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Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, morre aos 100 anos

Publicado 22/06/2026 • 09:30 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Alan Greenspan comandou o Federal Reserve por 19 anos, durante quatro governos, de Ronald Reagan a George W. Bush.
  • Seu comentário de 1996 sobre a “exuberância irracional” dos investidores inicialmente chocou os mercados, mas a bolha só estourou em 2001.
  • “Com algumas palavras bem escolhidas, ele pode mandar o mercado de ações momentaneamente para o céu ou para o inferno”, escreveu uma coluna do Washington Post em 1997.

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Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve por 19 anos durante quatro governos morreu nesta segunda-feira (22), aos 100 anos.

Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve por 19 anos durante quatro governos e dominou a arte da linguagem pouco clara conhecida como “Fedspeak”, morreu. Ele tinha 100 anos.

O influente economista morreu na segunda-feira por complicações da doença de Parkinson, informou sua esposa há 29 anos, Andrea Mitchell, correspondente-chefe em Washington e de assuntos internacionais da NBC News.

Greenspan foi nomeado presidente do Fed em 1987 pelo presidente Ronald Reagan e ocupou o cargo — atravessando períodos de crises e crescimento econômico — até se aposentar em 2006. Seu mandato foi o segundo mais longo da história do banco central americano, quatro meses atrás apenas do de William McChesney Martin, que comandou a instituição de 1951 a 1970.

Em uma aparente tentativa de evitar abalar os mercados ou revelar as intenções do Fed antes da hora, Greenspan revestia suas declarações com uma linguagem que deixava até as mentes mais brilhantes — incluindo membros combativos do Congresso — tentando decifrá-las.

“As frases longas e complexas dele parecem retirar, no final, aquilo que haviam oferecido no início, enquanto avançam para novos níveis de incompreensão”, escreveu Bob Woodward, do Washington Post, em sua biografia de 2000, Maestro: Greenspan’s Fed and the American Boom.

Mas foi sua rara franqueza em um discurso televisionado, em 5 de dezembro de 1996, que desencadeou uma certa turbulência nos mercados. Ao discutir os desafios da política monetária, ele disse:

“Como sabemos quando a exuberância irracional elevou excessivamente os preços dos ativos, que então ficam sujeitos a contrações inesperadas e prolongadas, como aconteceu no Japão na última década? (…) Não devemos subestimar ou nos tornar complacentes diante da complexidade das interações entre os mercados de ativos e a economia.”

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A expressão “exuberância irracional” foi interpretada como um sinal de que Greenspan considerava o mercado supervalorizado. A bolsa de Tóquio, que estava aberta naquele momento, caiu 3% após o comentário, e outros mercados também recuaram. No entanto, as bolsas se recuperaram rapidamente e continuaram subindo até o estouro da bolha das empresas de tecnologia em 2001.

Anos antes, em 1974, quando era presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, Greenspan precisou explicar ao Congresso por que o governo não estava conseguindo conter a inflação — na época, o governo Ford chamava sua campanha contra a alta dos preços de “Whip Inflation Now” (“Combata a Inflação Agora”).

Em uma típica frase de “greenspanês” difícil de entender, ele afirmou: “É um problema delicado encontrar o ajuste adequado de tempo para conter a aceleração dos prêmios de risco provocada pela queda da renda sem interromper prematuramente a redução dos prêmios de risco gerados pela inflação.”

“Algumas pessoas, especialmente gestores de recursos que movimentam enormes quantias de dinheiro de um lugar para outro, pensam muito em Greenspan”, escreveram Linton Weeks e John M. Berry no Washington Post em março de 1997. “Eles acompanham cada palavra dele, observam cada movimento, analisam cada sorriso. Porque, depois do presidente, Alan Greenspan é provavelmente a pessoa mais poderosa do país. (…) Com algumas palavras bem escolhidas, ele pode mandar o mercado de ações momentaneamente para o céu ou para o inferno.”

Após deixar o Fed, Greenspan revelou sua estratégia de usar uma linguagem confusa com uma explicação simples.

“É uma linguagem de obscuridade intencional para evitar que certas perguntas surjam, perguntas que você sabe que não pode responder. E dizer ‘não vou responder’ ou basicamente ‘sem comentários’ é, na verdade, uma resposta”, disse ele em uma entrevista à CNBC em 2007.

