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CNBCGoverno Trump anuncia plano global de sanções contra o Irã e indica que China não ficará isenta

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Sanções dos EUA ao Irã podem atingir compradores de petróleo e pressionar Brasil

Publicado 24/08/2026 • 16:58 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Estados Unidos têm instrumentos para aplicar sanções secundárias a países que mantiverem relações comerciais com o Irã, segundo Vitelio Brustolin.
  • China concentra entre 80% e 90% das compras do petróleo iraniano, enquanto restrições na região também ameaçam fluxos de gás natural.
  • Brasil importa entre 80% e 85% dos fertilizantes e deveria ampliar sua autonomia diante dos riscos geopolíticos sobre insumos estratégicos.

Os Estados Unidos têm condições de ampliar as sanções contra o Irã para atingir países e organizações que continuarem negociando com Teerã, embora Washington ainda não tenha revelado quais serão os alvos específicos das novas medidas, avaliou Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard. Em entrevista nesta segunda-feira (24) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele afirmou que o histórico americano mostra que compradores secundários podem ser alcançados pelas restrições, enquanto uma escalada das tensões ameaça petróleo, gás natural e insumos importantes para o Brasil.

Segundo Brustolin, parte das sanções econômicas contra o Irã havia sido suspensa até 21 de agosto, dentro do memorando de entendimento firmado entre Washington e Teerã em junho. Os Estados Unidos, portanto, esperaram o encerramento formal desse prazo antes de sinalizar um novo pacote de medidas.

Os Estados Unidos esperaram até o prazo formal de vencimento daquela suspensão de sanções para anunciar esse novo pacote”, explicou. A expectativa, segundo ele, era de que Washington apresentasse uma extensa relação de países, organizações e integrantes da chamada “frota das sombras” iraniana, utilizada para transportar petróleo sem a bandeira do país.

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EUA podem alcançar compradores do Irã

Apesar das expectativas, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, não detalhou os alvos das medidas. Brustolin destacou, porém, que Washington dispõe de mecanismos para pressionar também países que negociam com Teerã.

Ele disse que os Estados Unidos podem ser muito rigorosos, podem, sim, afetar países que comercializam com o Irã”, afirmou. Segundo o professor, não seria uma estratégia inédita: medidas adotadas contra a Rússia também chegaram, em determinados momentos, a compradores de produtos russos.

O próprio Brasil, lembrou Brustolin, já esteve sob ameaça de medidas relacionadas às importações de óleo diesel russo. “Sim, há condições de os Estados Unidos o fazerem”, disse. Ele ponderou, contudo, que “até o momento, os alvos específicos dessa escalada de sanções não foram anunciados”.

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China está no centro do comércio de petróleo iraniano

Uma eventual tentativa de restringir as vendas de petróleo do Irã coloca principalmente a China no centro da disputa. De acordo com Brustolin, antes da guerra, estimava-se que entre 80% e 90% do petróleo vendido pelo Irã tivesse como destino o mercado chinês.

“O restante, os 10%, 15% restantes, era direcionado também a países asiáticos, como a Índia, por exemplo”, afirmou. O impacto potencial, porém, vai além do petróleo e alcança também o mercado internacional de gás natural.

A gente fala muito que 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, mas também quase 20% do gás natural passa por ali”, explicou. Segundo Brustolin, o fluxo ganhou ainda mais importância para a Europa depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, quando países europeus buscaram fornecedores alternativos, entre eles o Catar.

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O professor citou ainda Emirados Árabes Unidos e Bahrein entre os países pressionados pelas dificuldades de escoamento na região. A Arábia Saudita, por sua vez, consegue transportar parte do petróleo por um oleoduto que atravessa seu território em direção ao Mar Vermelho.

Aliados dos EUA enfrentam dificuldades para exportar

A crise cria um problema adicional para Washington porque alguns dos países afetados são aliados estratégicos dos Estados Unidos. Brustolin lembrou que Donald Trump dedicou atenção especial às monarquias do Golfo em suas viagens internacionais.

Nas duas primeiras viagens internacionais do Trump, no primeiro mandato e nesse mandato, ele foi justamente para esses países, para a Arábia Saudita, para o Catar, para o Bahrein”, afirmou. Segundo ele, o objetivo americano foi atrair investimentos e reforçar os compromissos de segurança com a região.

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Brustolin afirmou que esses países se comprometeram com investimentos superiores a US$ 1 trilhão cada um nos próximos dez anos – cerca de R$ 5,15 trilhões, pela conversão adotada – em troca da proteção americana. “Mas, nesse momento, essa segurança, como nós vemos, não está sendo providenciada”, avaliou.

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As dificuldades de circulação também estimularam investimentos em novas rotas. Segundo o professor, países como Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein participam de projetos envolvendo gasodutos sauditas que estão sendo adaptados para transportar petróleo e reduzir a dependência das rotas atualmente afetadas.

Fertilizantes deixam Brasil vulnerável

Para o Brasil, uma eventual ampliação das sanções americanas traz preocupação especialmente em relação aos fertilizantes. Brustolin lembrou que o país já enfrentou problemas de abastecimento depois da invasão russa da Ucrânia e voltou a defender uma discussão sobre maior autonomia nacional na produção desses insumos.

O Brasil teria condições de fazer isso, mas economicamente era mais interessante importar, porque é mais barato ainda para o nosso país importar do que produzir”, afirmou. O cenário geopolítico, porém, muda essa equação ao introduzir riscos que vão além do preço.

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Segundo Brustolin, o Brasil importa atualmente entre 80% e 85% dos fertilizantes que utiliza. “Nós estamos percebendo que não se trata apenas de uma questão econômica, é uma questão geopolítica”, destacou.

Parte desses produtos depende de hidrocarbonetos e derivados de petróleo ligados à região afetada pelas tensões. Para Brustolin, a vulnerabilidade merece atenção especial diante da importância do agronegócio para a economia brasileira.

Um país agrícola como o Brasil, forte exportador de insumos agrícolas, não conseguir produzir mais fertilizantes” é uma questão relevante, afirmou. Na avaliação do professor, o tema poderia inclusive estar presente nos debates eleitorais brasileiros.

Crise também ameaça insumos médicos

Os riscos para o Brasil não terminam nos fertilizantes. Brustolin apontou a dependência de outros produtos que transitam pela região, incluindo insumos utilizados pela indústria de plásticos e pelo setor de saúde.

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Há um hub interessante em Dubai”, explicou. Segundo ele, a cidade se consolidou como um centro para a exportação de insumos destinados a vacinas e medicamentos, especialmente produtos que, por serem perecíveis em prazos mais curtos, dependem do transporte aéreo.

As interrupções provocadas pela guerra, afirmou, também afetaram esse fluxo. Para Brustolin, episódios como esse reforçam a necessidade de o Brasil reduzir vulnerabilidades em cadeias consideradas estratégicas.

O Brasil poderia, deveria investir na sua autonomia, pelo menos para conseguir, nesses momentos de crise, ser mais autossuficiente”, concluiu.

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