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O trabalhador brasileiro é otimista, engajado — e está exausto
Publicado 15/04/2026 • 11:10 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 15/04/2026 • 11:10 | Atualizado há 2 meses
Arte - Times Brasil
No Brasil, 32% dos trabalhadores estão engajados — ou seja, conectados psicologicamente ao trabalho, à equipe e à organização
Relatório global da Gallup revela que o Brasil supera os EUA em quase todos os indicadores de experiência no trabalho. Mas o estresse recorde e a crise dos gestores acendem um alerta.
O relatório State of the Global Workplace 2026, publicado nesta semana pela Gallup com dados de mais de 140 países, traz uma constatação que desafia a visão tradicional de que o Brasil está sempre atrás das economias avançadas: o trabalhador brasileiro, por quase qualquer métrica relevante, está em melhor situação do que o americano.
Os números são contundentes. No Brasil, 32% dos trabalhadores estão engajados — ou seja, conectados psicologicamente ao trabalho, à equipe e à organização. A média global é de 20%. Nos Estados Unidos, referência recorrente no mundo corporativo, o índice é de 31%. O Brasil, portanto, supera a maior economia do planeta.
No campo do bem-estar, a diferença é ainda mais expressiva. 58% dos brasileiros que trabalham se declaram em estado de prosperidade — o que a Gallup define como thriving, quando a pessoa avalia positivamente sua vida atual e suas perspectivas para os próximos cinco anos. Nos EUA, esse número é de 51%. Na Europa, 49%. No Leste Asiático, apenas 32%.
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A percepção sobre o mercado de trabalho também chama atenção: 66% dos brasileiros acreditam que este é um bom momento para encontrar emprego. Nos Estados Unidos, esse índice caiu para 47% — a segunda pior percepção entre todas as regiões do mundo, com uma queda de 23 pontos desde 2019. O Brasil, que há pouco mais de uma década operava na faixa dos 30%, vive hoje um dos seus melhores momentos nesse indicador.
Os dados emocionais reforçam esse contraste. A solidão no trabalho atinge 10% dos brasileiros, contra 19% nos EUA e 22% na média global. A raiva diária aparece em 17% no Brasil, frente a 18% nos Estados Unidos e 22% no mundo. Em praticamente todos os indicadores, o trabalhador brasileiro apresenta melhores resultados.
Mas há um ponto de inflexão — e ele não pode ser ignorado.
O estresse diário entre trabalhadores brasileiros chegou a 45%. É superior à média da América Latina (43%), à média global (40%) e só fica abaixo dos Estados Unidos (50%) entre as grandes economias. A tristeza diária alcança 19%, acima dos 18% da média regional. E ambos os indicadores vêm crescendo ao longo da última década.
O retrato, portanto, é paradoxal. O Brasil reúne um trabalhador que acredita no futuro, se sente conectado ao trabalho e experimenta menos solidão e raiva do que seus pares globais. Mas esse mesmo trabalhador opera sob pressão crescente. Trata-se de um capital humano valioso — e, ao mesmo tempo, vulnerável.
A Gallup observa que a América Latina ocupa uma posição singular: lidera o ranking global de bem-estar (56% em prosperidade) e apresenta o menor índice de solidão no trabalho (12%). Em contrapartida, o estresse está acima da média global e cresce de forma consistente. O latino-americano encontra sentido no trabalho e nas relações — mas paga um preço crescente em termos emocionais e físicos.
Até aqui, seria possível tratar esses dados como um fenômeno macro — algo difuso, estrutural, quase inevitável.
Não é.
Se há um dado que deveria acender um alerta imediato para CEOs, não são apenas os níveis de estresse — mas a queda no engajamento dos gestores.
Desde 2022, o engajamento de gerentes caiu nove pontos percentuais no mundo, a maior retração já registrada pela Gallup. A queda mais acentuada ocorreu entre 2024 e 2025: cinco pontos em um único ano, de 27% para 22%.
Historicamente, ocupar uma posição de gestão significava também maior engajamento. Esse diferencial praticamente desapareceu. Hoje, globalmente, gestores estão tão engajados quanto as pessoas que lideram.
Na prática, isso significa que o principal elo de execução das organizações está operando sem a energia necessária para sustentar desempenho consistente.
E aqui está a pergunta que raramente é feita de forma direta: o modelo de gestão da sua empresa está produzindo líderes sustentáveis — ou apenas sobreviventes de alta performance?
A América Latina segue a mesma trajetória. O engajamento de gestores está em 38% — ainda acima da média global, mas em queda. E sinais vindos de outros mercados, como a Índia, indicam uma tendência relevante: estruturas mais enxutas, menos gerentes, equipes maiores e maior pressão sobre quem lidera.
O relatório revela um ponto incômodo: líderes apresentam níveis significativamente mais altos de estresse, raiva, tristeza e solidão do que seus subordinados. Em comparação com contribuintes individuais, gestores registram 12 pontos percentuais a mais de raiva diária, 11 a mais de tristeza e 10 a mais de solidão.
Liderar amplia a autonomia — mas também aumenta o isolamento e o peso das decisões.
Em muitas organizações, isso já deixou de ser exceção e passou a ser o modelo.
A boa notícia é que o engajamento funciona como um amortecedor emocional. Quando gestores estão engajados, seus níveis de emoções negativas caem abaixo dos de suas equipes, e sua probabilidade de prosperar aumenta em 14 pontos.
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A má notícia é que isso não acontece por acaso — e, na maioria das empresas, não está sendo tratado como prioridade estratégica.
A Gallup estima que o baixo engajamento custou à economia global cerca de US$ 10 trilhões em produtividade no último ano — o equivalente a 9% do PIB mundial.
Isso não é um problema de clima organizacional.
É um problema de desempenho.
E aqui está o ponto central: o Brasil parte de uma base relativamente favorável. Um nível de engajamento de 32% não é extraordinário em termos absolutos, mas está 60% acima da média global. Há, portanto, uma vantagem real.
O trabalhador brasileiro demonstra níveis de otimismo, conexão e resiliência emocional que muitas economias avançadas não conseguem replicar. Quando se fala em “custo Brasil”, raramente se considera esse ativo.
Mas vantagens competitivas não se sustentam sozinhas.
O aumento do estresse, a pressão crescente sobre gestores e a ausência de investimentos consistentes em gestão de pessoas podem corroer rapidamente esse diferencial. O relatório mostra que, nas organizações de referência global, 79% dos gerentes estão engajados — quase quatro vezes a média mundial.
A diferença não está no orçamento nem na tecnologia.
Está em decisões que muitas empresas ainda evitam tomar:
O engajamento global caiu pelo segundo ano consecutivo. A América Latina também recuou. E as emoções negativas no trabalho seguem acima dos níveis pré-pandemia.
A vantagem brasileira existe — mas é frágil.
E a pergunta que permanece não é se o trabalhador brasileiro está engajado.
É por quanto tempo ele continuará assim dentro do modelo de gestão que a maioria das empresas ainda sustenta.
O trabalhador brasileiro acredita no que faz.
A questão é se as empresas estão à altura dessa crença.
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