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O que é a Doutrina Monroe, que voltou às manchetes com Trump
Publicado 03/01/2026 • 17:20 | Atualizado há 2 semanas
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Publicado 03/01/2026 • 17:20 | Atualizado há 2 semanas
KEY POINTS
O que é a Doutrina Monroe, que voltou às manchetes com Trump
O que é a Doutrina Monroe, que voltou às manchetes com Trump
A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças militares dos Estados Unidos recolocou a América Latina como prioridade na política externa americana e trouxe de volta ao debate um conceito histórico que há décadas gera controvérsia na região: a Doutrina Monroe.
Formulada há mais de dois séculos, a doutrina voltou às manchetes após o governo de Donald Trump sinalizar uma reorientação estratégica, com maior foco no hemisfério ocidental e menor envolvimento em compromissos globais considerados secundários.
A nova Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca prevê ajustes na presença militar dos EUA para enfrentar ameaças classificadas como urgentes no continente americano e afirma que Washington deve “retomar” os princípios da Doutrina Monroe em um contexto de disputa geopolítica crescente.
Criada em 1823, a Doutrina Monroe foi apresentada pelo então presidente James Monroe em discurso ao Congresso dos EUA. Seu princípio central ficou conhecido pela frase “América para os americanos”.
Na prática, Monroe advertiu que qualquer tentativa de colonização ou intervenção de potências europeias no continente americano seria vista como uma ameaça direta aos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o governo americano se comprometia a não intervir nos conflitos internos da Europa. O discurso ocorreu poucos anos após as independências de vários países da América Latina, que haviam rompido com impérios como Espanha e Portugal.
Embora apresentada como uma política de proteção à soberania das novas nações americanas, a Doutrina Monroe acabou servindo, ao longo do tempo, como base para uma política expansionista dos EUA. No século XIX, Washington ainda não tinha força militar suficiente para impor a doutrina de forma consistente, dependendo, em muitos casos, do apoio naval britânico.
Com o avanço do poder econômico e militar americano, especialmente a partir do fim do século XIX, a doutrina passou a ser reinterpretada como justificativa para intervenções diretas na América Latina, incluindo a invasão do México, a ocupação de territórios no Caribe e ações militares em países da América Central.
No início do século XX, o presidente Theodore Roosevelt ampliou o alcance da doutrina ao afirmar que os EUA poderiam intervir nos assuntos internos de países latino-americanos em casos de “crimes flagrantes” ou instabilidade. Esse entendimento consolidou o papel de Washington como uma espécie de “polícia do continente”, resultando em dezenas de intervenções políticas, econômicas e militares ao longo das décadas seguintes.
Durante a Guerra Fria, diferentes governos americanos recorreram à Doutrina Monroe para justificar ações contra governos considerados alinhados ao comunismo, reforçando sua influência regional.
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Segundo especialistas, a retomada explícita da Doutrina Monroe na estratégia de Trump ocorre em um cenário de competição direta com a China, especialmente na América Latina. A avaliação é que os EUA buscam limitar o acesso chinês a recursos estratégicos e reduzir sua influência econômica e tecnológica na região.
Para a cientista política Carolina Moehlecke, da FGV, a doutrina ressurge de forma mais ofensiva ao estabelecer a América Latina como prioridade absoluta de segurança. Já Marcos Sorrilha, da Unesp, aponta um paralelo com políticas do início do século XX, quando os EUA buscavam garantir espaço para a expansão de suas empresas e interesses econômicos.
A volta da Doutrina Monroe ao discurso oficial ganha ainda mais peso diante da escalada de tensões entre os EUA e a Venezuela, culminando na recente ação militar americana no país. O envio de uma frota naval ao Caribe e o endurecimento do discurso de Washington reforçam a leitura de que a América Latina voltou ao centro da política externa americana.
Historicamente, em nome da Doutrina Monroe, os EUA realizaram sucessivas intervenções na região, o que levou a América Latina a ser frequentemente descrita como o “quintal” de Washington.
Para parte dos historiadores, a Doutrina Monroe não pode ser aplicada hoje da mesma forma que no século XIX. O argumento é que seu sentido original, voltado contra o colonialismo europeu, perdeu relevância em um mundo multipolar. Outros especialistas, porém, avaliam que a lógica central permanece: os Estados Unidos continuam se vendo como potência predominante no hemisfério ocidental.
Duzentos anos depois, a Doutrina Monroe segue sendo menos um conceito fixo e mais um instrumento político, reinterpretado conforme os interesses estratégicos de Washington em cada momento histórico.
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