“Então, quando um congressista faz uma pergunta e você não quer dizer ‘sem comentários’ ou ‘não vou responder’, eu prossigo com quatro ou cinco frases que ficam cada vez mais obscuras. O congressista acha que eu respondi e passa para a próxima pergunta.”

Greenspan nasceu em uma família judia em 6 de março de 1926, no bairro de Washington Heights, em Nova York. Seu pai era corretor de valores e analista financeiro. Quando criança, durante a Grande Depressão dos anos 1930, o futuro presidente do Fed recebia uma mesada de 25 centavos por semana.

“Vinte e cinco centavos, posso dizer, compravam muito mais naquela época do que compram hoje”, afirmou Greenspan em 2003.

Greenspan tocava clarinete e saxofone e estudou brevemente na Juilliard School. Ele tocou na banda de jazz de Woody Herman — assim como outro futuro funcionário da Casa Branca, Leonard Garment — antes de ingressar na Universidade de Nova York, onde concluiu graduação e mestrado em economia até 1950. Mais tarde, recebeu seu doutorado em 1977, aos 51 anos.

Entre seus professores e mentores estavam o futuro presidente do Fed Arthur Burns e a defensora do livre mercado Ayn Rand, apresentada a Greenspan por sua primeira esposa, a artista Joan Mitchell.

Quando recebeu seu doutorado, ele já havia trabalhado no Brown Brothers Harriman, no National Industrial Conference Board e na consultoria Townsend-Greenspan, encerrada após sua indicação ao cargo de presidente do Fed. Sua passagem de três décadas pela empresa foi interrompida quando ele presidiu o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Gerald Ford, entre 1974 e 1977. De 1981 a 1983, liderou a Comissão Nacional de Reforma da Previdência Social.

Seu primeiro emprego como economista pagava pouco mais do que sua mesada de infância: US$ 45 por semana.

Seu primeiro dos cinco mandatos à frente do Fed começou pouco antes da crise financeira de 1987. O Senado confirmou sua nomeação para substituir Paul Volcker em 11 de agosto.

Apenas 69 dias depois, a “Segunda-feira Negra” derrubou Wall Street, em 19 de outubro. O índice Dow Jones caiu 508 pontos — 22,6% — no pregão, a maior queda diária da história até então. No dia seguinte, Greenspan afirmou que o Fed estava pronto para “servir como fonte de liquidez para apoiar o sistema econômico e financeiro”. O banco central reduziu as taxas de juros de curto prazo para incentivar os bancos a continuar emprestando.

A estratégia ajudou a acalmar os mercados e evitou uma recessão e uma crise bancária. Em dois dias, o Dow Jones recuperou mais de metade das perdas da Segunda-feira Negra. A postura firme também ajudou a render a Greenspan o apelido de “Maestro”, dado por seus apoiadores.

Anos depois, críticos culparam a política de dinheiro barato — o chamado “Greenspan put”, usado por ele para acalmar pânicos financeiros — pelas condições que levaram à Grande Recessão.

“É a economia DELE, idiota”, declarou a revista Fortune em março de 1996, fazendo referência ao slogan de campanha usado por Bill Clinton contra George H. W. Bush quatro anos antes. “Em Greenspan nós confiamos”, dizia o título da reportagem.

Depois daquele início turbulento, ele liderou o Fed durante duas recessões, a crise financeira asiática de 1997, o calote da Rússia em 1998, o resgate do fundo de investimentos Long-Term Capital Management em 1998, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e a ascensão e queda das empresas de tecnologia no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000.

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Ao longo desse período, priorizou o combate à inflação em vez da promoção do pleno emprego. Seus apoiadores afirmam que ele presidiu o período de expansão econômica mais longo da história dos Estados Unidos, enquanto críticos dizem que suas políticas de juros baixos ajudaram a criar a bolha imobiliária que explodiu na Grande Recessão, um ano depois de seu sucessor, Ben Bernanke, assumir o comando do Fed.

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“Às vezes sou criticado, e mereço ser criticado, isso faz parte do jogo”, disse Greenspan ao USA Today em 2007. “Mas, neste caso, sou inocente.”

Greenspan reconheceu que sabia sobre as práticas questionáveis de concessão de crédito que incentivavam tomadores de empréstimos de alto risco (subprime) a optar por hipotecas com juros ajustáveis e condições arriscadas.

