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Vida nas organizações Joaquim Santini

O País Onde o Escândalo Já Não Escandaliza

Publicado 07/03/2026 • 12:50 | Atualizado há 3 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

O Brasil parece ter entrado em um regime peculiar de normalidade. Escândalos surgem, denúncias se multiplicam, investigações avançam, personagens caem — e, pouco tempo depois, tudo parece voltar ao mesmo lugar. Antes que um episódio seja plenamente compreendido, outro já ocupa o centro da arena pública. A sucessão é tão rápida que o país vive permanentemente entre a indignação e o esquecimento. 

Esse fenômeno tem se tornado cada vez mais visível. Escândalos que em outros momentos provocariam semanas de debate público intenso hoje produzem ciclos de reação cada vez mais curtos. Um episódio domina as manchetes, gera explosões nas redes sociais, mobiliza discursos inflamados — e desaparece poucos dias depois, substituído por outro. 

O problema não está apenas na existência dos escândalos. Democracias maduras também enfrentam abusos de poder, corrupção e crises institucionais. O verdadeiro risco está no efeito social e simbólico que a repetição dessas crises produz. 

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Quando a transgressão se torna rotineira, ela deixa de operar como ruptura e passa a ser absorvida como parte da paisagem. O que deveria provocar choque passa a produzir apenas cansaço. O que deveria mobilizar consciência pública passa a ser recebido com um comentário irônico, um gesto de resignação ou uma breve explosão digital que rapidamente se dissolve no fluxo de novas notícias. 

É nesse ponto que surge aquilo que podemos chamar de anestesia coletiva. Não se trata de indiferença pura e simples, mas de um esgotamento moral progressivo. A sociedade continua vendo, continua ouvindo, continua comentando. Mas já não consegue transformar percepção em energia cívica duradoura. 

Quando tudo é grave o tempo todo, o senso de gravidade se embaralha. 

E, pouco a pouco, o absurdo deixa de parecer absurdo. 

Imagem gerada por inteligência artificial generativa

Sob a lente da psicodinâmica institucional, esse fenômeno revela algo ainda mais profundo. Assim como ocorre nas organizações, sociedades também constroem estruturas invisíveis para lidar com tensões difíceis de elaborar. Pactos silenciosos, alianças implícitas e zonas de silêncio passam a organizar a vida coletiva de maneira subterrânea — não porque alguém os tenha deliberadamente planejado, mas porque funcionam como mecanismos de proteção simbólica e coletiva diante de um ambiente percebido como permanentemente instável. 

É nesse contexto que proponho o conceito de Arquitetura Psicodinâmica das Instituições — uma chave de interpretação para compreender como instituições e sistemas sociais realmente funcionam para além das regras formais. Trata-se do conjunto de forças simbólicas, inconscientes e afetivas que estrutura o funcionamento real de organizações e sistemas sociais em um nível diferente daquele descrito pelas leis, normas e discursos oficiais. 

Nesse nível invisível da vida institucional, as decisões devem ser tomadas antes de serem anunciadas, tolerâncias se consolidam antes de serem reconhecidas e limites desaparecem muito antes de serem oficialmente abolidos. Não se trata de uma conspiração organizada, mas de um sistema de defesas coletivas que emerge quando tensões estruturais permanecem por longos períodos sem resolução clara. 

Quando aplicamos essa lente ao ambiente político e institucional brasileiro, algo importante começa a se tornar visível: a repetição de escândalos pode acabar sendo absorvida como parte dessa arquitetura defensiva. Em vez de provocar transformação, ela passa a ser metabolizada como parte do funcionamento normal do sistema. 

O que não pode ser resolvido passa a ser banalizado. 
O que não pode ser enfrentado passa a ser naturalizado. 

Uma sociedade começa a adoecer quando o escândalo deixa de produzir espanto e passa a produzir apenas cansaço. 

Esse processo produz três efeitos corrosivos. O primeiro é a perda do espanto. Sem espanto, a vida pública perde sua referência moral mínima. O segundo é o enfraquecimento da indignação. Quando reiteradamente frustrada, a indignação se converte em exaustão. O terceiro é a expansão do cinismo. 

E o cinismo é particularmente perigoso porque não grita, não propõe, não transforma. Ele apenas sussurra que “sempre foi assim”, que “nada vai mudar”, que “todos são iguais”. 

Nesse ambiente psicológico, a confiança institucional começa a se deteriorar lentamente. Não necessariamente porque as pessoas deixem de perceber os problemas, mas porque passam a acreditar que nenhuma reação coletiva será capaz de alterá-los de forma significativa. 

Esse fenômeno se conecta a algo que venho chamando de cultura do excesso. Vivemos hoje em um ambiente saturado por excesso de informação, excesso de denúncias, excesso de narrativas e excesso de indignação momentânea. Paradoxalmente, quanto mais excesso produzimos, menor se torna nossa capacidade de processar aquilo que realmente importa. 

O excesso gera saturação. 
A saturação produz cansaço. 
E o cansaço abre espaço para a acomodação. 

Do ponto de vista institucional, isso revela a formação de uma arquitetura coletiva de adaptação defensiva. Quando tensões persistem sem resolução clara, a sociedade desenvolve formas silenciosas de acomodação. Não se trata de aprovação explícita do que acontece, mas de uma reorganização simbólica que permite continuar vivendo mesmo quando certos limites parecem continuamente atravessados. 

O problema é que democracias não adoecem apenas por excesso de corrupção ou abuso de poder. Elas também adoecem quando a sociedade perde a capacidade de se afetar pelo que vê. 

Quando o escândalo já não escandaliza, abre-se espaço para a normalização do inaceitável. 

Talvez esse seja o momento mais delicado de qualquer democracia: quando a indignação ainda existe, mas já não mobiliza; quando a crítica continua sendo feita, mas já não transforma; quando a sociedade vê tudo — e reage cada vez menos. 

Porque o escândalo ainda indica que algo saiu do lugar. 

A anestesia coletiva revela algo mais grave: que talvez estejamos começando a nos acostumar a viver em um país onde o que deveria nos espantar já não espanta mais.

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