Rafael Panonko afirma que a crise dos COEs da Ambipar expõe falhas na oferta de produtos estruturados.
Segundo o consultor, muitos investidores acreditavam ter capital protegido, mas não compreenderam os riscos.
“A indústria precisa proteger o pequeno investidor e mitigar conflitos de interesse”, diz Panonko.
“Antes de falar especificamente desse caso, é importante entender o lado perverso da indústria de investimentos em relação aos COEs, especialmente na forma como eles são oferecidos ao investidor pessoa física.” Foi assim que o economista e consultor de investimentos Rafael Panonko iniciou sua análise sobre o colapso dos Certificados de Operações Estruturadas (COEs) lastreados em títulos da Ambipar, um dos temas mais comentados do mercado financeiro nas últimas semanas.
A pedido do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, o consultor de investimentos dissecou o caso. Segundo ele, a ideia original do COE era legítima e até promissora.
“A ideia inicial era muito boa: permitir que o investidor comum tivesse acesso a uma estrutura de derivativos — algo complexo de compreender — de forma simples e acessível, com clareza sobre os cenários de ganho e de perda, ou seja, sobre a relação risco-retorno do produto.”
Mas, na prática, o formato acabou distorcido pela forma de comercialização.
“A maioria dos COEs disponíveis hoje é oferecida como um produto de capital protegido — essa é a expressão usada. Nesse modelo, o investidor tem o valor nominal do investimento protegido por uma estrutura de derivativos dentro do COE e participa de um cenário de valorização caso o ativo subjacente se mova a favor da operação. Assim, há uma relação risco-retorno favorável.”
O COE da Ambipar, porém, fugia desse padrão.
“No caso da Ambipar, essa proteção não existia. Era um COE de capital em risco, lastreado em título de dívida internacional. Talvez isso não tenha ficado claro para a maioria dos investidores. Na prática, tratava-se de um título de crédito inserido em uma estrutura de derivativos oferecida ao investidor pessoa física.”
Ele explica que o próprio produto continha cláusulas que deixavam evidentes os riscos.
“E o que aconteceu com a Ambipar recentemente? A Ambipar é uma empresa relativamente nova na Bolsa — tem cerca de cinco anos desde o IPO. Nesse período, realizou diversas aquisições e aumentou bastante o endividamento. Recentemente, entrou na Justiça com uma medida cautelar para se proteger de credores, diante de um cenário de desvalorização de seus ativos e pressão cambial, com a queda do dólar frente ao real.”
A consequência foi imediata.
“Esse movimento provocou forte desvalorização das ações da companhia na Bolsa e, no mercado secundário, os títulos de dívida caíram mais de 70%. Esse cenário acionou as cláusulas de liquidação antecipada dos COEs.”
De acordo com Panonko, as condições estavam descritas nos documentos de informações essenciais.
“Isso já estava previsto no Documento de Informações Essenciais (DIE), que descrevia os riscos e as condições. Quando ocorreu o rebaixamento da nota de crédito da empresa pelas agências de rating — S&P e Fitch Ratings — e a consequente desvalorização dos títulos no mercado secundário, esses gatilhos foram acionados.”
O resultado foi devastador para quem investiu.
“Os investidores desses COEs tiveram perdas significativas, superiores a 70% do capital investido. Muitos acreditavam que o produto tinha capital protegido.”
Para ele, o principal erro está na forma como esses produtos foram oferecidos e vendidos.
“Se foram apresentados como produtos com capital protegido, isso representa um erro grave. Mas é importante reconhecer que muitos investidores não leram o documento essencial, confiando apenas no discurso de quem ofereceu o produto.”
Panonko ressaltou que há um grande aprendizado no episódio.
“O investidor pessoa física não pode confiar cegamente no que escuta. É preciso ler e compreender os documentos, entender os riscos envolvidos. Porque, no fim do dia, juridicamente, o produto não tem nada de irregular — ele é apenas um investimento ruim, com uma relação risco-retorno assimétrica.”
Segundo o consultor, os COEs da Ambipar foram vendidos com a promessa de retorno acima da renda fixa, mas sem a devida clareza sobre o risco.
“O investidor buscava uma rentabilidade um pouco acima da renda fixa — algo em torno de 18% a 20% ao ano, num momento em que a taxa Selic estava perto de 15%. Parecia uma renda fixa melhorada, mas com risco de perda do principal.”
Essa assimetria, diz ele, torna o investimento pouco atrativo.
“E o modo como ele foi vendido mostra um lado perverso da indústria de investimentos com o público de varejo. O COE, que surgiu como uma boa ideia, passou a ser visto como um vilão, porque muitos desses produtos não entregam vantagem real ao investidor e, além disso, pagam altas comissões para quem vende.”
Panonko afirmou ainda que o investidor pessoa física acabou arcando com o ônus de um produto mal compreendido.
“O resultado é um produto com relação risco-retorno ruim, que muitas vezes é pior do que uma aplicação simples em renda fixa — com menor rendimento e risco maior. Se o investidor quer segurança, deveria buscar renda fixa tradicional. Se quer risco e potencial de ganho maior, pode investir em renda variável.”
Para ele, o mercado precisa repensar a forma de distribuição desses produtos.
“O ponto de atenção, portanto, está na forma como os COEs vêm sendo oferecidos ao investidor comum. Falta transparência. O mercado precisa proteger melhor o pequeno investidor e evitar a deterioração da confiança entre clientes, instituições financeiras e seus assessores.”
O consultor concluiu com um alerta:
“Esse conflito de interesses — entre o que é bom para o investidor e o que gera comissão para quem vende — precisa ser mitigado. Só assim a indústria financeira poderá ser saudável de fato.”
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