rede de capital, compradores, marcas e influência construída ao redor delas é o que explica por que, 20 anos depois, o mercado global continua olhando para Copenhagen.

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