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Escalada no Mar Vermelho eleva risco do transporte de petróleo e pode encarecer combustíveis no Brasil, diz especialista

Publicado 28/07/2026 • 09:20 | Atualizado há 47 minutos

KEY POINTS

  • Fluxo de embarcações no estreito de Bab El-Mandeb caiu ao menor nível em meses.
  • Nova escalada ocorre enquanto o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, também permanece sob tensão.
  • Segundo especialista, tensão nas vias marítimas pode ter impactos nos preços dos combustíveis no Brasil.

Petroleiros retratados no Estreito de Ormuz — uma hidrovia estrategicamente importante que separa o Irã, Omã e os Emirados Árabes Unidos.

A ameaça dos Houthis de bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, aumentou a preocupação do mercado internacional com a segurança de duas das principais rotas marítimas do mundo para o transporte de petróleo. Após ataques com mísseis e drones contra instalações petrolíferas da Arábia Saudita e o anúncio de um bloqueio à navegação comercial saudita, o fluxo de embarcações na passagem caiu ao menor nível em meses.

A nova escalada ocorre enquanto o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, também permanece sob tensão, aumentando o risco de interrupções simultâneas em corredores estratégicos para o abastecimento global de energia.

Dados da Kpler mostram que apenas 11 navios de carga de commodities cruzaram Bab el-Mandeb no domingo, o menor volume registrado nos últimos meses. Paralelamente, Omã apresentou ao Irã uma proposta para criar um mecanismo regional de gestão compartilhada do Estreito de Ormuz, em uma tentativa de preservar a segurança da navegação na região.

Leia também: Fechado pelos Houthis: entenda a importância do estreito de Bab al-Mandab para o petróleo global

Segundo o advogado especialista em logística, direito marítimo e comércio exterior Larry Carvalho, a relevância de Ormuz vai além do volume de petróleo transportado. Ele explica que a passagem concentra mais de um quarto do petróleo transportado por via marítima no mundo e cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito, sem que existam rotas alternativas capazes de substituir essa capacidade.

“O problema central não é apenas o volume transportado, mas a inexistência de alternativas capazes de substituir Ormuz em escala equivalente”, afirma.

De acordo com Carvalho, não é necessário que o estreito seja oficialmente fechado para que o mercado reaja. A simples percepção de risco já leva armadores, seguradoras e operadores logísticos a cancelar viagens, alterar rotas e cobrar prêmios adicionais de guerra.

“O preço internacional do petróleo incorpora não apenas a oferta física existente, mas também a expectativa sobre a oferta futura. Quando surge o risco de interrupção em Ormuz, o mercado acrescenta ao barril um prêmio geopolítico”, explica.

Bab el-Mandeb amplia a pressão sobre a logística

Para o especialista, a situação atual preocupa porque os riscos deixaram de estar concentrados em um único ponto estratégico. Segundo ele, a Arábia Saudita vinha utilizando o oleoduto Leste-Oeste para reduzir a dependência de Ormuz, mas os ataques dos houthis passaram a atingir justamente essa rota alternativa.

“A situação atual é particularmente preocupante porque o mercado não está lidando com um único ponto de risco, mas com dois estreitos estratégicos potencialmente comprometidos ao mesmo tempo”, afirma.

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Carvalho destaca que os ataques elevaram significativamente os custos das operações marítimas. Além dos seguros contra risco de guerra, armadores passaram a enfrentar despesas adicionais com segurança, compliance, possíveis desvios de rota e atrasos na entrega das cargas. “Esses custos são progressivamente incorporados ao preço do petróleo e dos derivados”, ressalta.

Brasil também sente os reflexos

Embora o Brasil produza petróleo suficiente para exportação, o país continua dependente da importação de derivados, especialmente diesel. Por isso, segundo Carvalho, os efeitos de uma crise prolongada no Oriente Médio chegam ao mercado brasileiro mesmo sem que o combustível importado tenha origem na região.

“É importante distinguir autossuficiência em petróleo bruto de autossuficiência em combustíveis”, afirma o especialista.

Ele explica que, diante da redução da oferta de petróleo do Golfo, compradores internacionais passam a disputar cargas produzidas em outras regiões, elevando os preços globais e o custo de reposição dos combustíveis para todos os importadores.

Além da alta do petróleo, Carvalho aponta que uma eventual valorização do dólar e o aumento dos fretes marítimos e dos seguros podem ampliar a pressão sobre os preços no Brasil.

Na avaliação do especialista, o diesel tende a ser o combustível mais sensível ao aumento dos custos logísticos. Como o transporte rodoviário concentra a distribuição de mercadorias no país, a elevação do preço do combustível pode atingir diferentes setores da economia.

“O diesel possui um efeito particularmente disseminado sobre a inflação porque o transporte rodoviário continua sendo o principal meio de distribuição de alimentos, medicamentos, insumos industriais e produtos de consumo”, afirma.

Carvalho acrescenta que uma crise prolongada também pode elevar os custos de fertilizantes e produtos petroquímicos, com reflexos sobre a agricultura e os preços dos alimentos.

Apesar dos riscos, ele pondera que o impacto dependerá da duração da crise, da evolução do câmbio, da disponibilidade de estoques, da capacidade de refino nacional e da política comercial da Petrobras.

“Uma interrupção de poucos dias tende a produzir sobretudo volatilidade financeira. Já uma crise que se prolongue por meses, especialmente envolvendo simultaneamente Ormuz e Bab el-Mandeb, teria potencial para transformar um choque marítimo localizado em um choque global de energia e inflação”, conclui.

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