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Payroll fraco aumenta incertezas sobre juros nos EUA, avalia analista
Publicado 10/08/2026 • 13:00 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 10/08/2026 • 13:00 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
O mercado de trabalho dos Estados Unidos apresenta sinais de estagnação, e os dados mais recentes do payroll reforçam a percepção de enfraquecimento da economia. Para Leandro Benincá, consultor de investimentos da API Capital, no entanto, ainda é cedo para concluir que o país esteja entrando em uma trajetória de recessão. Segundo ele, o cenário atual é marcado por baixas contratações, poucas demissões e maior dificuldade para recolocação de trabalhadores que perderam o emprego.
Benincá chama atenção ainda para a margem de erro dos dados divulgados pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas de emprego nos Estados Unidos. Segundo ele, a margem pode chegar a 122 mil vagas para cima ou para baixo. “Estatisticamente, 23 mil vagas e 99 mil vagas são a mesma coisa por causa do tamanho da margem de erro”, afirmou.
A amplitude dessa margem ajuda a explicar as revisões realizadas nos meses seguintes à divulgação inicial dos dados. Para o consultor, uma avaliação mais precisa do mercado de trabalho americano deverá ser possível apenas em 28 de agosto, quando será divulgado o dado anual e o BLS fará o cruzamento das informações com os dados do seguro-desemprego.
Leia também: Bolsas da Europa fecham em alta após payroll dos EUA reforçar expectativa sobre juros do Fed
Benincá cita como exemplo o resultado do ano passado. Inicialmente, o crescimento do emprego era estimado em 584 mil postos, mas o número foi posteriormente revisado para 181 mil.
Outro ponto destacado pelo consultor é a composição dos dados. Segundo ele, a única faixa etária que apresentou resultado positivo foi a de trabalhadores entre 25 e 54 anos, considerada o principal núcleo produtivo da economia. O grupo avançou 0,1 ponto percentual.
A leitura, na avaliação de Benincá, enfraquece a hipótese de um desalento generalizado entre os trabalhadores e pode indicar a influência de fatores estruturais, como envelhecimento da população e imigração. Ele também aponta a necessidade de revisão dos dados referentes ao emprego no setor público, que registrou perda de 51 mil vagas.
Apesar da taxa de desemprego permanecer relativamente baixa, em 4,1%, Benincá considera mais preocupante o comportamento do número de vagas disponíveis. Segundo ele, o volume caiu de aproximadamente 7,45 milhões para 7,42 milhões. “O ideal é que essas vagas estivessem crescendo. Elas estão encolhendo. Então, a preocupação do mercado não é tanto com o número de desempregados, mas com o número de vagas”, afirmou.
Na avaliação do consultor, um mercado de trabalho aquecido depende da abertura de novas oportunidades pelas empresas. Por isso, mesmo que o nível de emprego não apresente uma queda expressiva, a redução das vagas disponíveis pode indicar perda de dinamismo da economia.
As contratações também permanecem praticamente estáveis, enquanto as demissões giram em torno de 3,2 milhões. Para Leandro, o conjunto aponta para um cenário de “estagnação”.
Leia também: Payroll: Mercado de trabalho dos EUA perde 23 mil vagas em julho; mercado previa a criação de 80 mil
O mercado, por outro lado, encontrou um ponto positivo na perspectiva de política monetária. A possibilidade de uma inflação mais fraca pode abrir espaço para juros menores nos Estados Unidos e favorecer os mercados financeiros.
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Siga o Times | CNBCO consultor afirma, porém, que há uma nova fonte de incerteza para o Federal Reserve: a divergência entre diferentes indicadores de inflação. Segundo ele, enquanto o CPI aponta inflação de 3,5%, o PCE está em 3,7% e uma medida acompanhada pelo Fed de Dallas indica 2,2%. “Qual é a inflação americana? É 2,2%, 3,5% ou 3,7%?”, questionou.
O cenário levou diferentes indicadores de mercado a apresentarem projeções divergentes para a próxima reunião do Fed. Segundo Benincá, o FedWatch, ferramenta acompanhada pelo mercado, apontava 44% de probabilidade de alta dos juros em setembro. Na Polymarket, a possibilidade era estimada em 37%, enquanto o JPMorgan projetava 65% de chance de aumento. “Nem o mercado concorda, nem o próprio governo concorda e nem os órgãos dentro do governo concordam. Então, de fato, ninguém sabe o que vai acontecer”, afirmou.
Para o consultor, a queda dos preços dos combustíveis também pode contribuir para uma desaceleração da inflação americana. A gasolina, segundo ele, chegou a cerca de US$ 4 por galão, após ter subido de US$ 3,60.
Ainda assim, permanece a dúvida sobre se os dados de emprego representam uma economia efetivamente estagnada ou uma transformação estrutural do mercado de trabalho. Benincá cita o avanço da inteligência artificial como um possível fator de mudança nos padrões de contratação.
Os efeitos para o Brasil também dependem da trajetória da economia americana. No curto prazo, dados mais fracos de emprego nos Estados Unidos tendem a favorecer o real e estimular a entrada de recursos no país.
No médio prazo, porém, uma desaceleração mais acentuada da economia americana poderia pressionar as commodities. “Se a economia americana esfria, derruba os minérios, derruba o petróleo”, afirmou.
O movimento pode afetar empresas brasileiras ligadas às commodities, como a Petrobras e companhias do setor de mineração. Segundo Benincá, o dinheiro que inicialmente entra no país por meio do câmbio favorável pode posteriormente deixar o mercado brasileiro diante da perda de valor dessas empresas.
O comportamento das bolsas na sexta-feira foi citado pelo consultor como exemplo. Enquanto o mercado acionário americano bateu recorde, o Ibovespa recuou cerca de 2%, pressionado também por balanços corporativos considerados fracos.
Para o investidor brasileiro, outro fator de atenção é a trajetória da taxa básica de juros doméstica. Benincá afirma que o mercado permanece sem clareza sobre os próximos passos do Banco Central, diante da falta de sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom).
Segundo ele, a diferença entre os juros brasileiros e americanos atualmente está em torno de 10 pontos percentuais. Caso a taxa brasileira comece a cair e se aproxime dos juros americanos, o retorno oferecido pela renda fixa nacional pode se tornar menos atrativo para investidores estrangeiros, reduzindo o fluxo de recursos para o país.
Leia também: Payroll fraco reduz pressão por alta de juros nos EUA
A expectativa, portanto, está concentrada na divulgação dos dados anuais do mercado de trabalho americano, em 28 de agosto. O resultado poderá ajudar a definir se o Federal Reserve caminhará para um corte, manutenção ou eventual alta dos juros e, consequentemente, quais poderão ser os efeitos sobre o mercado brasileiro e as próximas decisões do Copom.
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