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França vê protestos pressionarem mercados e investidores avaliam riscos para o déficit, o crescimento e setores expostos

Publicado 25/10/2026 • 07:45 | Atualizado há 52 minutos

KEY POINTS

  • Ministério do Interior contabiliza 410 mil manifestantes no sábado, e sindicatos falam em número duas vezes maior
  • Moody’s mantém nota Aa3 da França com perspectiva negativa e cita fragmentação política
  • Varejo, turismo, hotelaria e logística são os setores mais expostos, e ações do Carrefour caíram mais de 14%
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AFP

A onda de manifestações que tomou as ruas da França no sábado (24) elevou a cautela de investidores, que já lidavam com os juros mais altos do país desde 2002. Gestores de fundos avaliam se uma desordem prolongada pode reduzir o crescimento, minar a confiança e dificultar o cumprimento das metas de economia do orçamento.

Segundo o Ministério do Interior, 410 mil pessoas participaram dos atos em todo o país. Os sindicatos, porém, afirmam que o total é duas vezes maior. A CGT fala em cerca de 800 mil manifestantes, sendo 250 mil em Paris.

Durante o dia, as marchas transcorreram de forma pacífica. À noite, houve confrontos em Paris e em Marseille, apesar do forte esquema de segurança montado para evitar a repetição da violência do fim de semana anterior.

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França enfrenta juros no maior nível desde 2002

Os protestos se somam à pressão sobre a dívida do país. Na quinta-feira (22), o rendimento dos títulos de 10 anos, conhecidos como OATs, subiu 11 pontos-base e chegou ao maior patamar desde 2002.

Com isso, o diferencial em relação aos Bunds alemães, referência para a dívida da zona do euro, alcançou o maior nível desde novembro de 2011.

Moody’s mantém nota e perspectiva negativa

Na sexta-feira (23), a Moody’s manteve a nota Aa3 da França, nível que a agência ainda classifica como de alta qualidade, e preservou a perspectiva negativa.

“A perspectiva negativa reflete o risco maior de que a fragmentação do panorama político da França continue prejudicando o funcionamento das instituições legislativas do país”, afirmou a agência no relatório.

A Moody’s acrescentou que pode devolver a perspectiva ao patamar estável se as instituições conseguirem reduzir o déficit orçamentário.

Orçamento de 2027 depende de votação

O governo pretende reduzir o déficit para 5% do PIB em 2027, ante projeção de 5,4% em 2026. A Assembleia Nacional retoma na terça-feira (27) a discussão das medidas tributárias que devem gerar a economia, mas parlamentares da oposição resistem ao plano.

Para Alain Durré, chefe de pesquisa econômica para a região EMEA (Europa, Oriente Médio e África) do Natixis CIB, o governo está decidido a evitar uma alta abrupta no custo de financiamento. Ele afirmou que o Executivo pode recorrer ao artigo 49.3, que permite aprovar um projeto sem votação final, a menos que os deputados aprovem uma moção de censura. Outra via seria o uso de decretos.

De acordo com Durré, isso ajudaria a acalmar os ânimos e a recuperar a confiança dos investidores. Ele observou que a pressão recente sobre a dívida francesa vem de reposicionamentos táticos de carteira, enquanto os investidores tradicionais, que mantêm os papéis no longo prazo, “ainda estão de fora”.

Já Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury, vê incerteza sobre a aprovação do texto. “Não está claro se o orçamento de 2027 passará no Parlamento. Mesmo que passe, parece que será tão cheio de concessões à esquerda e à direita que o problema do déficit ficará insuficientemente tratado”, disse.

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França vê crescimento sob risco

Há ainda novos atos no calendário. Uma jornada nacional de greves e protestos, apoiada por sindicatos, está marcada para quinta-feira (5 de novembro), e manifestantes do movimento antissistema dos Coletes Amarelos estão entre os que convocam mais mobilizações.

Charlotte de Montpellier, economista sênior para França e Suíça do ING, projetava crescimento de apenas 0,3% do PIB em 2026 e de 0,6% em 2027. Em nota de 20 de outubro, ela afirmou que o resultado pode ser ainda menor se os protestos continuarem, a confiança piorar ou as tensões de mercado aumentarem.

Segundo a economista, o mercado pode ignorar uma interrupção curta, mas “uma perda duradoura de confiança pode ter impacto maior”. Ela citou que o Insee, instituto de estatísticas da França, estimou que os Coletes Amarelos podem ter reduzido o PIB do quarto trimestre de 2018 em 0,1 ponto percentual. Já a Banque de France calculou efeito de cerca de 0,1 ponto percentual no primeiro trimestre de 2023, por causa das paralisações nos protestos contra a reforma da Previdência.

Além disso, a violência pode afastar famílias dos centros urbanos, levar turistas a adiar viagens e fazer empresas postergarem investimentos.

Durré lembrou que a confiança do consumidor francês já estava próxima das mínimas históricas antes dos atos, o que deixa pouca margem para absorver um novo choque. Ele apontou dois sinais de alerta para os mercados. O primeiro é o risco de que a desordem prolongada pese sobre o PIB. O segundo são os temores de que a pressão política inviabilize cortes de gastos previstos pelo governo. Em ambos os casos, o déficit aumentaria e ultrapassaria a meta de 5% do PIB.

Varejo, turismo e logística lideram exposição

O índice CAC 40, da bolsa de Paris, acumula queda de 4,5% em um mês. O ING identificou varejo, hotelaria e turismo, além de transporte e logística, como os setores mais diretamente expostos à turbulência.

De acordo com De Montpellier, lojas e shopping centers enfrentam menor circulação, fechamentos e perda de vendas. Hotéis, cafés, restaurantes e serviços de viagem correm o risco de perder atividade que os clientes dificilmente reprogramam. O setor de transporte e logística também pode sofrer se a paralisação persistir.

O Carrefour é o exemplo mais recente. As ações da rede de supermercados caíram mais de 14% na quarta-feira (21), depois que a empresa reduziu a projeção de lucro e os investimentos, citando os protestos e a alta dos custos de energia como fatores de peso sobre o consumo. O presidente-executivo, Alexandre Bompard, disse que o país vive uma “situação sem precedentes”.

Mais de 2 mil empresas haviam sido afetadas diretamente até terça-feira (20), segundo o ING, com base em estimativas das câmaras de comércio francesas.

O impacto pode ir além das companhias mais expostas, na avaliação de Kevin Thozet, consultor de portfólio e membro do comitê de investimentos da Carmignac. Em e-mail à CNBC, ele afirmou que o cenário não ajuda os bancos, pelo custo de capital mais alto, e que a incerteza prolongada pode desacelerar a concessão de crédito e gerar problemas de inadimplência.

O setor de luxo, que obtém a maior parte das vendas no exterior, tem exposição direta limitada. A França respondeu por 8% da receita da LVMH em 2025. Os atos, contudo, podem afetar o turismo e, com isso, as compras com isenção de impostos, que representam cerca de 20% da receita da empresa no país, segundo Thozet.

“Mais seis meses de vácuo político é muito tempo para os mercados, a economia e os empresários”, disse.

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