“Embora eu soubesse que muitas dessas práticas estavam acontecendo, eu não tinha noção de quão significativas elas haviam se tornado até muito tarde”, afirmou em uma entrevista de 2007 ao programa “60 Minutes”, da CBS. “Eu realmente só percebi a dimensão disso no fim de 2005 e em 2006.”

Em seu best-seller de memórias, The Age of Turbulence (“A Era da Turbulência”, em tradução livre), ele defendeu a política de juros baixos, que incentivou a compra de imóveis: “Eu acreditava naquela época, como acredito agora, que os benefícios de ampliar o acesso à casa própria valiam o risco. A proteção dos direitos de propriedade, tão importante para uma economia de mercado, exige uma massa crítica de proprietários para sustentar o apoio político.”

Greenspan escreveu o livro à mão, principalmente enquanto tomava banho em uma banheira, devido a uma lesão nas costas. Na verdade, a maior parte de seus discursos foi escrita dessa forma depois que ele machucou a coluna em 1971.

Após deixar o Fed, Greenspan abriu sua própria empresa de consultoria, a Greenspan Associates.

O primeiro casamento de Greenspan terminou em divórcio após menos de um ano. Em 1997, ele se casou com a jornalista da NBC Andrea Mitchell, também uma figura de Washington e admiradora de música clássica, 20 anos mais jovem que ele. A cerimônia foi conduzida pela então juíza da Suprema Corte americana Ruth Bader Ginsburg.

Em suas memórias de 2007, Greenspan elogiou os presidentes Gerald Ford e Bill Clinton, mas criticou duramente o presidente George W. Bush por não controlar os gastos públicos.

“Pouco valor foi dado ao debate rigoroso sobre política econômica ou à avaliação das consequências de longo prazo”, escreveu o republicano autodeclarado libertário. “Eles trocaram princípios por poder. Acabaram ficando sem nenhum dos dois. Mereciam perder.”

Ele também criticou os ataques de Donald Trump, durante seu primeiro mandato, contra o Fed em uma tentativa de pressionar por juros mais baixos. Em participação no programa “Squawk on the Street”, da CNBC, pouco depois de um tuíte de Trump contra o banco central em dezembro de 2019, Greenspan afirmou:

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“Ele está errado até mesmo em discutir essa questão. O Federal Reserve é uma instituição extremamente profissional. Eles entendem muito mais sobre o funcionamento da economia, como ela afeta os mercados financeiros e a estrutura das taxas de juros do que ele. (…) O melhor a fazer é simplesmente ignorar. Eu nem soube nesta manhã que o presidente havia feito uma declaração. Tenho certeza de que foi mal aconselhada.”

Durante o segundo mandato de Trump, em janeiro de 2026, Greenspan assinou uma declaração conjunta com outros ex-integrantes do Fed e autoridades do Tesouro para criticar uma investigação criminal contra o presidente do Fed, Jerome Powell.

“A investigação criminal relatada contra o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, é uma tentativa sem precedentes de usar ataques judiciais para enfraquecer essa independência”, dizia o comunicado, apoiado por Greenspan e mais de uma dúzia de outros signatários.

Greenspan reconhecia os limites da influência do Fed. Questionado em uma entrevista à CNBC em 2008 sobre se o banco central deveria receber mais poder para regular bancos de investimento, respondeu:

“O que me preocupa é basicamente o Fed receber a responsabilidade de supervisionar a estabilidade do sistema financeiro. Não acho que ninguém consiga fazer isso. E fico especialmente preocupado porque, se o Fed assumir essa função e falhar, como todos os outros já falharam e irão falhar, não é possível prever o futuro. Acho que isso prejudica a credibilidade do sistema de bancos centrais.”

No fim, ele percebeu que, apesar de toda a ciência envolvida na economia, o gerenciamento de riscos financeiros não consegue vencer situações de colapso como a Grande Recessão.

“Medo e euforia são forças dominantes, e o medo é muitas vezes maior do que a euforia”, disse ele à Associated Press após a publicação de seu livro The Map and the Territory 2.0 (“O Mapa e o Território 2.0”, em tradução livre), em 2013.

“As bolhas sobem muito lentamente enquanto a euforia cresce. Então o medo aparece, e a queda acontece de forma muito rápida. Quando comecei a analisar isso, fiquei intelectualmente chocado. O contágio é o fenômeno fundamental que faz tudo desmoronar.”

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