CNBC

CNBCEconomia da Índia cresce em ritmo acima do esperado, com alta de 7,8%

Vida nas organizações Joaquim Santini

IA não vai quebrar o Mercado, mas pode quebrar a sua liderança

Publicado 27/02/2026 • 14:30 | Atualizado há 3 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Na última semana, o ecossistema financeiro global foi capturado por um pesadelo em formato de PDF que se tornou viral: o ensaio “A Crise Global de Inteligência de 2028”, publicado pela Citrini Research. Escrito como um memorando vindo do futuro, o texto projeta um cenário desolador: o S&P 500 despenca 38%, o desemprego atinge 10,2% e uma espiral deflacionária é desencadeada pela substituição em massa de trabalhadores de colarinho branco por agentes de inteligência artificial.

Independentemente da robustez técnica dessas projeções, o mais interessante não é o cenário em si. É a reação. Por que líderes experientes, acostumados a ciclos econômicos e rupturas tecnológicas, respondem a esse tipo de narrativa como se ela fosse inevitável?

O que está em jogo não é apenas economia. É psicologia.

A IA não é uma ameaça externa ao mercado. Ela funciona como um espelho da arquitetura invisível das organizações — a trama de pactos, medos, lealdades e silêncios que realmente governa decisões no C-Suite.

Quando a Realidade Não Confirma o Pânico

Apesar das previsões apocalípticas, os dados mais recentes não sustentam uma substituição sistêmica abrupta. A demanda por profissionais técnicos permanece

elevada, e o uso corporativo de IA generativa tem se expandido de forma gradual e assimétrica — mais como reconfiguração de funções do que como eliminação em massa.

Isso não significa que não haja deslocamento. Significa que a transformação é mais estratégica do que espetacular. Empresas não estão “demitindo o futuro”. Estão redesenhando papéis, automatizando tarefas específicas e redistribuindo poder interno.

O medo, no entanto, não responde a dados. Ele responde à ameaça de irrelevância.

A IA não desafia apenas estruturas de custo. Ela desafia identidades profissionais consolidadas, competências históricas e zonas de conforto hierárquicas. E líderes, como qualquer grupo humano, tendem a defender identidade antes de defender estratégia.

Se a liderança quebrar sob pressão, não será por causa do algoritmo. Será pela incapacidade de lidar com as forças invisíveis que moldam decisões sob estresse.

O Erro Central: Resolver o Adaptativo com Ferramentas Técnicas

Muitas organizações estão tratando IA como projeto de tecnologia. Instalam sistemas, contratam consultorias, criam squads e anunciam metas de eficiência.

Mas o desafio central não é técnico. É adaptativo.

Desafios técnicos têm solução conhecida. Autoridade decide, especialistas implementam. Desafios adaptativos exigem mudança de mentalidade, revisão de incentivos e enfrentamento de medos coletivos.

Sintomas de abordagem equivocada são claros:

  • Projetos liderados exclusivamente por TI
  • Métrica principal restrita à redução de headcount
  • Nenhuma revisão dos critérios de avaliação de desempenho
  • Nenhuma conversa estruturada sobre insegurança profissional

Quando a IA é tratada apenas como software, a organização muda superficialmente. Quando é tratada como catalisador de transformação, a empresa precisa revisar o que valoriza, como decide e quem exerce influência.

A pergunta estratégica não é “quanto vamos economizar?”. É “quem precisaremos nos tornar para competir neste novo cenário?”.

A Empresa Como Corpo: Músculos e Sistema Nervoso

Estratégia, processos e organogramas são os músculos da organização. São visíveis, documentáveis, mensuráveis.

Mas o que determina movimento real é o sistema nervoso invisível: a cultura implícita, os pactos não verbalizados, as lealdades históricas e os medos silenciosos.

Você pode aprovar um plano brilhante no board. Se houver medo de exposição, disputa territorial entre áreas ou lealdade excessiva ao passado, o plano não fracassa por falta de orçamento. Ele fracassa por falta de energia psíquica coletiva.

Transformações tecnológicas frequentemente falham não por incapacidade técnica, mas por bloqueios simbólicos.

Três Forças Invisíveis Que Travam a Execução

Pactos silenciosos. Acordos não verbalizados sobre o que não pode ser tocado. A empresa fala em eficiência com IA, mas certas áreas permanecem intocáveis. A transformação acontece nas bordas, nunca no centro do poder.

Fantasmas institucionais. Narrativas do passado que aprisionam o presente. “Sempre fomos referência” pode ser orgulho legítimo — ou anestesia estratégica que impede reinvenção.

Zonas de congelamento simbólico. Territórios onde discussões sempre terminam igual. Reuniões produzem consenso superficial, mas nenhuma alteração real em incentivos ou estruturas.

Enquanto esses elementos não forem enfrentados, nenhuma tecnologia produzirá transformação consistente.

Realismo Econômico: Nem Apocalipse, Nem Ingenuidade

Existem limites físicos e econômicos para qualquer aceleração tecnológica. Computação em escala global exige energia, infraestrutura e capital intensivo.

Isso impõe fricções reais à ideia de substituição total e imediata do trabalho humano.

Mas substituição não precisa ser total para ser disruptiva. Um ganho de 20% de eficiência em funções administrativas já altera estruturas de custo, remuneração variável e distribuição de poder interno.

A IA não extingue necessariamente o trabalho. Ela altera o que é considerado valioso. Como já se observou em revoluções anteriores, ganhos de produtividade tendem a expandir fronteiras de consumo e gerar novas demandas.

O verdadeiro desafio não é existência de trabalho. É distribuição de ganhos.

Se empresas concentrarem excessivamente os benefícios no capital, ignorando impactos culturais e sociais, o risco não será colapso imediato — será erosão lenta de engajamento, confiança e legitimidade.

E organizações podem sobreviver a ciclos econômicos. Mas raramente sobrevivem à perda prolongada de confiança interna.

O Verdadeiro Risco Até 2028

O maior risco da IA não é a inteligência da máquina. É a fragilidade emocional da liderança.

Em momentos de incerteza, líderes podem:

· Usar a IA como pretexto para decisões já desejadas

· Postergar conversas difíceis sob o argumento de “esperar mais dados”

· Ou acelerar mudanças sem preparar culturalmente a organização

Liderança adaptativa exige três movimentos concretos:

1. Tornar discutíveis os temas hoje protegidos por silêncio.

2. Revisar incentivos antes de implantar tecnologia.

3. Criar segurança psicológica real para aprendizado — não apenas discurso de inovação.

A economia de amanhã não pertencerá às empresas com mais algoritmos. Pertencerá às que conseguirem atravessar seus próprios medos sem terceirizar responsabilidade para o futuro.

IA não quebra mercados sozinha. Mas liderança fragilizada sob pressão quebra qualquer estratégia.

E esse risco não está no código. Está na sala de reunião.

Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no

MAIS EM Joaquim Santini

;